Edição 1 - 07.08.20

O museu europeu vs. o mundo

Cris Ambrosio

imagem por Cris Ambrosio

Com o poder da imaginação — e citações traduzidas — colocamos na mesma arena pessoas e instituições com visões bem diferentes sobre a influência que guerras e colonizações podem exercer em políticas patrimoniais. Basicamente, estamos falando de quando arte pilhada se torna acervo público. É um assunto complicado, cheio de particularidades que dependem muito de quais países, coleções e épocas são discutidos, e se tratado com o devido nível de detalhe, facilmente fica com o tamanho de uma tese. Visto que nos últimos anos começaram a surgir precedentes para pedidos de restituição de roubos coloniais serem atendidos, na Alemanha e na França por exemplo, esse será o pequeno recorte para apresentar um pouco o pensamento decolonial (definição a seguir) diante dos representantes de acervos que se formaram graças à colonização, em um embate de declarações. A dinâmica: uma fala de cada lado por vez em uma queda de braço à distância e quanto aos vencedores, não os apontaremos aqui, mas esperamos que os povos destituídos à força bruta de sua memória e patrimônio cultural possam se dizer vencedores em algum aspecto dessa questão, em algum momento futuro.

Jogadores

Françoise Vergès: historiadora e cientista política, nasceu e cresceu na Reunião, ilha no Oceano Índico que ainda é território francês. À convite da Universidade livre de Bordeaux e do Instituto das Áfricas, ela fez uma fala em abril de 2019 comentando o relatório encomendado pelo governo da França em novembro de 2018 sobre a restituição do patrimônio em sua maioria da África subsaariana em acervos públicos franceses, e o compromisso declarado (mas ainda não cumprido) pouco depois pelo presidente do país de atender aos pedidos de restituição das peças. Todas as suas citações são desse evento.

versus

Museu Britânico (Londres, Inglaterra): possui um acervo gigantesco de peças provenientes de ex-colônias britânicas, ou seja, do mundo todo, que não raro foram adquiridas em situações de legitimidade questionável. Embora não esteja no escopo colonial exatamente, o caso mais polêmico é o dos mármores de cerca de 500 a.C. que constituíam o templo Parthenon de Atenas e foram parar em Londres, supostamente, por uma compra do Império Otomano no século 19, que na época dominava a Grécia. Sem sucesso, o governo grego pede sua restituição há muitos anos e até hoje a legalidade da compra é questionada.

Museu de Quai Branly (Paris, França): a Artnews o chamou de “um dos museus mais polarizadores da história europeia recente”. É a instituição mais implicada pelo debate porque dos cerca de 90 mil objetos da África subsaariana em coleções públicas francesas, quase 70 mil estão no Quai Branly.

Museu da África Central (Tervuren, Bélgica): Vergès fala abaixo do seu acervo e do seu ex-proprietário, o sanguinário rei Leopoldo II da Bélgica e sua ligação com a colonização do Congo e Ruanda.

Mas antes, o filme da Marvel Pantera Negra:

Intro

Killmonger, personagem interpretado por Michael B. Jordan, é apresentado na narrativa do filme em um museu de mentirinha chamado Museu da Grã-Bretanha, que tem uma grande abóbada envidraçada exatamente como o Museu Britânico, assim como um acervo “multicultural” ou “étnico”. Observando máscaras cerimoniais, aquelas que hoje existem em função de Picasso ou Braque, Killmonger conta para a curadora branca que tudo aquilo foi pilhado pelo exército britânico no Benim e na fictícia Wakanda, e que ele iria tomá-los. Assustada, ela diz que os objetos não estavam à venda, ao que ele responde: “como você acha que os seus ancestrais conseguiram essas coisas, você acha que eles pagaram um preço justo, ou eles só os tomaram, como tomaram todo o resto?”. Ela então chama os seguranças.

Essa cena recebeu elogios por parecer ser uma concessão de espaço para um fiapo de pensamento decolonial em, pasmem, um filme da Disney, mas a verdade é que logo em seguida Killmonger e seus comparsas começam a matar funcionários do museu com grandes sorrisos de satisfação, deixando pouco espaço para não relacionar pensamento e ação e indicando que eles são os vilões, e é impossível, naquele universo, que exista verdade no discurso de pessoas tão cruéis.

“Existe a imposição de um universalismo desde o século 16, de maneira bem forte, e uma divisão entre a humanidade que conta e a que não conta, e a humanidade que não conta é bem extensa”

A queda de braço

Museu Britânico: 

O Museu Britânico conta a história de conquistas culturais de todo o mundo, desde o início da história humana há mais de 2 milhões de anos até os dias atuais. O Museu é um recurso único para o mundo: a abrangência e profundidade da coleção permite que o público do mundo reexamine identidades culturais e explore as conexões que existem entre elas.

