Edição 3 - 13.05.21

o que nos trouxe até aqui não nos garante daqui pra frente

Amanda Amaral

imagem por Amanda Amaral - Sem título (Série Documentações), 2021

olá, como vai você?
de verdade. como você passou o dia de hoje?

seja qual for o momento que estiver lendo esse texto, é importante que se lembre: isto é uma carta de afetações. não sei bem se você já a encontrou antes, pode ser que ela tenha cruzado o seu caminho, clamado por atenção e nada. pode ser também que ela já tenha passado por você. ali, próximo, bem rente ou ainda por entre, atravessado e perfurado seu corpo. caso a última alternativa seja a mais válida, trago velhas, e nada  agradáveis, notícias e consequentemente alguma repetição. a questão é que, com toda a licença poética, tenho pensado nas pausas: nas impressões e deslocamentos do que pode vir a significar esta palavra. pois bem, escrevi na exata manhã que se deu em um desses momentos de pausa. logo de início, enquanto fazia alguma outra coisa não suficientemente interessante para estar aqui descrita. comecemos.

eu, que encaro esse sujeito-persona trabalhadora-artista e não paro de pensar sobre as proclamações da sobrevivência ou a vontade de curar o desejo de gritar.

penso muito sobre os dias do início, pois escrevo em 2021, ano dois da pandemia da COVID-19. eu, que encaro esse sujeito-persona trabalhadora-artista e não paro de pensar sobre as proclamações da sobrevivência ou a vontade de curar o desejo de gritar. de interromper o processo de rememoração. parece que sempre voltamos à mesma. 

re-pe-ti-da-mente.

ora, não esteve nunca tudo bem para quem é trabalhador – artista. se antes a escassez já se demonstrava como demanda por atenção à cultura, neste presente, há um imenso campo vazio povoado de gente. sujeitos que habitam territórios distintos, os quais não conheci todos mas de alguma maneira pude conferir a insistência do dizer. esses, que permaneciam tentando encontrar outras linhas para fazer da palavra uma persistência e indagavam com frequência: construir o cotidiano para quem e para o quê? que expectativas temos quando nos abrimos para a percepção diária? — para pensar o tempo do fim é imprescindível que nos debrucemos sobre o tempo do início, ou o que de fato consideramos como início. reflexionar travessias é deixar (e aceitar) que as cartografias iniciais sejam alteradas, construídas novamente, reorganizadas e ajustadas não para converter algo, mas certamente para enxergar sob outra perspectiva o lugar comum. 

em algum momento, de uma das tantas imersões sobre trabalho que participei, houve uma em que um amigo que, assim como eu, faz parte da classe dos trabalhadores-artistas, perguntou ao grupo presente naquele dia: “como você se sente hoje?” a proposta era escrever e ler em voz alta para os demais. é sempre diferente quando se lê o que se escreve em voz alta. aquilo da repetição que comento de vez em quando. a impressão que tenho é a de que à segunda vista tudo aquilo que está escrito comparece como força dupla: a da escrita e a da fala.

pois bem, minha resposta foi a seguinte: exausta, desmotivada e ainda com alguma esperança. hoje, por exemplo, acordei disposta (os dias têm sido difíceis, realizar tarefas simples é cada vez mais complicado), mas hoje, hoje acordei disposta. consegui realizar boa parte daquilo que havia planejado até o recebimento de um e-mail sobre um processo seletivo não finalizado, ao menos não como gostaria e esperava. agradecemos o envio e seu tempo mas decidimos não continuar com você neste processo. seu curriculum ficará em nosso banco de dados para futuras vagas perdi as contas de quantas vezes li e ouvi essa exata frase, vinda de destinatários diferentes, no intervalo de um ano desde que percebi a instabilidade do trabalho e comecei a buscar emprego. então estou exausta. não suporto mais responder a formulários ou ainda à simples pergunta de meus familiares “e aí, alguma nova entrevista? não é possível! você não deve estar procurando direito.” uso o E para me referir à esperança, pois ela, por teimosia ou capricho, ainda reside aqui. trabalhar cansa.  este foi o exato momento em que me notei dividida. fracionada. em várias e várias partes. aqui, nada é ficção. você já devia bem saber. o momento do apartamento (não o espaço em que vivo,  mas o ato de apartar-se) se manifestou às dezenove horas de um dia de abril. pensei eu que ainda fosse março, não era.

continuem firmes ainda que as arquiteturas não se mantenham sólidas.

pergunto-me, em determinado momento, o que fazer com essa vivência coletiva da dor? como levar para frente a sessão de terapia dos trabalhadores precarizados** por atividades que parecem não se segurar no território em que vivemos? afinal, 2021 não tem sido fácil para nenhum sujeito afetado. seria uma alternativa factível escrever sobre isso? a quem interessa o labor do proletariado e do precariado? eles mentem. queria dizer que mentem. acho que diria e digo calma! calma. continue verbalizando tudo o que te atravessa mas tenha parcimônia com algumas questões. nem tudo se viabiliza no agora. ao mesmo tempo, é preciso acreditar. é preciso atrever-se. continuem firmes ainda que as arquiteturas não se mantenham sólidas.

