Edição 1 - 13.08.20

Um homem negro, um mito grego

Caio Bonifácio e Sabrina Guimarães

Sidney Amaral, Alegria dos envolvidos, sem data. Fonte: https://arthur.io

A pintura Alegria dos envolvidos, de Sidney Amaral, tem um fundo preto sobre o qual é representada uma cena: um homem carrega uma pedra grande, do tamanho de seu próprio corpo, atada a sua testa, enquanto se equilibra no topo de uma torre de livros. Uma composição simples, o fundo é preto e os elementos da composição estão centralizados entre si e em relação ao quadro todo. A imagem parece desconjuntada, como uma colagem: é como se a torre de livros fosse formada por duas pilhas menores juntas, uma parte está em perspectiva diferente da outra, nem o homem parece realmente sentado nos livros, mas colado sobre eles. A princípio, a cena parece fazer referência ao Sísifo da mitologia grega, tanto quanto parece algo próxima de uma gravura de Goya, pintor espanhol do século XVIII. A gravura de Goya faz referência ao mito de Atlas, fadado a carregar o mundo nas costas, atualizado em um camponês que carrega um fardo de feno sobre o corpo espremido – também trabalho que sustenta o mundo.

Francisco de Goya y Lucientes, Le Portefaix, 1812 – 1823. Fonte: RMN, Musée du Louvre
  1. A primeira informação vem de uma empatia, a imagem é pesarosa, triste, angustiante. É uma dor que nos encontra, que nos atinge por algo que talvez compartilhemos com ela, em uma identificação – quando digo nós, digo Caio e Sabrina, dois jovens negros autores deste texto. Onde está a dor? No rosto compenetrado do homem, no esforço de equilibrar-se sobre uma pilha de livros, no castigo de carregar uma pedra imensa presa pela testa? Como uma dor muito sentida, mas pouco expressada: nada mais, além da expressão séria, atenciosa e esforçada desse homem. Nada mais parece dizer dor, não há o grito desesperado, a contração de todos os músculos ou o choro desalentado que se espera de alguém que sofre – a dor é contida. Da identificação pessoal, tendemos a ver a imagem como uma narrativa: O que ele faz lá em cima? Ele subiu já com a pedra, ou a pedra surge depois da subida? Ela cai ou não? Questões que se vão quando pensamos que a pintura é uma construção; não relato, mas registro ambíguo da realidade.

Há algo na pintura que retoma a obra de Caravaggio, o característico fundo preto sobre o qual se apresenta uma cena montada em estúdio e que se deixa evidente como tal – por um pedaço de corda que sustenta o menino em pé ou pela diferença de iluminação entre uma figura e outra. Se a montagem é evidente, os elementos não parecem naturalmente juntos, como em uma cena real, mas juntados pela arte.

Justamente no período de transição da dinâmica de produção coletiva das guildas medievais para uma exploração capitalista do trabalho (especializado, alienado e assalariado), o procedimento de Caravaggio aponta para uma resistência ambivalente – afirmando o artista como um intelectual, não apenas um trabalhador braçal, tanto se cria um valor que distingue o objeto de arte entre outros objetos comuns, quanto se detém ao artista individual parte inalienável de seu trabalho. Além de carregar essa semelhança, a pintura de Sidney Amaral realmente compartilha algo com a forma de Caravaggio – de sua resistência ambivalente na afirmação de uma intelectualidade do artista? 

Nessa manipulação de recortes, os significados também são colados. Cada um dos elementos parece trazer seu próprio significado, o que aponta para uma multiplicidade infinita de sentidos. Assim, eles criam um novo contexto geral, na medida em que mantêm seu conteúdo específico. A forma de Caravaggio (do 1600 europeu) é trazida ao Brasil do século XXI para trabalhar com um homem negro em roupas contemporâneas o mito de Sísifo, a gravura de Goya e uma pilha de livros com Joseph Beuys e William Blake

Por que hoje, depois de várias tentativas de elaboração de uma história cultural positiva do negro, com a valorização de mitos e métodos negros, Sidney Amaral parece buscar suas referências no mundo branco, no passado grego – tomado como berço da civilização ocidental?