Dentro do contexto dessa coleção incomparável, as esculturas do Parthenon são uma representação importante da cultura da Atenas antiga. Milhões de visitantes do mundo todo admiram a beleza das esculturas a cada ano – sem cobrar nada. Elas também mostram como a Grécia antiga influenciou e foi influenciada por outras civilizações com que teve contato”. (daqui)

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Françoise Vergès: 

O pensamento decolonial veio da América do Sul, nas décadas de 60 e 70, com as reflexões de autores como como Enrique Dussel, Aníbal Quijano, Maria Lugones e Fátima Hurtado, sempre há algumas mulheres. Eles são muito importantes, mas aconteceu uma disseminação [desse pensamento] e hoje existem formas também na África e na Ásia. Os eixos principais são de uma crítica ao universalismo monológico, ou seja, um universalismo que se apoia em uma única lógica, um único espaço. Que é, bom, a Europa. Um lugar pequeno em relação ao planeta, mas que representaria o mundo inteiro, o universal. Outro ponto é a relativização da centralidade da Europa na História global. A História não começa na Europa, e já que falamos da África, eu que venho da região do Oceano Índico [Ilha da Reunião], para nós a Europa é completamente periférica, e vivemos em um mundo onde os laços entre África e Ásia são milenares, e precedem em muito a entrada dos europeus nesse mundo. Faziam circular ideias, mercadorias, gostos, vestimentas, havia cidades extremamente importantes, foram encontradas porcelanas chinesas até em Quiloa. Fica claro então que é necessário olhar para o mundo de uma perspectiva Sul-Sul.

Relativizar a centralidade da Europa, provincializar a história europeia, como propõe Dipesh Chakrabarty, e ver sobretudo que as relações de poder não possuem apenas dimensões econômicas, políticas e culturais, mas elas têm também uma dimensão epistêmica [subjetiva, intelectual]. Em geral há uma negação da contemporaneidade, de uma simultaneidade epistêmica do mundo. Ou seja, no mesmo momento em que existe pensamento aqui na Europa, existe também na Ásia e África, existe em toda parte. Existem elaborações em todos os lugares. Não foram apenas os europeus que pensaram sobre o mundo, as relações da natureza ou de divindades; no mundo inteiro os seres humanos se fizeram essas indagações. 

Existe a imposição de um universalismo desde o século 16, de maneira bem forte, e uma divisão entre a humanidade que conta e a que não conta, e a humanidade que não conta é bem extensa. A geopolítica do conhecimento propõe que há sociedades sem História, e sabemos que essas ideias perduram porque há alguns anos o presidente da república da França falou na Universidade de Dakar [capital do Senegal] que os africanos deveriam começar a fazer parte da História, acho que faz uns quatro ou seis anos, talvez um pouco mais. Enfim, tanto faz, mas não faz muito tempo. Essa é uma ideia do século passado, mas não de séculos antigos. Eu confundo um pouco todos os presidentes, perdão [risos da plateia, alguém fala de Nicolas Sarkozy] Ah sim, mas eu nem sei mais quando foi ele porque todos esses presidentes se parecem um pouco [mais risos].”

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Museu Britânico: 

“O museu da Acrópoles possibilita a apreciação das esculturas do Parthenon em Atenas tendo como pano de fundo a história antiga grega e ateniense. Isso não muda a opinião dos administradores do Museu Britânico de que as esculturas são parte da herança compartilhada de todos e transcende fronteiras culturais. Eles continuam convencidos de que a localização atual das esculturas do Parthenon permite que histórias diferentes e complementares sobre as esculturas remanescentes sejam contadas, enfatizando sua importância para a cultura mundial e afirmando o legado universal da Grécia antiga”. (daqui).

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Françoise Vergès:

 “[…] Os comentários contrários à restituição são os seguintes: ‘os seus museus não atendem às normas, os objetos vão perecer, eles não serão protegidos’. Ou ‘vocês não conhecem a história da arte, vocês não têm curadores’. E ainda, ‘esses objetos pertencem à humanidade toda. Nós somos um museu universal, um museu da humanidade. Nos seus países, os museus são africanos e aqui, os museus são universais’. Por fim, ‘vejam como o patrimônio é tratado nos seus países, o terrorismo, as coisas que desaparecem, a pilhagem, o tráfico’”. 

“Eu quero que falemos de arte, de troca, e não que fiquemos remoendo eternamente um ressentimento que é real, mas que na minha opinião não tem nada a ver com uma política patrimonial”

Museu Quai Branly (Stéphane Martin, presidente):

“Se esse relatório for seguido ao pé da letra, sim, sem dúvida [o museu Quai Branly ficará vazio e fechará]. É um relatório que não se importa muito com os museus e embora exista, por outro lado, um trabalho memorial interessante sobre ressentimentos e a sensibilidade que podem existir neste momento da parte de autores africanos sobre a colonização, no fim os museus ocidentais são assimilados como símbolos da colonização que devem ser desmantelados. Todos os museus têm obras que gostaríamos de ver em outros lugares. É um sentimento pessoal meu me perguntar, quando visito os claustros [do museu Metropolitan] em Nova York, o que aqueles claustros [medievais] franceses fazem lá, ou quando vamos à Rússia e vemos que os principais trabalhos [do pintor do século 20 Henri] Matisse estão lá. Mas o que me parece importante hoje, cada vez mais, é a construção de uma comunidade mundial de arte, de museus, de troca, onde as obras possam circular, já que as pessoas também circulam cada vez mais. […] Eu quero que falemos de arte, de troca, e não que fiquemos remoendo eternamente um ressentimento que é real, mas que na minha opinião não tem nada a ver com uma política patrimonial. Os museus não podem ser reféns da dolorosa história do colonialismo”. (daqui)

