Edição 3 - 25.08.21

Seleção Natural + é_um_event0_ tomar_um_s0l

Clara Prado + Casul0

Seleção Natural

de Clara Prado

 

olha, precisamos continuar escrevendo porque combinamos que seria assim. 

você se dedicaria a catalogar os pequenos insetos do jardim enquanto eu me encarregaria de nomeá-los. apesar de tudo já ter sido feito, apesar de todos esses anos terem passado sem que descobríssemos uma nova espécie ou palavra. nesse nosso pequeno pedaço de mundo, entre os arranha-céus da maior cidade do país, é muito fácil se esquecer do horizonte. todo dia, às 16:57, exatamente, uma fresta de luz resplandece sobre aquele canteiro ali, tornando tudo um pouco mais claro. todos os dias, nesse mesmo horário, a gente quase se convence da beleza escondida nos erros que vêm se acumulando ao longo da história. ontem, você descobriu que tem o mesmo número de pintas no dorso da sua mão esquerda do que uma joaninha que encontrou na grama e, por um segundo, se convenceu de que isso não pode ser coisa do acaso. já fazem algumas semanas que você tenta encontrar um padrão entre os desenhos nas cascas dos besouros e o mapa topográfico de são paulo. assim que escurece, mergulhados no silêncio do nosso jardim, escutamos um ruído, tão baixo que parece vir de dentro dos pulmões e tão agudo que quase nos faz sangrar por todos os poros. é o barulho da terra girando, junto com todos os arranha-céus de todas as grandes cidades, com todas as pintas da joaninha e os desenhos nos besouros, que vem nos lembrar do enjôo com o qual acabamos por nos acostumar. todos os dias, nesse mesmo horário, vomito um pouco ao lembrar que o universo sempre esteve prestes a acabar e não existe beleza alguma nas ruínas das quais nosso jardim é só mais uma parte. isso vem acontecendo e tudo indica que continuará assim 

a não ser que alguém decida parar o movimento dos astros 

já devem ter tentado.

portanto, o que nos resta é continuar escrevendo, apesar de tudo já ter sido dito, apesar da ausência do horizonte e da falta de ar. talvez por causa dessa falta, também. é por isso que precisamos continuar cultivando esse espaço mínimo que nos foi permitido habitar. sem qualquer pretensão de algum dia enxergar a semelhança entre os escombros das grandes cidades, os cadáveres dos besouros e as constelações de estrelas que, há muito, já viraram buracos negros. fiquemos aqui, com os bichos, as frestas, o enjôo, o silêncio e os erros- todas coisas que se deixam tocar com a ponta dos dedos 

com muito cuidado

principalmente na escala humana que é pequena e vai

diminuindo

diminuindo

diminuindo

diminuindo

diminuindo

é_um_event0_ tomar_um_s0l

de Casul0

tempo: 2 minutos e 30 segundos
cor: azul s0litari0
som: a narração vem de um processo em que eu gravo áudios conversando comigo (diário), na intenção de entender melhor minhas questões e enchergar padrões de sentimentos. a partir dos audios, crio uma intervenção sonora.
ano: 2020, pandemia covid19

 

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clara, 19 anos, tem escrito na tentativa de lembrar de algo que esqueceu há muito tempo. ainda não lembrou.

Nascido em 1996 e  criado na Ilha do Governador. Casul0 relaciona os processos de mudança em que é sujeito; como é capaz de se adaptar, regenerar e transmutar; como sua carne se modifica diariamente para nascer o novo.

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