O mito que a pintura parece referenciar conta a história de Sísifo, que enganou os deuses do Olimpo e a morte por três vezes. Quando enfim morreu, Sísifo recebeu de Zeus o castigo de rolar uma pedra de mármore até o topo da montanha mais alta, mas sempre que completasse a tarefa a pedra rolava novamente até o pé da montanha e seu trabalho deveria ser refeito. Hoje, a expressão “trabalho de Sísifo” se refere a uma tarefa que envolve longos esforços, repetitivos e fadados ao fracasso – um eterno retorno ao início, sem que o trajeto tivesse qualquer resultado, ou se pudesse sair dessa situação.

Ticiano Vecellio, Sísifo, 1548-49. Fonte: wga.hu

Não é o homem negro, mais do que qualquer um, quem precisa enganar a morte todos os dias? As estatísticas** mostram que, ao menos no Brasil, a população negra é a maioria assassinada – uma pessoa negra tem mais que o dobro de chances de ser morta que uma pessoa branca. Os homicídios tão recentes de homens, mulheres e crianças negras causados pela polícia dispensam estatísticas – só no Brasil, nos últimos meses as mortes de João Pedro e Ágatha Félix pela polícia militar do Rio de Janeiro tiveram relativa divulgação. 

** Assim é porque as estatísticas só mostram o que é registrado, mas existe toda uma realidade além dos números, ainda não acessada pelos cálculos de população.

A extinção sistemática da raça negra é um projeto levado pelo estado brasileiro pelo menos desde a proibição da escravidão. Isso se expressa tanto nos assassinatos tão diretos quanto na negligência de saúde, saneamento básico, educação, espaço nos debates públicos, que foi paulatinamente produzida. Mais pobre, a população negra é a que mais depende do serviço precarizado do SUS, assim como é a que mais sofre violência médica, a mais desempregada, a maior parcela entre a população em situação de rua, a que – atualmente, na produção social do genocídio negro – mais morre de covid-19* e por aí segue. 

Não estaria isso sedimentado na pedra que esse homem negro (e talvez toda pessoa negra) traz amarrada na testa, sempre puxando para trás, com a função de derrubá-lo enquanto ele faz força para a frente, compenetrado, segurando a dor e tentando manter o equilíbrio? A raça é essa pedra, que o homem negro vigilante na imagem faz força para sublevar, mas que o puxa para baixo com o peso que a compõe. Ainda que haja tentativas de resgate de uma cultura africana para positivação da ideia de negritude (uma elevação que é a retomada de uma cultura não deturpada pelo racismo), a raça continua sendo essa pedra, pelo uso que o racismo faz dela.

Além disso, o que se espera sobre as referências de um artista negro engajado com questões raciais no Brasil? Fazer alusão ao mito grego de Sísifo pode ser interpretado como um das formas de subir na pilha de livros, o conhecimento que compõe a montanha do artista e do intelectual. No jogo dicotômico das raças, é necessário para o negro em busca da humanidade alcançar a cultura, os valores, os hábitos daquele que é compreendido como humano  – o branco. Na impossibilidade de falar de si como auto referente, é necessário antes dizer sobre a existência daquele que precede todas as outras existências, que é total – o branco. Por que a escolha de referir-se a um mito grego? É lá que se encontra o princípio das significações? O mito grego foi tomado por representação universal do que se compreende por humanidade. Será que o trabalho de Sidney Amaral subverte isso apresentando uma forma particular, específica, segmentada, de existência? 

A dupla dimensão de ser enquanto negro é ser em relação. Ou se faz referência buscando ser como aquele que é  – o branco, o mito grego, o Sísifo. Ou afirma-se enquanto negação, tomando para si o lugar de outro, o avesso daquele que é a princípio.  

