Edição 3

Edição 3 - 12.11.21

o ódio, meu amor.

Bruno Canabarro

isso já estava gasto. antes. achei que já havia me superado e esgarçado tudo o que podia sobre ele. mas ele me toma como água. ele tem sede de mim. ele me devora lento. aos poucos. conta. gotas. na. pia. da. cozinha. me corrói. estraçalha. não posso mais negar sua existência. presente e concreta. cidade. estado. corpo. país. me consome. se alimenta de mim. me preenche: meu combustível hoje. não consigo mais pensar em outra coisa. vejo uma moça chorando na janela a frente da minha: penso nele. vejo uma mancha de vinho na minha camisa branca: penso nele. ouço uma música ainda de pijama: penso nele. falo com meu pai: penso nele. retiro meus cadernos antigos do armário e de um deles cai uma fotografia: lembro dele. decido fazer janta: é para matar a fome dele. fico acordado até de madrugada: por ele. chego bêbado de festas que não gostaria de ter ido: ele. assisto manchetes: eles está lá. corto minhas unhas: ele eu não corto. preciso começar a me adaptar que ele está aqui. que ele sou eu inteiro. que hoje eu e ele somos o mesmo. não sei o que movimentou em mim a percepção da sua presença. eu me ausento para ele. minto. eu minto para ele. ele não sabe o quanto eu compreendo que ele se aposse de mim desta maneira. eu entendo a intensidade com que ele se apropria de mim e me amolece. me enriqueço com ele. eu sinto. com ele eu penso em mim. com ele eu protejo. com ele eu luto contra mim. com ele eu corro atrás. com ele eu sorrio com força. como ele eu quero me fazer sorrir. com ele que quero viver. por ele. ele está aqui agora como nunca antes. depois que eu ouvi aquela frase ela nunca mais saiu da minha cabeça. desde então eu compreendo. eu tenho compreendido os meus ossos tortos de raiva e meus cabelos amassados pessimismo. hoje eu estou bem porque eu aceitei que ele existe e me compartilha ideias. boas e más. ideias. me compartilha tantos afetos. me pega na mão e me conduz à um caminho novo. não. o mesmo caminho. agora revelado. aparecido. esta palavra representa muito bem o que ele tem sido para mim. aparecido. pureza e atenção. desperto. acordo e me levanto. ele me faz um café com as notícias do dia e toda a desesperança. ele me convoca ao meu estado mais natural. nudez e grito e fome. preciso dele enquanto estou aqui ainda. enquanto for preciso existir será preciso que ele exista e que eu consiga dar as mãos para ele. andar juntos. persistir. sonhar. ele me assombrou muito já. agora me surpreende pouco. contribuição mútua de dois extremos sentimentos. eu e ele. e quem sou eu. me pergunto. com certeza ele sabe. me conhece. me vigia. me engole. estou enfeitiçado. é preciso que alguma coisa ainda seja capaz de colocar alguns corpos no eixo. ele. é preciso que algo ainda consiga criar outras possibilidades de conhecimento. ele. maldito. implacável. doloroso. é necessário sentir qualquer coisa que nos faça pensar sobre o quanto estamos paralisados por não conseguir aceitar que ele está aqui. dentro da minha casa. gente. dentro do nosso corpo. gente. dentro do copo de água que eu acabo de encher até transbordar. gente. ele pode nos ensinar um pouco de tudo o que não temos conseguido apreender. ele poderia ensinar se a gente conseguisse deixar que ele entre e sente na poltrona ao lado do sofá na sala de estar. lá onde ele está. e estará. ele está. entre. preciso de você aqui para que consiga me lembrar o quanto eu posso ser melhor e o quanto é preciso fazer outras coisas nascerem daqui. e ele vem. urgente. ele. o ódio: meu amor.

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Bruno Canabarro: É escritor, ator, performer, dramaturgo, professor de arte e leitura no município de São Paulo e mestrando em arte no IA/UNESP. Tem textos literários publicados pela editora Trevo, Sesi e Selo Off Flip. Também publicações pela Artefato Edições, La Raza Cómica – revista de cultura e política latino-americana, Revista Lüvo e Cult.

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