Edição 3

Edição 3 - 21.10.21

Toda Bicha é um potencial incêndio

BRACO

“Quero ficar tonto, ver em câmera lenta, dormir um sono pesado. Quero rir da risada que não dei ainda.”

Essas palavras foram escritas por mim, não me lembro sob qual contexto nem sobre qual droga estava me referindo, mas era isso. Uma droga, uma lembrança-desejo de quando estive drogado. A história já começa assim, uma desinformação, um disse-me-disse ao qual me submeto.

Para introduzir: Aos 5 anos de idade fui chamado de “bichona”.

Tinha uns 12 anos e fui pra escola, 20 minutos de metrô mais ou menos e depois mais uns 30 de ônibus. No corredor esse menino que não se apresentou, foi chegando. Eu ri da primeira piada, ele se apegou, em outro dia ele pediu que eu desse um selinho, algo me disse que não deveria. Os amigos assistiam a cena de dentro da sala, não os meus, os dele, rindo, prontos para o que acontecesse, olhei pra ele e também vi um sorriso. Era uma armadilha. Passou um tempo e me distraí, apoiei o braço no muro baixo do corredor e olhei para o pátio sem saber que da próxima vez que levantasse o olhar já seria tarde. O menino se aproximou por trás, enfiou as mãos na minha bunda e arrancou na unha cada uma das minhas nádegas que ficaram pulsantes entre seus dedos. Esqueci.

Quando fui fazer o caminho de volta pra casa já devia ter lá meus 14. ALERTA: O moço no ponto de ônibus me avisou: “todo viado é um alarme falso”. Mas isso foi depois do segundo menino (esse se chamava Gustavo) ter pedido para que eu o seguisse até sua casa e lá o chupasse. De novo eu soube que se tratava de uma armadilha, não respondi mas pensei uma resposta pro moço: “Uma cortina de fumaça pro macho”. Dessa vez escapei.

“Teu fogo no rabo vai queimar esse ônibus”, isso quem me disse foi o cobrador, mas eu tava chapado na hora, e na verdade estou adiantado, voltando.

Achei melhor não entrar no ônibus, peguei um táxi “E a pergunta vinha/Eu sou neguinha?” ouvi na voz da Gal e do taxista que, aliás, eu não confiava.

Com 18 eu saí do táxi, dei de cara com o vizinho da minha irmã que também não me falou o nome. Ele foi rápido, abriu o portão, deixou eu entrar na sala e depois no quarto, se virou, daí eu entendi, já estava com o pau dele na mão (se tivesse sido esperto teria arrancado) e quis beijá-lo e ele me disse não, bravo e confuso ele pôs a mão na minha boca e tirou ela de mim, não pude dizer nada depois daquilo, ele guardou a minha boca no meio das coisas dele, não me devolveu mesmo depois de já ter ido embora. Caí na armadilha.

Tudo bem, quando eu fui embora da casa dele peguei uma lotação pra voltar sei lá pra onde, como eu já disse estava drogado. “Toda bicha é um potêncial incêndio”, continuou o cobrador.

“Não estou entendendo”

“A culpa é sua, viado do caralho olha o que você fez. Como eu vou trabalhar agora?”

“Eu não fiz nada”

“Filha da puta, eu deveria te queimar”

“Como?”

“jogar gasolina em você”

O motorista já estava morto. As duas mulheres que estavam atrás de mim conseguiram escapar graças a Deus. Não restou muito, só a carcaça do ônibus e os pneus que queimavam sem parar.

O cobrador não me queimou, mas quando eu tinha 20 encontrei com ele de novo. Ele não me reconheceu. Tava trabalhando de caixa numa loja de conveniência minúscula, eu queria comprar uma coca-cola e ele não queria vender pra mim. Ele me apontou um facão enorme. “Como botar mais lenha na fogueira?” Imagino que tenha pensado. Enfim, arrancou meus braços. Deixei a coca-cola lá.

Lá estava eu, sem bunda, sem boca e sem braço. Sentindo o cansaço de não chegar nunca em casa. Saí de manhã e o Sol já tava se pondo, não quis saber, entrei no ônibus e fui pro centro da cidade.

Sambei mas ninguém viu, toquei pandeiro mas ninguém ouviu, tomei cachaça e ninguém se importou, contei piada mas ninguém riu. Viagem perdida se não tivesse feito uma amiga no trajeto, uma amiga que também não tinha boca nem bunda, ela tinha os braços mas não tinha as pernas que eu ainda tinha.

Entrei no último vagão do metrô e quis voltar para casa. Mas na próxima estação entraram outros três caras (sei o nome de todos mas não vou dizer). Álcool, pólvora, faísca, pavio… não tinha nada disso, tava sozinho. Desenhei no meu caderno um dragão pra ver se ajudava. Fogo de palha.

Tem dois finais:

1- Os caras acharam que eu guardava uma navalha em algum lugar, cortaram o que havia me sobrado. Me dilaceraram, cheguei muito perto de casa mas morri na praia, ou melhor, na beira da estrada, no viaduto recém construído. Acharam meu corpo na ciclofaixa que ninguém usava, meu sangue se espalhou e preencheu os buracos do asfalto, ali cresceu grama, mato, que muito rapidamente foi capinado pelo exército devido a sua característica inflamável.

2- Os caras sequer me notaram, cheguei em casa e limpei as feridas com sabonete líquido e saliva, fingi que eram como qualquer outro machucado aberto na minha arcada dentária. Fiz crescer novos braços, uma nova bunda e uma nova boca verbohemorrágica. Abracei minha mãe no sofá, ela insistiu em mexer no meu cabelo, tentar desembaraçá-lo. Viamos juntos o jornal, ficamos chocados. Mais um dos nossos carbonizado. Acordei no dia seguinte e não vi nada além de cinzas.

Talvez tivesse um terceiro final e um quarto e um quinto…

Ficamos sem resposta, mas pelo menos eu estava chapado.

• • •

 

Meu nome é Lucas Brandão, nasci na Zona Leste de São Paulo, experimento linguagens visuais que vão do desenho ao cinema, assim como práticas artísticas entre a performance, a escrita e a dança. Minhas principais investigações focam na memória, na narrativa assim como as relações entre morte e corporalidade no contexto brasileiro sempre trazendo as minhas vivências enquanto uma bicha negra parda!

Você pode gostar de...