Nesse sentido, no exercício de representação, apropriação e traição em cima do mito grego, elemento fundante da cultura e civilização ocidental, Sidney Amaral toma para si a condição de sujeito em uma postura ativa. A particularidade de homem negro que modifica o Sísifo – representação daquele que é –, ao expressar suas particularidades, traz para a identidade negra o caráter total da sua existência. Sidney Amaral não se adapta ao Sísifo, mas expressa sua existência não compartimentada através do mito enquanto elaboração da experiência humana no mundo.

Na impossibilidade de falar de si como auto referente, é necessário antes dizer sobre a existência daquele que precede todas as outras existências, que é total – o branco.

A pedra da pintura de Sidney Amaral é um fardo, tão pesado quanto o fardo para o homem da gravura de Goya, mas essa pedra é endereçada. Parafraseando Frantz Fanon, o homem que aparece na pintura de Amaral não é o homem, é o homem negro. Também vale perguntar se o primeiro impacto de empatia causada em nós, que escrevemos este texto, é um dado de nossa especificidade preta ou se deriva do próprio encontro com a existência por si só massacrante de um Atlas negro.

Entre Atlas e Sísifo, em Sidney Amaral, qual a diferença entre carregar o peso do mundo ou estar fadado a subir a montanha com a pedra que fatalmente irá despencar? Acreditamos que o trabalho do artista corrige a pretensão universal do mito grego, motivo que também animou a revolução haitiana: uma aplicação universal da universalidade dos conceitos. No mito de Sísifo, paradoxalmente, sua existência é sua tarefa e sua tarefa é o que o limita – Sísifo é aquele que carrega a pedra, assim para nós como para ele, e não pode mais caminhar além disso. O que sucederia a revolta de Sísifo? Qual seria a punição se Sísifo não carregasse a pedra? E o que se daria se esse Sísifo fosse um homem negro no Brasil de hoje?

Na pintura de Sidney Amaral, o homem negro carrega a pedra, assim como em Sísifo. Mas esse homem negro caminha. Se assumirmos que Sidney Amaral escolhe referir-se ao mito grego para pintar o homem – que não é o homem, mas o homem negro – poderíamos arriscar pensar que seu Sísifo é diferente do original, ele carrega a pedra, mas caminha. A tarefa de Sísifo nunca se conclui, mas o homem negro dessa pintura avança, na medida em que a pintura se apropria e transforma a referência mitológica – que é expressão de uma cultura ocidental legitimada, expressa também na pilha de livros sobre a qual ele se equilibra. 

Entretanto, a pintura é estática, lá, o homem negro carregando a pedra amarrada na testa e se equilibrando sobre a pilha de livros ainda existe. Como o título sugere, há uma alegria dos envolvidos nesse processo. Será essa alegria um prazer ou um ganho com a dor desse homem negro?

* Se o vírus covid-19 é a tecnologia mais avançada para esse genocídio, no decorrer do tempo, essa ferramenta se transforma. Hoje, ainda há o colesterol alto, a hipertensão e a diabetes, que afetam, mais que qualquer um, as pessoas negras. 

 

Caio Bonifácio é colaborador da revista Tonel.

Sabrina Guimarães é mestranda em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pesquisadora integrante do grupo de pesquisa Relações Raciais: Memória, Identidade e Imaginário (PUC-SP) .Tem experiência de pesquisa na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras com foco do debate de identidade racial. Trabalhou por dois anos com mediação em exposições de arte no Sesc- SP.

 

⇾ Para mais aspectos da obra de Sidney Amaral, vale assistir a palestra de Claudinei Roberto da Silva no MASP

⇾ A discussão sobre construção da identidade do negro se desenvolve, sob diferentes perspectivas, nos textos da psicanalista brasileira Neusa Sousa Santos Tornar-se negro, do psiquiatra martinicano Frantz Fanon Peles negras, máscaras brancas e no livro do sociólogo marxista brasileiro Clóvis Moura Sociologia do negro brasileiro.

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