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Françoise Vergès:

“Aimé Césaire fala no seu livro Discurso sobre o colonialismo de um ricochete, uma noção extremamente importante na qual ele diz que um país não pode reduzir outro à colonização e escravidão durante séculos sem que isso retorne a ele de alguma forma, ou seja, dizer ‘aquilo aconteceu lá longe’. Não é ‘lá longe’ que existiriam leis de exceção racistas e de desapropriação, e aqui existiria liberdade, igualdade, fraternidade. A liberdade, igualdade e fraternidade são atravessadas por esse racismo estrutural, não se pode simplesmente ter um discurso lá sem que isso volte para cá. E no Discurso sobre o colonialismo, Césaire fez uma relação com o nazismo, e o que sacudiu a Europa foi o fato de que homens brancos fizeram contra homens brancos o que homens brancos fizeram durante séculos contra outros povos. A partir disso ele retraça citações de grandes republicanos e grandes pensadores franceses que mostram completa e profundamente a que ponto o racismo estava instalado. E é importante ver hoje como esse ricochete continua agindo”.

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Museu Quai Branly (Germain Viatte, diretor):

“Precisamos reconhecer que [acervos de museus] pertencem à história do nosso país, mas também às culturas que podem ter desaparecido, ou podem estar nesse processo, ou tentando revitalizar sua cultura. Precisamos levar isso em consideração, mas sem ceder a uma espécie de paternalismo, confinando outros povos às suas particularidades e reservando o universalismo exclusivamente para nós mesmos porque estamos preocupados com o ‘politicamente correto’. Não podemos ceder aos pedidos de restituição como aqueles apresentados aos ingleses pelos mármores do Parthenon ou pelos bronzes do Benim. Mas o que podemos fazer é colocar em prática uma colaboração internacional criada para criar compromissos viáveis entre interesses diferentes, e muitas vezes incompatíveis, por exemplo, entre a restituição e proteção dos objetos. (daqui)

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Françoise Vergès:

“Sobre os objetos roubados, como sabemos, a maioria foi pilhada durante a colonização e depois durante o processo de destruição, cidades inteiras foram assoladas e navios chegavam à França lotados de tesouros. Havia também colonos e missionários que os traziam, era um movimento enorme e constante. Falamos aqui de 90% do patrimônio africano fora do continente africano. Uns anos atrás eu visitei a coleção do Museu Tervuren, o museu que era propriedade privada do rei da Bélgica Leopoldo II, com objetos do Congo, de Ruanda e de outras colônia belgas na África. Como vocês sabem, o Congo era propriedade privada de Leopoldo II. Depois de um certo escândalo e como era vantajoso, ele vende o Congo para o Estado belga e constrói um museu em sua homenagem, perto da capital Bruxelas. E o que é interessante no acervo é que não havia uma cabeça de antílope, havia milhares de cabeças de antílope. Não havia centenas de flechas, havia centenas de milhares de flechas. Não havia centenas de máscaras, havia de centenas de milhares de máscaras. A impressão que fica é de que o Estado belga atravessa o Congo e leva tudo, de todos os pequenos vilarejos e de cada cantinho, é uma coleção que não pode ser exibida de tão gigantesca. Nada podia escapar, desde a flecha até a arte, tudo, todos os objetos cotidianos. Fica a impressão de que não é apenas a curiosidade que movia as pessoas que levavam esses objetos, era realmente a vontade de retirar da África o que lhe pertencia, de tirar tudo e poder dizer em seguida que se tratavam de sociedades sem História”.

Bônus

Em 1998 um documento chamado Princípios de Washington sobre arte confiscada por nazistas foi escrito durante uma conferência sobre o tema. São diretrizes que pedem transparência sobre a origem de acervos, investimentos para retraçar o histórico dos objetos e caso eles sejam feitos, atender a pedidos de restituição pelas famílias afetadas. Apesar de ser considerado um fracasso por alguns, a declaração foi base para a criação do Centro Alemão de Bens Culturais Perdidos, organização que recebe muito investimento do governo alemão para investigar a história do patrimônio do país. Depois da sua fundação em 2015, ele passou a estudar também crimes do governo socialista durante Guerra Fria, e bem mais recentemente, os roubos coloniais, o que pode indicar que está em curso uma mudança de mentalidade que considera que os crimes da colonização não foram superados, também não podem ser esquecidos e precisam ser compensados.

Traduções por Cris Ambrosio.

 

 

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