Edição 1 - 07.07.20

Os conflitos fronteiriços

Mariane Beline

imagem por Emerson Freire

Numa reflexão sobre conflitos, é inevitável pensar sobre território e fronteira, uma vez que a própria existência de uma fronteira  ou um muro é a demarcação de políticas e interesses geopolíticos. Essas fronteiras entram na definição de território e geralmente são absolutamente arbitrárias de forma a representar a soberania e autonomia dos estados, sendo que são artificialmente atribuídas.  

Assim, nessa linha de questionamento, os arquitetos Ronald Rael e Virginia San Fratello (Rael San Fratello) realizaram em 2014 o trabalho Teeter-Totter Wall, uma intervenção no muro de fronteira México-Estados Unidos depois de muitos anos de projetos que culminaram no livro Borderwall as Architecture, um protesto contra o muro e uma projeção para seu futuro.

Considerando as histórias das pessoas envolvidas pela violência imposta por esse muro, desafiaram a existência de dois lados e transformaram o muro de forma criativa instalando três gangorras rosa no muro,  permitindo que as pessoas brincassem dos dois lados, desmantelando conceitualmente o que seria um muro. A gangorra é uma escolha pensada, é também um símbolo de equilíbrios e desequilíbrios, de equidade e desigualdade.

Ações como essa mostram um grande potencial da obra de arte enquanto política, partindo de uma ação poética criou-se um ambiente de conexão e não de divisão violenta e bruta, mesmo que por um período de tempo determinado.

Essa questão fronteiriça, da espacialidade como força política, também foi abordada por Francis Alÿs sobre a fronteira de Tijuana, entre México e Estados Unidos. Em 1997, Alÿs, para ir a San Diego sem cruzar a fronteira partiu inicialmente de Tijuana e percorreu de avião trechos para a Cidade do México, Cidade do Panamá, Santiago, Auckland, Sydney, Cingapura, Bangcoc, Rangum, Hong Kong, Xangai, Seul, Anchorage, Vancouver, Los Angeles e chegando finalmente ao compromisso de sua exposição em San Diego. 

Resultando no  trabalho The Loop, em que há registro dos trajetos em fotografias e depoimentos, além de um mapa que demarca todo o caminho percorrido.

Com todo esse múltiplo e longo trajeto que durou 29 dias, o artista expõe a hipocrisia do controle de fronteira realizado nos Estados Unidos em relação à fronteira mexicana e destaca que isso só é possível devido ao privilégio monetário de poder realizar essa façanha.

São trabalhos que apesar de cercarem a mesma temática, a abordam de formas distintas. Alÿs ataca de forma institucional e aponta para a desigualdade social da fronteira, já com a gangorra vemos uma suspensão espacial e temporal dessa violência contra essas pessoas desmontando o significado da fronteira. 

Se pelas vias geopolíticas os conflitos territoriais e fronteiriços se acentuam com o modelo neoliberal, é pelo olhar da arte que as motivações e violências são questionadas, deslocadas e que permite-se portanto, a abertura para um espaço de habitação da justiça social.

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