Edição 3 - 02.09.21

Os nós

Lopse Lazuli

imagem por Marina da Silva

Ao acordar, ela atava outra vez para que não desamarrasse durante o dia. Era sempre a sua primeira ação: pulava da cama, ainda com sono no rosto, corria ao espelho, tomava a si como modelo e apertava o nó. Às vezes – lembrava – tinha até de desfazê-lo rapidamente, mas nem se deixava respirar: amarrava novamente.

Após a obrigação da amarra de cada dia, descia em par os degraus da escada. Passava a sala, os gatos dormiam e a velha o café fazia. Sorrateira, passava ao largo e, como quem furta, apanhava uma maçã na fruteira. Sem olhar para a velha, corria a subir para o quarto. Com o som da escada, a velha tentava adivinhar os mesmos atos. Como imaginava, eles eram reais, assim como aconteciam. Apenas os gatos sabiam que assim ocorria, mas nunca contariam nada, sequer acordavam para ver.

Naquela manhã, a velha voltou do café e, como nada ouvia do quarto da outra moradora, passou silenciosa e livre ao cômodo. Para apanhar uma roupa de tratar a horta. Mas, precisou de algo e teve de abrir a caixa que estava no armário. Eram velhos guardados, há tanto lá esquecidos. Precisava pegar nos fios antes de ir à horta, e ver se estavam bem amarrados. Alguns poucos se encontravam desatados. Pacientemente, tratou de enredá-los.

Sobre os nós, fez outros, até se fazer um monte, uma teia, um novelo formado antes por nós do que por fios. Pronto! Aquilo bastaria por alguns dias. Cada vez mais era difícil prosseguir com o rolo naquela caixa. Os dias passavam e os nós desatavam, se afastavam, se desenrolavam. Era sempre preciso atentar e enrolar, fazendo nós sobre nós para que não mais se desfizessem.

A outra moradora voltava só à noite. Subiu, como de costume, aos pares os degraus da escada. A velha não ouviu, mas pressentia. O olhar súbito do gato para o movimento a fez deduzir o que acontecia. Mas o gato logo desistiu do fato, voltou ao sono ainda que nem tivesse saído.

Durante a noite, mais uma vez no espelho, a outra apertou o nó o quanto pode. O pescoço não suportava mais. Mas era preciso. Fazia um nó sobre o outro, para não desatarem, com força, sem tempo para respirar ou voltar atrás. “Por hoje já chega” e dormiu sem mais.

A velha cessou o bordado e tornou à caixa. Os fios espalhados…era preciso amarrá-los! Num mesmo rolo, fez de uma só vez um grande nó. Não seria nessa noite que falariam e desatariam os nós nas gargantas.

E a velha dormiu em paz.

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Lopse Lazuli (Juliana Lopes), é escritora, produtora cultural e musicista. Integrou coletâneas com poesias, crônicas e contos, foi finalista do 10º FESPOED (2020). Colunista eventual e revisora do Jornal Mente Ativa.

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