Edição 2 - 04.09.20

Redes sociais, lagartos e a leveza que não se sustenta

Cris Ambrosio

imagem por Cris Ambrosio

Conheci a série 2 Lizards, de Meriem Bennani e Orian Barki, rolando sem destino o meu feed do moribundo Tumblr, um abrir a geladeira só para dar uma olhada com a vantagem de não precisar levantar. Alguém tinha postado o episódio 6 (veja abaixo), que começa com os lagartos do título, antropomorfizados e dublados pelos autores, conversando em um restaurante com os amigos bichinhos em uma animação que parece de outra época. A dinâmica da conversa prendeu minha atenção por representar bem aqueles momentos em que assuntos diferentes tentam engatar ao mesmo tempo de um jeito meio encavalado e, por um segundo, parece que cada pessoa sai do diálogo para entrar em um mini monólogo que não exatamente responde a nada do que está sendo dito e nem espera uma resposta.

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O real objeto do episódio fica evidente na cena em que uma dramática câmera-lenta mostra a Leopardo mergulhando o dedo no pratinho de uso coletivo da mesa e o levando à boca para provar o molho de soja. Em seguida a cena corta para o isolamento social, as máscaras e todo o resto.

A série surgiu como grande parte das propostas de artistas durante o isolamento social, algo despretensioso que tenta documentar uma fração do clima deste momento histórico pela lente da experiência pessoal; com a diferença de que esse projeto viralizou. Aqui, trata-se do olhar de expatriados em Nova York: Meriem é do Marrocos, Orian é de Israel. Uma boa sacada da dupla foi entender que documentar um clima em uma situação completamente surreal e imprevisível pede ferramentas que pertencem a uma suprarrealidade, uma representação estilizada da vida: animação, personagens não humanos, narrativas não lineares, sonhos com contornos indefinidos etc.

Talvez o que ajude 2 Lizards a ter uma vida fora do Instagram e para além deste momento seja o aspecto de diário das mudanças de prioridades. O início irritante, que abre com o otimismo meio Titanic Afundando dos músicos de varanda tocando jazz (“coisa bem Semana 1 da quarentena” segundo um dos lagartinhos), passa aos aplausos diários aos trabalhadores arriscando suas vidas, populares pelo mundo durante um tempo, mas que nunca emplacaram aqui, chegando finalmente à explosão no número de casos e mortes, aos protestos do Black Lives Matter e à questão do desemprego e dos despejos. Mas sempre sob uma redoma que espanta qualquer nuance de real revolta e indignação: tudo está em temperatura de mamadeira.

Um crítico disse que os episódios pedem para não serem levados muito a sério, o que parece ser condescendente com o próprio trabalho — tudo é passível de ser levado a sério. Por outro lado, 2 Lizards não é um documentário nem uma peça jornalística e como tal, ele não deve explicações sobre o rigor com a qual as situações reais são representadas. Por último, essa aparente leveza e falta de desespero também compõem um cenário de absurdo, queiram ou não os autores.

2 Lizards faz parte de um quadro muito maior de normalização desse tipo de formato projetado para redes sociais específicas. Os vídeos foram criados para visualização no telefone ou tablet virando o aparelho na horizontal, e não foram feitos para serem vistos em um computador, por exemplo, e muito menos para serem compartilhados em um artigo como este; eles existem segundo as vontades do app. Quanto ao conteúdo viral que prospera nessas plataformas, também é de se considerar que justamente por serem mornos, eles se adaptam melhor ao aplicativo, à marca e à imagem correspondente a essa empresa, mesmo que o conteúdo ou trabalho tenha respaldo da rede de influências especializadas que antecede em muito os influencers: a imprensa e os críticos. A dinâmica das redes sociais de um simultâneo falar para todos e falar para ninguém, em meio a uma briga por atenção intermitente e cliques, força os usuários a obedecer seus critérios para tentar emplacar seus próprios conteúdos, e isso é problemático porque toda uma produção se vê moldada em alguma medida por parâmetros de algoritmos bem pouco neutros.

