Edição 3 - 25.06.21

Receitas sobre pensar

Pedro Carneiro

Esse texto reúne anotações do meu caderno de notas.

Primeiro eu gosto de separar o feijão.

Falar de feijão é narrar uma história cheia de prazeres e encontros. Minha intenção aqui nesse texto é pensar em uma forma de lembrar uma receita, não necessariamente de um feijão ou uma feijoada, mas uma receita de memória e afeto. Para começar eu preciso explicar que o feijão é a minha comida favorita, gosto de comer feijão com quase tudo, nunca foi segredo para ninguém. Então para você que não me conhece eu explico. Através da memória do sabor do feijão, eu pretendo desdobrar sobre dois trabalhos meus.

Separe as pedras, os galhos e outras sementes.

Vou começar de forma cronológica. Primeiro veio o gesto e depois a imagem. A filmagem começou de forma despretensiosa, estávamos viajando pela Cidade de  Goiás – GO e resolvemos fazer um feijão para o nosso almoço; alguém com a câmera começou a filmar, talvez eu tenha pedido. Separando o feijão já tínhamos começado uma conversa, lembranças de filmes, melhores músicas para cozinhar o feijão. Preparar um feijão requer um ritual, o silêncio a meu ver não faz parte dele. O silêncio faz parte de um outro momento.

Deixe o feijão de molho em uma bacia com água por algumas horas.

Em um outro tempo, distante do que gravamos tantas imagens daquela viagem, agora, trancado em casa sem poder sair. Um sentimento de desesperança e esperança se encontram, como uma mistura de sabores doces e amargos. Olhar para a imagem do ontem e pensar no futuro, através de uma conversa por mensagem com a minha mãe. Ela compartilhou em poucas palavras um pouco da nossa história e muito do carinho que ela tem em cozinhar. Também expôs uma coisa que ela faz muito, ela nunca me dá uma receita completa. Aprendi a cozinhar com ela através do olhar, exercitar os sentidos para encontrar o melhor sabor. Às vezes é difícil acompanhar as mãos ágeis dela, além de exercitar a visão tenho que estar atento com todos os outros sentidos. Ela ensinou o modo geral de como tratar a comida. Como eu vou prepará-la, isso é uma busca minha.

Corte bem a cebola.

No áudio da minha mãe ela lembra que não existe um segredo para cozinhar um bom feijão, existe a prática. É como desenhar, não existe um desenho bom, existe o desenhar. A história não começa nela, não, ela é continuação. Ela lembra que o avô dela, meu bisavô Tibúrcio, sempre fazia uma feijoada no dia 1 de maio, feriado e aniversário dele. Dando continuidade, mesmo sem saber, minha mãe faz uma feijoada todo dia 23 de abril, dia de São Jorge, para quem ela pede proteção todos os anos. Então como eu havia dito antes, o feijão é o gesto do encontro. Como não lembrar do meu avô Nilson que sempre deixava uma panela de feijão esperando para comermos? Feijão temperado, parecia até chocolate. Um filme para a minha mãe é a celebração da ação dos encontros e do gesto de carinho. O filme termina com a vontade de comer, ou de descobrir mais.

Eu gosto de picar bem o alho, não amassar, picar.

Querendo e desejando outros encontros, nasceu o trabalho para todos os meus feijões, com amor. Uma mistura de panelas vazias com pinturas, fotografias, lembranças e uma breve despedida. Parece muito e realmente é. Esse foi um trabalho pensado inicialmente para acontecer e ficar na memória, como as feijoadas da minha família. O trabalho em si estava no gesto e na troca; na lembrança do sabor. Eu iria preparar uma feijoada e distribuir para um número x de pessoas, até a panela acabar. Era a celebração do final de uma residência artística, era a celebração da troca, das amizades e do nosso apoio em um momento mais delicado, mas tudo um dia veio abaixo.

Coloque o feijão para ferver em uma panela de pressão.

Para os meus feijões favoritos, com amor. Tamanho variável. Panelas vazias, acrílica sobre tela, carta, fotos e spray dourado sobre objetos. 2021. Foto: Jac Melo

O que vem depois do horror?

Depois que der pressão, cozinhe por mais 23 minutos.

 O trabalho inicialmente era uma celebração, mas como comemorar em um momento tão complicado? Sinto que a esperança do início da pandemia foi se derretendo, foi se perdendo. Meu corpo estava se tornando frágil, fragilizado pelo medo. Por vezes me via sentado olhando para o céu e ali me perdia. É preciso me perder. Estava cansado dos bolos e dos pães que fazíamos no início. Sentia falta dos abraços, das cantorias altas e do sabor do feijão em um dia quente de verão. Os corpos suados, as ruas fechadas. Agora só sinto medo. 

Tire a pressão da panela e coloque debaixo da água corrente na pia.

O que vem depois da dor?

Destampe a panela e veja se o feijão está macio.

 A única coisa que sobrou é um vazio, ainda mais hoje, dia 08 de maio de 2021. Dois dias após a chacina do Jacarezinho, dias depois que a covid matou 4.000 pessoas por dia. Não tenho pelo que me alegrar hoje, mas no futuro, espero que em breve, nós possamos nos encontrar, nos abraçar e festejar. Para todos os meus feijões favoritos, com amor é onde eu quero chegar, um lugar agora utópico, mas um futuro que eu quero acreditar ser possível. Relembrando o passado, celebrando a ancestralidade e me reencontrando com os meus.

