Edição 1 - 23.07.20

Quem é que vê arte no Brasil?

Eloisa Almeida

Em termos gerais chamarei aqui de arte tudo aquilo que é realizado por  via plástica (material, física) e que necessariamente é colocado à disposição para um determinado público. Tais coisas feitas com essa intenção estão disponíveis em um lugar específico que lhes dá abrigo, de alguma forma restritos e exclusivos para recebê-las, ou em um lugar não específico, que por alguma razão as recebem. Os lugares específicos podem ser de uma sorte variada: museu, instituto, galeria de arte, e mais uma porção do mesmo gênero. Já os não específicos podem ser todos aqueles que não os descritos antes dessa frase: a rua, um muro, uma ponte, ou onde quer que esse produto venha a ser instalado ou realizado. Agora, a pergunta que faço: quem são as pessoas que hoje frequentam os lugares específicos para o que chamei de arte hoje?

Tentarei responder à partir de alguns números. Em pesquisa pelo SIIC (Sistema de Informações e Indicadores Culturais do IBGE), realizado ao longo de dez anos no território brasileiro (2008-2018), 32,2% das pessoas não possuíam acesso à museus em suas cidades; desse total 37,5% era da população preta ou parda* em comparação à 25,4 % de brancos na mesma condição. Se fizermos uma equivalência entre a porcentagem e o número total da população no Brasil em 2018, podemos estipular que 78.562.500 pessoas pretas e pardas não poderiam visitar um museu na cidade em que moram. Em comparação, no mesmo ano, o MASP realizou exposições sob o ciclo temático Histórias Afro Atlânticas, encerrando 2018 com uma visitação recorde na gestão de 502.642 pessoas.

Na mesma pesquisa é possível perceber que famílias com rendimento de até R$ 1.908,00 (dois salários mínimos naquele ano) gastaram uma média de R$ 1,20 por mês em atividades como teatro, shows e museus.  As famílias que possuíam renda superior a R$ 23.850,00 (vinte e cinco salários mínimos) destinavam em média, mensalmente R$ 54,49 com o mesmo tipo de gasto. E vamos lembrar que para visitar o MASP você precisa pagar R$ 40,00 – se você não for estudante, professor e tiver mais que 60 anos ou se for uma terça-feira… Bom, é importante lembrar que esses números apresentados andam de mãos dadas com outros números, onde indicando que as pessoas que possuem o menor rendimento mensal são em maioria pretas, e para surpresa de ninguém, as pessoas com maior rendimento são em sua maioria brancas.

Outra face do desequilíbrio dos valores é visível também quanto à sua distribuição nos estados. São Paulo tem em média um gasto em “Atividades de Cultura, Lazer e festa” (categoria que inclui gastos em museus) de R$ 60,79 por família, segunda maior média do país. Olhando para sua capital – que não precisa de números para a certeza que é a  mais equipada em  instituições culturais no Brasil -, na pesquisa do Ibope de 2019 “Viver em São Paulo: Cultura na cidade”, a desigualdade dos números continua: 28% das pessoas entrevistadas não tinham frequentado nenhuma atividade cultural nos últimos 12 meses. Ou melhor (ou pior), aproximadamente 3.430.566 de pessoas, em sua maior parte com renda familiar de até dois salários mínimos e autodeclaradas pretas ou pardas.

Mais uma vez, a constante nacional de disparidade no acesso aos espaços para se ver arte é replicada –  ainda no questionário, de um total de 19% das pessoas entrevistadas que afirmaram ter frequentado ao menos um museu nos últimos 12 meses em São Paulo, 29% delas possuía renda acima de 5 salários mínimos, enquanto 10% possuía até 2 salários mínimos mensais. Quem tem mais, vai mais, quem tem menos, vai menos ou nunca vai.

Edições a partir de fotos oficiais do Governo do Estado*

Depois de tantos números e porcentagens, a resposta para a pergunta que fiz no início do texto: as pessoas que frequentam os espaços destinados para arte são brancas e ricas. Mas a gente sabe disso, não é mesmo? A gente também sabe, de alguma forma, dos dados levantados até agora, eles não são uma novidade. E com a gente digo, eu, você que está lendo e mais um bocado de gente que lida, trabalha ou já viu isso que chamei de arte em um desses espaços formais e dedicados ao assunto.

Temos uma ideia de que as pessoas que estão visitando um museu cuja entrada é de pouco mais de R$ 40,00 provavelmente não levaram mais que trinta minutos do seu dia para chegar ali – já que também sabemos que o lugar onde se mora diz muito de sua condição socioeconômica. E mesmo que gratuita a entrada de, por exemplo, uma abertura de uma exposição em uma galeria em algum bairro nobre de São Paulo, vemos bem a cor da pele da grande maioria das pessoas que estão lá.

Fingimos então não ver essa diferença e essa ausência nesses espaços? Estamos assim tão acomodados com as mesmas pessoas com a mesma cor de pele e classe social a frequentarem esses círculos? Como podemos, à essa altura do campeonato, ter normalizado essa situação?

De forma sistemática, também desconsideramos, quando não desconhecemos totalmente o que é arte e não está nesses espaços já legitimados ou produzido por pessoas previamente legitimadas. Já que, ao menos em São Paulo, enquanto esses mesmos espaços distantes da maior parte da população com sua pompa nas zonas chiques e ricas da cidade, a produção da periferia (nem sempre chancelada enquanto arte pelo que se diz hegemônico), na contramão, tem estado próxima e muito mais comprometida em lidar com as questões envolvidas na disparidade descrita aqui.

Há um tempo vemos algumas e ainda poucas exceções, quase estratégicas, de  produções de fora desse circuito ganhando espaço e exposições que têm atraído um público um pouco maior e mais diverso. E temos acompanhado de umas semanas pra cá pelas redes sociais um corre-corre nos perfis de museus, galerias e afins, para divulgar o quanto eles estão preocupados e mobilizados com a desigualdade racial no meio, após o choque pra lá de atrasado com a condição na qual a população negra vive há longos séculos, não somente na arte. Estamos careca de saber o quanto muitas atitudes dessas são insuficientes como tem sido feitas e também a questão de relevância incontestável da representação racial nos acervos e exposições aqui no Brasil e no mundo*, bem como as contradições que envolvem as megaexposições, mas não entrarei em detalhes aqui sobre esses pontos. Questiono, então, após a reabertura desses espaços, quem serão as pessoas que estarão lá para visitá-los? E quando vamos compreender a verdadeira excelência do que é produzido para além do que é visto nesses espaços e produzido em suas redes? Quem se alimenta dessa lógica de exceções?

NOTAS

* Para saber mais sobre autodeclaração e o problema de identificação racial: Por que falar sobre raça e classificações no Brasil é tão complicado?

* Sobre o racismo estrutural no meio da arte no Brasil: A crise  e desigualdade racial nas artes: um diálogo sobre cotas

* Disponível no Flickr oficial do Governo do Estado de São Paulo

Você pode gostar de...