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Para acessar conteúdo completo do Instagram é necessário fazer um login que pode ser vinculado a contas do Facebook ou do Google, cruzando os mais variados dados, que podem inclusive vir de outros aplicativos. A tentativa das galerias de arte de improvisar exposições online, os viewing rooms que poucas vezes não passam de uma sequência de imagens completamente banal, em geral pedem os cadastros dessas contas ou no mínimo um email de contato que em seguida receberá incessantemente notícias de mais e mais viewing rooms

Essa intrincada rede informacional nos leva a Hito Steyerl. A artista alemã tem um trabalho em vídeo de 2013 chamado O museu é um campo de batalha? em que ela investiga, com um didatismo espantoso, os fios que ligam a produção de munições disparadas na guerra civil da Turquia com a produção artística em grandes metrópoles. A tese é de que o espaço de arte é mais do que um espaço não-neutro, não-isolado; ele ativamente integra e movimenta um ciclo global de violência e genocídio.

Is the Museum a Battlefield from Museum Battlefield on Vimeo.

 

É curioso que artistas (e aqui também estou falando de mim mesma) tenham aceitado o Instagram como um tipo de suporte portfólio/cartão de visitas meio acriticamente. O Facebook enfraqueceu como marca – Zuckerberg gaguejando diante do Congresso dos EUA quando questionado sobre a exposição de informações pessoais dos seus usuários ou a tolerância da sua empresa com discurso de ódio já é icônico, motivo de muita chacota para essa rede que não é mais “jovem”. Porém, ao abrir os apps mais simpáticos Instagram e Whatsapp, aparece a mensagem “from Facebook” e, em algum nível, ainda se acredita que tratam-se de coisas diferentes. 

Hito falou em uma entrevista sobre a suposta efervescência do YouTube (Google) como uma alternativa aos grandes produtores audiovisuais, ao que ela respondeu: “eu acho que essa era do YouTube chegou ao fim quando um tempo atrás uma mulher entrou na sede deles e se matou depois de matar outras duas pessoas porque uma mudança no algoritmo tinha acabado com sua renda. A internet do começo do século 21 está morta já faz um tempo. Agora, a história do audiovisual provavelmente está aquecendo o planeta por meio de serviços de streaming, que estão contribuindo exponencialmente para o consumo de energia global. O que costumava ser uma imagem pobre, uma imagem itinerante de baixa qualidade cambaleando por modems, é agora uma imagem cujo poder, impacto e alcance tem como reflexos o consumo de eletricidade, as emissões fósseis, e as guerras por recursos relacionadas. Uma imagem de poder, por assim dizer”.

Toda vez que alguém coloca a ideia de trabalhos de arte em plataformas digitais e redes sociais como algo novo, leve, divertido ou neutro, uma espécie de via alternativa aos espaços tradicionais, essa fala precisa ser retomada. Como ela diz em O museu é um campo de batalha?, o boicote é possível, mas sua escolha como artista é de ocupar os espaços perversos para usá-los minimamente contra eles mesmos, contra a aparência simpática, nova, leve, divertida ou neutra. E isso só pode acontecer uma vez que admite-se que esses espaços são perversos. 

Referências e indicações:

Metados e protestos, como se proteger

Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política, por Claudio Alves Marcondes e Evgeny Morozov:

“Não é difícil chegar a uma conclusão similar: no fundo, estamos diante de nosso próprio aquário digital, repleto de peixes mortos, que milagrosamente continuam a nadar. E fazem isso apesar dos crescentes indícios de que os sonhos utópicos, que estão por trás da concepção da internet como uma rede intrinsecamente democratizante, solapadora do poder e cosmopolita, há muito perderam seu apelo universal. A aldeia global jamais se materializou – em vez disso, acabamos em um domínio feudal, nitidamente partilhado entre as empresas de tecnologia e os serviços de inteligência”. (página 15)

Série 2 Lizards

Medo miasmático e leveza inexplicável: 2 Lizards de Meriem Bennani e Orian Barki, resenha por Simon Wu  

Por que os vídeos super populares da artista Meriem Bennani sobre 2 lagartos descontraídos capturam perfeitamente a estranheza da nossa realidade

2 Lizards no Instagram são estrelas da arte do coronavirus

O museu é um campo de batalha?, Hito Steyerl 

Entrevista: Hito Steyerl sobre o impacto de Harun Farocki, Fake news e ‘Imagens de poder”

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