** Veja o texto “A Rebeldia do Precariado” de Ruy Braga, publicado em 2017 pela Editora BoiTempo

mais do que edificações e avenidas, esses territórios têm carregado consigo turbulências e derivas intermináveis pertencentes a sujeitos que movem mundos apenas para continuar existindo.

para além da resposta imediata, avalio a acepção da palavra reorganizar e quanto mais debruço-me sobre ela, mais rápido me arrependo de tê-la elencado. reorganizar exige prioritariamente a organização, o ordenamento e a distribuição dos objetos. até aqui, as tentativas de distribuição foram inexatas. afinal, sonhar pleiteia organização física e espacial. seria portanto inútil tentar dizer qual território é capaz de trazer-nos a felicidade. é preciso almejar, devanear e inventar sobre a não linearidade — do tempo, das cartografias, das subjetividades — perscrutar as brechas das cidades, olhar atentamente, não só para si, para o outro e para os demais para que, finalmente, a ordem seja palavra de transformação de nossa própria época. Félix Guattari em 1986 escreveu sobre Tóquio**, mas poderia estar documentando São Paulo, Vitória, Recife ou qualquer espaço que insista em existir nos tempos em que os mecanismos de violência são e persistem, quase que orgulhosos de sua postura, esquecendo de quem os habita. mais do que edificações e avenidas, esses territórios têm carregado consigo turbulências e derivas intermináveis pertencentes a sujeitos que movem mundos apenas para continuar existindo. 

**  A referência é “Tokyo lorgueilleuse” de Felix Guattari,  entre as páginas 55 e 58, traduzido e publicado por Anderson Santos em 2003

talvez seja preciso misturar ver e dizer. ter uma conversa franca e aberta com a cidade ao perceber que não somos iguais em nenhuma instância. saber reconhecer a diferença é o primeiro passo para arquitetar um lugar comum e rememorar que o afeto nem sempre se constitui como algo bom, por vezes, é ele que nos atravessa e, ao passar por nós, rasga, forma fissuras que, ainda que arquitetadas nele, não são brechas cotidianas e provocam enfim, para além de agitação, a dor.

afinal, reorganizar as táticas usadas anteriormente para, depois de explanar a adversidade, que elas sejam acolhidas e empreendidas como motor de transformação. se pensarmos na lógica citadina de constante construção, estruturação e desconstrução em seu ciclo infinito, deparamo-nos com um mecanismo que trabalha com dois opostos: a fragilidade e a robustez. fragilidade para com os que habitam e trabalham nesse sistema e robustez pela dificuldade que é encontrar lugar para os afetos. é preciso ser resistente e ainda mais. é como correr mesmo sendo constantemente atingido por balas que formam buraquinhos em nossas subjetividades e ainda assim, ter os pés leves e continuar tateando formas de alcançar o outro, de construir caminhos para que a educação seja via geral e não de mão única. imaginar um espaço de atenção, exige inverter as certezas e desarmar a prepotência de quem chega e sequer sabe da trajetória percorrida daquele que labora  — e  tenta exaustivamente continuar falando. impreterivelmente não abandonar as miudezas e agarrar-se à micropolítica como outra forma de desejar.

outra vez, um outro amigo disse há alguns dias que sonhou comigo, tinha eu escrito um livro, publicado e sumido no mundo. não perguntei se de forma literal ou de outra. gosto das duas alternativas. escafeder-se do mundo que vivemos. é preciso elaborar outras saídas para o caos que nos inserimos. o que estamos fazendo de nós? . não pensar na criação de outros mundos. lidar com este. lidar com o corrompimento, atravessar a parede de concreto que inutiliza nossos pensamentos e contestar o tempo presente. antes de tudo, a ativação de um mundo possível para fazer do encontro um acontecimento, ele “instaura uma fissura, abre-se uma rachadura em nós que promove uma mutação subjetiva”***. esta sim é uma ficção visionária.

*** Este trecho é do texto “Subjetivações à Flor da Pele” de Leila Domingues Machado, publicado no periódico “INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO: teoria & prática”, Porto Alegre em 2010

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Amanda Amaral [1994, Vitória, Brasil] é artista visual, pesquisadora independente e arte educadora graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Pesquisa processos criativos em suas dimensões artísticas, estéticas, educativas e críticas tendo como campo de investigação espaço, lugar, cidade, comunidade e linguagem. Vive e trabalha entre Vitória/ES e São Paulo/SP.

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