Edição 2 - 15.12.20

Perversão e trauma histórico

Cris Ambrosio

imagem por Cris Ambrosio

Acho que todo mundo aprendeu a lição depois da mostra Queermuseu, da performance do MAM e da censura no Distrito Federal. É melhor acalmar os ânimos, não dar motivo para virem atrás de nós. Todo mundo tem que estar no melhor comportamento e provar sua superioridade moral, falar como “a crise também é estética”. Apenas com eles, nós somos donos e proprietários da empresa bom gosto. Enquanto eles não são julgados e condenados pela História, a gente fica mantendo a atitude positiva, esperançosa. Ninguém vai ser reprimido depois de falar: isso vai passar. Ou: não podemos ceder ao cinismo. E ainda: resiliência (na camiseta).

Regina Parra, “é preciso continuar”, 2018. Trecho de Samuel Beckett, “O inominável”.

Sentimentos negativos não são muito desejáveis, não quando se pode falar em encontro, partilha, compreensão, colaboração, pertencimento. Não dar abertura para atenção indesejada. Assim, aqueles que admitem que não têm críticas construtivas nem morais edificantes, que não dizem que isso vai passar, que não se eximem de culpa, esses talvez fiquem por conta própria.

Uma digressão: no começo da pandemia na Europa, as vendas do livro A peste de Albert Camus explodiram. O texto lançado em 1946 descreve uma situação de contágio muito parecida com a que vivemos hoje, e em meio ao luto e à angústia, um grupo de pessoas se une para fazer a sua parte em favor do bem comum, indo contra os seus interesses particulares. Essa é a leitura mais imediata. O que está por baixo dessa camada é que a doença que se espalha aos poucos e que sai do controle, depois de ser tratada com indiferença no início, é uma alegoria do nazifascismo. Com a guinada à direita que vivemos hoje,  afetando governos e valores no Brasil e mundo afora, a parte do nazifascismo ter passado quase despercebida é curioso.

Jean Genet é um autor contemporâneo, conterrâneo e muito diferente de Camus, que em 1947 escreveu um livro chamado Pompas fúnebres. Ele nunca vai ser febre de vendas em lugar nenhum. O livro descreve o luto do narrador Jean pelo seu amante, também chamado Jean, um jovem comunista e soldado da resistência francesa, morto por um nazista. A mãe do Jean-guerrilheiro, por sua vez, também tem um amante, um ex-soldado nazista. O Jean-narrador passa o luto lembrando do seu amado, ao mesmo tempo em que fantasia eroticamente o nazista da sua sogra, nazistas imaginários e seu cunhado colaboracionista*. 

* Títulos familiares usados aqui por praticidade, claro. Publicamente, Jean e Jean eram amigos.

Cartaz de Andy Warhol para “Querelle”, adaptação do livro Querelle de Brest de Jean Genet, dirigido por Rainer W. Fassbinder

O sentimento de perda, a onda de patriotismo tacanho que envolve o fim da Segunda Guerra, o entendimento de que os nazistas também são pessoas e as homenagens ao honrado Jean-guerrilheiro alimentam o ódio do Jean-narrador, que se volta contra o mundo. Sua vontade é então se tornar um traidor, rejeitar tudo o que a sociedade considera aceitável e abraçar com braços e pernas o Mal.

Camus passa uma mensagem de esperança a partir do trauma e Genet, não. Ele se apropria do amor e da ética, para nomear apenas dois, e os vira de ponta cabeça e do avesso, mais de uma vez. Essa subversão é feita com linguagem, erotismo e política, e teve como resultado o escândalo em todo o espectro ideológico. Gostam de retratar Camus como modelo moral quase unânime* e Genet, até hoje, como um delinquente, tanto como elogio, quanto injúria.

*Imagem que começa a desmoronar quando a mentalidade colonial é colocada na conversa. Veja as referências para o comentário do autor Edward W. Said.

No lugar de identificar e condenar somente os responsáveis óbvios pela desgraça do mundo, Genet também condena a si próprio, ao desvelar toda uma gama de atos e imagens desconfortáveis que costumam ficar no escuro. Isso incomoda, porque ao convidar o público a entrar nesse mundo, está implicada a empatia e a sensibilização. Os dois, leitor e autor, entram em um jogo de admitir as próprias perversões e considerar as perversões do outro, sem perder de vista os horrores político-sociais que envolvem intrinsecamente cada situação que é narrada. Nesse movimento em que a superioridade moral fica turva, a luz no fim do túnel da tragédia e uma eventual redenção não são nada evidentes.

O comentário que tento formular aqui é em favor dessa perversão, dos momentos em que o trauma histórico não é reprimido, mas também não se materializa só em denúncias. Algo que seja ao mesmo tempo crítico e confessional, a perversão como um duplo, o outro lado do espelho: oposto, mas semelhante, e terrível. Existe uma vulnerabilidade nisso que me atrai, em aproximar-se do mal para poder falar dele, em criar imagens que são imaginadas, mas nunca admitidas, e se abrir a ataques ao mesmo tempo em que se é agressivo. Ser capaz de fazer algo assim é tudo que eu, como autora, almejo. No entanto, ser esse tipo de pessoa me parece ser muito corajoso, bem inconsequente e meio solitário. 