Refogue a cebola e o alho, até dourar.

As panelas vazias aguardam a comida ser feita, as fotos lembram a última feijoada da minha família da festa de são Jorge no Estação Gloria. As pinturas são o meu gesto de recortar um pouco dessa história e de lembrá-la, a pintura é o significado de cozinhar e servir, mas ao invés da boca lhe sirvo a aprovação dos seus olhos. Como os objetos pintados em dourados, revelam a riqueza dessa ação. Crescemos com medo, continuamos tendo, mas alguma coisa faz com que os nossos encontros valham a pena. Nos dão forças para no dia seguinte voltarmos às nossas vidas nada normais.

Coloque o feijão na panela com o alho e a cebola. Espere apurar o sabor.

A carta, você pode ler depois.

Coma. Antes que esfrie.

Um filme para a minha mãe. 2’18” Imagem: Alice Castanha, Cintya Ferreira, Mariana de Lima, Renata Hein, 2020.
Carta para o feijão e para o Estação

Hoje, infelizmente não teremos feijão, feijoadas e nem encontros. 

É complicado te perguntar como você está, sei que não estamos bem. As notícias que recebemos só pioram. Já tem um tempo que não nos encontramos, eu sei, não vamos nos ver mais… não como éramos, nem como somos. Tenho tantas lembranças dos nossos encontros. Hoje em dia chamamos de aglomeração; eu lembro de ser só um motivo para nos encontrarmos e comermos feijão ou feijoada. 

Lembrança. 

Todos os amigas/os reunidos, família reunida, samba alto, música gritada e cantada. Não lembro como o pulmão aguentava tanto esforço. Alguém com o braço levantado sempre fazia sinal para outra pessoa chegar mais perto. Alguém gritava, sempre tinha quem se assustava, mas o grito era de alegria; seguido de um abraço. O som não abaixa, os tambores tocam mais fortes, o refrão é ainda mais alto. O calor da rua faz com que os corpos fiquem ainda mais suados. Uma mesa mais afastada pede mais uma cerveja, reclama que tá quente, troca, a outra não tá tão gelada, mas tá melhor de beber. 

A roda canta uma música triste, mas é a tristeza de um bom samba, o coração sofre, mas no rosto estamos com um sorriso largo. Como eu, hoje, escrevo essa carta

O último ano foi complicado, e não me despedir de você foi ainda mais complicado. 16 anos juntos. Um amigo, uma amiga, metade da minha vida. Eu já esperava essa despedida, mas tinha pensando que teríamos uma última roda de samba, comeríamos uma última feijoada, talvez eu parasse nas suas escadas e veria o céu ficando mais claro. Conforme o sol tomasse o seu lugar no céu, agora completamente azul claro, o terceiro ônibus saindo do largo anunciaria, “chegou a hora de dormir”. E todos nós teimosos, insistindo em não dormir, esquentaríamos uma panela de feijão para o café da manhã. Nos despediríamos dos amigos que resistiram até o fim, fechando as suas portas. Aí sim, sentiria que a despedida estaria completa. 

Feijão.

Tem gosto de telefone tocando, a voz do seu Nilson avisando para passar na sua casa para almoçar, sempre tinha feijão quente me esperando. Combina com Dona Glória me chamando para trabalhar no dia de roda de samba e feijoada. Eu como todo jovem adolescente, tentando escapar para encontrar meus amigos na rua, no final todos queriam comer a feijoada dela e cantar na roda de samba. E eu? Acabava trabalhando. O cheiro me lembra gritos para reunir a família toda para a foto, nem sei quantas pessoas cabiam nessa foto, mas sempre cabia mais e todos estavam satisfeitos de tanto comer. 

São Jorge em cima da janela da cozinha guardava a casa. Dia 23 de abril tem feijoada para ele. 

Essa carta é para lembrar do Estação Glória, meu lugar, para falar das saudades. O que significa feijão senão um motivo para nos encontrarmos. Hoje não vamos poder nos encontrar, hoje não tem motivo de fazer feijão. Só resta a lembrança e a saudade. 

Até breve. 

Saudades. 

Pedro Carneiro.

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Pedro Carneiro desenvolve em seu trabalho questões relativas às relações humanas em conflito nos espaços urbanos. É através de pinturas, intervenções territoriais e espaciais, desenhos e light design que seus trabalhos constroem uma imagem em reflexo a histórias reais/irreais tendo como ponto de partida o reencontro com sua ancestralidade, buscando o seu entendimento como indivíduo negro na sociedade atual. Revela-se a dicotomia muitas vezes invisibilizada pelo silêncio que é imposto à população negra, fazendo-os esquecer de suas alegrias e do seu AXÉ. Os trabalhos surgem da ruptura e do confronto do artista com os impactos visuais e sonoros. É através de signos da cultura pop mescladas com imagens da herança diaspórica afro-latina que Pedro Carneiro compõe sua obra.

https://www.carneiropedro.com/

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