Edição 3

Edição 3 - 30.09.21

O demônio do pássaro

J. A. Almeida

EM TRÊS PALMOS, ME ESQUEÇO. EXATAMENTE QUINZE DEDOS, PULO NO VAIVÉM QUE NÃO MEREÇO.
MEU CANTO É MELODIA AOS OUVIDOS ALHEIOS, PARA MIM, UM PRANTORECORRIDO DE LEMBRANÇAS E DESEJOS.
CARREGO A LIBERDADE DAS ASAS — MALDIÇÃO. NÃO SOU PARA ADMIRAÇÃO, MUITO MENOS, ENFEITE.
NÃO O INVEJO, MAS VOCÊ ME USURPA.
ME PRENDE NO AMARGOR DE TEUS OLHOS E COMPARTILHA SUA INEVITÁVEL MORTE.
A INTERRUPÇÃO DEFINITIVA DA SUA VIDA É TAMBÉM A DA MINHA SORTE. EU SOU O TEU DEMÔNIO E VOCÊ É O MEU.

Hoje foi uma daquelas manhãs agradabilíssimas: na sombra, venta; os galhos produzem serenata — e eu aprecio sob elas. Os raios que penetram entre os seios verdes jorram o calor necessário. Os alados se engalfinham — lá vai mais um, riscando o ar.

No toque, no beijo, no abraço que corteja, há liberdade ousada do vento. Que brinca com tudo, até mesmo com meus sentimentos. O céu me banha — corpo nu — e a terra me sepulta, e adormeço.

Entardece assim.

Adormeço sobre o tempo e esqueço de mim. Aí vem a noite e toma tudo, e eu desejo o teu fim. 

Aprisionado por uma gaiola, vejo tudo que tem fim: o homem que beija a mulher, a mulher que beija a mulher, e o mesmo homem que beija o vizinho da mulher. Os pueris, que correm pelados quando tudo está desligado. E quando da luz os captura, chinelas lhe surram a carne rosada de porco. A anciã mal se segura, se arrasta com a bengala e mastiga desanimada — é a única que sente pena de mim. Os demais olham, sussurram e chacoalham minha gaiola. A bela senhora do tempo senta-se no mesmo tempo que o meu — o seu amor já foi embora. Canto uma melodia até pegar no sono do dia — ela sonha em também ir embora.

E vai anoitecendo devagarinho.

E vai trazendo o escuro de mansinho.

Vai levando de mim a luz e trazendo a noite para dentro.

Me dou, boa noite.

Mas há alguém que tira minha paz, sempre na surtida da madrugada indecifrável me balança com sua sombra e come dos meus galhos de alpiste secos. É imenso sob mim. Produz um ruído atormentado e vazio. Às vezes estremeço, noutros momentos finjo morrer. Queria saber quem é esse malquista que come da minha comida e ainda goza do meu enlouquecer. Quando o sol falso emerge, engolindo abruptamente o duro escuro, ele desaparece como nunca ali estivesse — é uma peste.

Essa noite o pego!

A cortina da porta do quarto esvoaça prestemente, como se um corpo nela habitasse. Ou minha alma estaria ali, assombrando? Não! Não era parte de mim perdida do seu estado — não saberia concatenar se vivo ou morto está. Era sim o dono do lar e também de mim. Usando da esperteza — da mesma que usou para me aprisionar — para enganar a sombra que me assombrava. Ocultado pela falta de luz, aguardamos o chiar desconhecido. Eu, um pássaro apreendido e meu próprio bandido.

A gaiola balança, num embalo do berço da criança embalado por quem diz que a ama.

O chiado emergiu e a luz explodiu!

A sombra criou definição e se formou a desesperada opressão: o corpo atrás da cortina, na surtida, grita: “um rato, minha nossa senhora!”. O rato para um lado — apavorado. E o homem para o outro — num atrapalhado de um sufoco. Pensei ter ouvido até um choro.

A casa acordou de seu estado, morto. 

A muvuca foi bem menor ao ver o corpo do esposo, filho e pai, estendido no chão. Seu fraco coração não suportou a assombração. Sua morte foi rápida e de pouca sensibilidade — chamaram pelo carro comprido sem nenhuma manifestação, até deu tempo para um cafezinho e pão.

Talvez fora a sua liberdade, não merecida. E a minha — criatura adorável —; a minha morte desejada fora esquecida. Permaneceríamos presos, você na minha gaiola e eu na sua liberdade. Num eterno canto de saudades.

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J. A. Almeida: Reside em Salvador-BA, onde cursa Licenciatura em Desenho e Plástica pela Escola de Belas Artes-UFBA. Seus textos literários já foram publicados pelas revistas digitais Cult, Frente & Versos e D-Arte e nas antologias: III Antologia de Poesia Brasileiras Contemporânea “Além da Terra, Além do Céu”, pela Chiado grupo editorial.

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