Edição 3

Edição 3 - 09.11.21

os dentes

Gabriela Takase

seus dentes quando riem

falam de ausências programadas

costuras, pontos

visitas ao dentista

telefone sem fio

os atrasos todos

 

você me diz do ritmo dos dentes quando pequeno

da genética familiar

do posicionamento da mandíbula no corpo

entendo que os tempos são outros

e por isso escolho ficar

 

como se jogássemos búzios

com os seus dentes enormes

como se os lêssemos feito poemas

como se montássemos um colar de contas

nesse ofício bruto e vagaroso

 

desejo levá-los no bolso

embarco em aviões

com destino à polônia

espero encontrar

arcadas inteiras construídas do zero

trazê-las de volta

 

cuspir os dentes da boca

recomeçar daí

confiar na capacidade regenerativa

das gengivas, que são como as carnes do corpo

 

acreditar que o cálcio dos dentes

é o mesmo da espinha

que as fundações são mesmo sólidas

como as raízes

nas radiografias odontológicas e nos tubérculos

cultivar os dentes, que demandam muito do corpo

não perdê-los em brigas de bar

permitir colisões apenas no ósculo

• • •

Gabriela Takase tem 22 anos, nasceu e cresceu em São Paulo. Cursa arquitetura e urbanismo na Universidade de São Paulo desde 2016. Cultiva diários, pilhas de livros e poemas pela metade. Publicou o poema “a casa” na Revista Aboio, em setembro de 2020.

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