 Como prova, vale olhar a enrascada jurídica em que o escritor carioca João Paulo Cuenca está metido. A imprensa está acompanhando o desenrolar das — até agora — 134 denúncias idênticas de danos morais, feitas por pessoas ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus. Ele também perdeu sua coluna no portal de notícias Deutsche Welle Brasil, a justiça do Rio recomendou o banimento do autor do Twitter, e o motivo foi a seguinte postagem na rede social:

O “brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”

É uma paródia de uma frase de 300 anos, escrita por Jean Meslier, filósofo e padre ateu anticlerical (ué) do século 18: “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Ambas ressoam um pouco no imaginário de Genet & companhia. As duas versões têm um teor suicida semi sadomasoquista de um par que se alimenta mutuamente de violência e ganância, e em um momento de excesso cego, o êxtase sai do controle. Existe também a sugestão de uma terceira pessoa na cena, um possível algoz, e sua identidade fica em aberto, cabe ao leitor decidir quem é.

Mais do que dar nomes aos bois ou descrever uma cena repulsiva, a “apologia à violência” na qual as denúncias estão baseadas, Cuenca usa recursos de linguagem e referências que ficam enclausurados dentro de um nicho minúsculo e elitizado, e que de repente se tornam disponíveis — mas não acessíveis — a todos, algo a que nós não estamos acostumados, e que muitos talvez nem queiram que aconteça, mas nunca vão admiti-lo. Isso é um desafio, porque uma ousadia de estilo vira facilmente processos judiciais, desemprego e justificativas para não disponibilizar conteúdos desconfortáveis. Na pior das hipóteses, pode virar também perseguição e violência.

Não se tem certeza absoluta se o autor e cineasta Pier Paolo Pasolini sofreu um assassinato político ou não, mas o fato é que o crime aconteceu pouco antes do lançamento de Salò. O filme de 1975 é uma adaptação da obra máxima do Marquês de Sade, Os cento e vinte dias de Sodoma, para a realidade da Itália fascista, na qual um duque, um bispo, um juiz e um político, graças ao poder de Estado, torturam jovens (muito, muito explicitamente – assista por sua conta e risco). E isso em meio a uma série de atentados contra militantes de esquerda na Itália dos anos 70. Milícias e máfias usam assassinato de figuras públicas como demonstração de força e intimidação, como sabemos muito bem.

Instalação de Verena Smit comissionada por uma joalheria, em São Paulo, 2020.
Instalação de Verena Smit comissionada por uma joalheria, em São Paulo, 2020.
Flávia Junqueira, Minhocão - SP, 1970 / 2019.
Flávia Junqueira, Minhocão – SP, 1970 / 2019.

Então, já que a ideia é evitar gente assim, acalmar os ânimos e agradar o maior número possível de pessoas, o mais seguro é mesmo financiar trabalhos beirando a publicidade, o que vai fortalecer a imagem positiva das instituições e vai confirmar a posição dos investidores como patronos das artes, sem provocar nada nem ninguém. Artistas dispostos a produzir para essa demanda ganham visibilidade, e com seu inevitável sucesso, o mercado não tem escolha senão disponibilizar mais e mais espaço a essa representação de mundo. 

Se esses autores fazem esse tipo de trabalho por oportunismo, a mim parece mais respeitável do que se houver sinceridade. Porque daí é uma maneira de se aproveitar do mercado e, com os recursos tirados dele, depois fazer alguma coisa diferente. E quanto a acalmar os ânimos e evitar discursos divisionistas ou apologias à violência, devemos torcer, então, para que pastores da Igreja Universal continuem estranhos às toneladas de conteúdo absolutamente perverso que ajudam a compor toda a história da literatura, do cinema, da música e das artes plásticas, e que bolsonaristas não descubram, por exemplo, que o mesmo discreto Carlos Drummond de Andrade que hoje fica sentado em bronze na orla carioca, falou em dinamitar a ilha de Manhattan.

P.S.: A imagem de capa é uma mistura da mão do atual presidente fazendo uma arminha na Marcha para Jesus — gesto que viveu dias demais sem ser apropriado — com uma releitura de “Photo transformationdo artista Lucas Samaras, formando uma cena que é narrada em Pompas fúnebres de Genet. Conheci o trabalho de Samaras porque ele ilustra as capas dos textos de Georges Bataille publicados pela editora Penguin, e essa foto é a capa da edição em inglês de  A literatura e o mal, um puta livro que no Brasil foi editado pela Autêntica.

P.P.S.: Esse texto faz parte das minhas anotações do trabalho de conclusão de curso. Se ele parece pouco fundamentado é porque ele é mesmo.

O autor palestino-estadunidense Edward W. Said, autor de O Orientalismo, escreve: “Meursault mata um árabe, mas este árabe não é nomeado e parece sem história, e, claro, sem pai nem mãe. E certo que foram igualmente os árabes que morreram de peste em Oran, mas também estes não foram nomeados, enquanto Rieux e Tarrou são colocados à frente.”. O artigo publicado no Le Monde Diplomatique pode ser acessado aqui.

Elefantes entre cristais, indicações de Paulo Roberto Pires na Revista Quatro Cinco Um.

Georges Bataille, A literatura e o mal.

Sobre o trabalho de Deborah Castillo (em espanhol e inglês).

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