Edição 3

Edição 3 - 16.11.21

Ter uma faca na mão é uma ótima maneira de conseguir atenção

Luisa Callegari

Eu gosto de sangue. Acho uma substância bem bonita.

As 15hrs de uma tarde de outono ensolarada em uma rua deserta dentro de uma cidade grande um corpo nu ensanguentado é carregado ladeira a cima por um outro corpo nu. O corpo nu ensanguentado é arrastado pelo asfalto quente morno pelo outro corpo nu ensanguentado. O corpo nu ensanguentado sendo movido pelo outro corpo nu ensanguentado é um corpo nu ensanguentado morto. Um cadáver de um corpo nu ensanguentado ainda fresco.

Sempre achei sangue bonito. A textura líquida viscosa de mel melado xarope de guaco que bem poderia ser uma calda de sorvete sabor cereja com groselha. A cor de vermelho de vida e de morte e de encanto e de terror. Se morre é por que estava vivo. O sangue quando sai escorre jorrando, incontido. O sangue é para estar dentro. Quando o sangue sai para fora é por que as coisas não vão bem.

A menstruação é sangue dejeto de uma operação mal sucedida do corpo de reproduzir e propagar a espécie. Coagulado misturado com outros líquidos resíduos dejetos. Vermelho arroxeado vermelho amarronzado vermelho azulado.

O sangue que escorre em filete vermelho aberto saindo pelo nariz. Epistaxe. Que veio de uma veia superficial rompida na região interna da narina, parece tão mais líquido e tão mais vermelho do que o sangue menstrual coagulado.

Se eu mataria alguém? Não tenho a menor ideia.

Eu não mataria ninguém hoje.

Esse não é o fim de mundo que eu imaginei. O apocalipse que me mostraram não era esse. As tragédias na arte são sempre cheias de sujeira, caos, desordem.

O fim de mundo que imaginei é de corpos abertos revirados pela rua. Tem cachorros comendo as vísceras arrastadas para fora do ventre. Tem barricadas de fogo labaredas altas ardendo incendiando vielas já sem iluminação cortada há tempos pois as hidrelétricas foram abandonadas. Tem gente escondida gente lutando para viver gente matando gente para manter a gente de perto viva.

Não somos seres limpos.

Por que buscamos com tanta paixão as imagens de corpos arrastados pelas ruas. Por que perseguimos as imagens de sangue. Por que os filmes que lotam bilheteiras pingam sangue e soltam fogo das explosões. Por que queremos o horror. Por que queremos as tragédias. Por que queremos a violência. Por que queremos as mortes. Por que queremos o sangue. Por que queremos o fogo. Por que queremos a sujeira. Por que queremos o suor. Por que queremos as lágrimas. Por que queremos o gozo. Por que queremos a porra. Por que queremos a saliva. Por que queremos os fluídos. Por que queremos

Por que queremos o apocalipse?

Por que a arte busca com tanta paixão as imagens de corpos arrastados pelas ruas. Por que a arte persegue as imagens de sangue. Por que cabe à arte resgatar as vísceras. Por que a espécie humana como civilização ordenada e regrada busca a assepsia. Por que a espécie humana busca na arte com tanta paixão as imagens de corpos arrastados pelas ruas?

Ter uma faca na mão é uma ótima maneira de conseguir atenção

Como esquartejar um corpo? Se eu matasse alguém hoje, teria que procurar no google algumas soluções para ocultar esse cadáver.

Acho que um ácido seria o mais eficiente, mas não sei se dá para comprar sem registro.

Qual a maneira mais eficiente de desmembrar um corpo humano? Para eu ser assassina, precisaria de um pouco mais de conhecimento anatômico.

Lembro sempre do canibal japonês da entrevista da Vice, dizendo que queria comer a bunda da menina mas não conseguiu morder através da pele. Eu tenho muita vontade de morder através da pele. Abrir um buraco com a minha própria boca no meio da barriga de um corpo humano estirado à minha frente. Depois ainda com a boca ir fazendo a autópsia do cadáver ainda morno. Ir separando os órgãos. Em especial os órgãos arredondados e compactos. Um rim, um estômago. O coração, por que não?!

Mas o coração me interessa mais deixar para o final. Dizem que ele segue batendo por algum tempo né. Acho que ia me dar nervoso segurar ele pulsando. Preferia segurar o coração já gelado.

Será que as facas que os assassinos usaram eram bem novas ou mais usadas? Com marcas. Já riscadas e gastas do contato anterior com outros metais ou superfícies rígidas demais. Com o punhal bem limpo? Ou então com marcas de gordura. Com um resto de cheiro de alho. Talvez ainda com um pedacinho pequeno da casca de uma cebola. Com mofo talvez. Com arranhões. Queimadas por fogo. Ou talvez queimadas só por calor. Com cortes feitos por outras facas.

Será que aquelas duas bolinhas de decoração que sempre colocam lá talvez em algum momento tenha servido para alguma coisa? Para fixar melhor a lâmina ao punhal? Acredito que agora sejam sempre de mentira.

Quando a faca é nova, ela reflete bastante. Quando elas estão usadas a superfície uma vez reflexiva vai perdendo sua qualidade de espelho. Doido uma faca ser espelho.

Será que as facas que os assassinos usaram eram bem novas ou mais usadas?

Será que eles contemplaram deslumbrados seus próprios reflexos ao esfaquear suas vítimas?

Será que a mulher que matou o marido depois de anos de abuso pode observar no reflexo da lâmina sua boca com um batom vermelho?

Será que a adolescente que matou o estuprador lembra do esmalte rosa brilhante nas unhas que empunhavam a faca?

Será que depois de terem não mais uma pessoa mas somente um corpo em sua frente seguiram fazendo alguns cortes menores ou pequenas feridas ou então quem sabe talvez mesmo outros grandes buracos ou então escalpelaram a cabeça que ali estava ou então desmembraram ou talvez só decapitaram ou fizeram uma entalho decorativo no cadáver.

Os serial killers ditos psicopatas gostavam de deixar suas assinaturas nos corpos de suas vitimas.

Será que depois de matar alguém, quando não se oculta a arma do crime as pessoas só jogam a faca no chão, ou colocam com carinho ela em algum lugar especial?

Será que dão um abraço depois? Um beijinho?

Me deitaria de conchinha com um corpo morno.

Prefiro as facas pesadas. Parecem mais letais. Parecem mais afiadas. Prefiro as facas com punhal de madeira do que as facas de punhal de plástico. Mesmo que as facas com punhal de madeira já estejam sem fio e as de plástico sejam bem novas e bem afiadas e bem pontudas e bem cortantes, prefiro as de madeira. São mais gostosas de segurar.

Se eu fosse cortar um corpo eu certamente começaria pelo abdome. Bem ali na parte que já é bem mole. Abriria um corte bem ali onde acabam as costelas até chegar na virilha e aí então estenderia um corte para cada lado para poder abrir a pele da barriga como se fosse fazer um origami. Aí retiraria cada um dos pedacinhos. Cutucar alguns órgãos com a ponta de uma faca que nem aquela vez quando estava na escola e fiz autópsia de uma ostra só que sem querer explodi o estômago dela com o primeiro toque e vazou uma gosma verde em cima de tudo.

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Luisa Callegari (n. São Paulo, 1994) vive e trabalha em São Paulo.
Artista multimídia. Mulher, mãe. Interessada em temáticas sobre corpo, violência, sexualidade, pornografia e maternidade. Vem desenvolvendo trabalhos explorando questões do corpo-contínuo, que ocupam um espaço entre o objeto e o abjeto. Participou de exposições no Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Itália e Inglaterra.

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