Edição 1 - 20.07.20

O corpo político e o mito dos filtros

Mariane Beline

O corpo feminino historicamente sempre foi lugar de disputa política, para Naomi Wolf. Ela discorre sobre o mito da beleza acerca dos corpos das mulheres e que quanto mais numerosos foram os obstáculos legais e materiais vencidos pela luta das mulheres, mais rígidas e cruéis foram se tornando os padrões da beleza feminina impostos.

Portanto, seria uma violenta reação contra o feminismo, o contra ataque de criar imagens de beleza feminina inatingíveis como uma arma política contra a evolução e mais importante, contra a libertação da mulher. A autora afirma que esse mito entra como função de coerção social que nada tem a ver com as mulheres, mas sim com as instituições masculinas e com esse poder institucional.

Nessa chave de discussão, a artista norte-americana Cindy Sherman trabalha em sua poética seus autorretratos, sendo o corpo da mulher sua operação de trabalho, em que muitas vezes explorava uma questão do voyeurismo e também se apropriava de próteses e maquiagens deformadoras caminhando cada vez mais para a distorção, criando figuras ameaçadoras e assustadoras.

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Através do Instagram, a artista utiliza de forma mais extrema ainda a deformação e manipulação digital para atingir imagens quase ridículas e completamente irreais, uma crítica sobre essa cultura da selfie e dos extremos aos quais as pessoas se propõem para atingir as fotos e imagens do que acreditam ser perfeitas.

Sobre essa busca insaciável pela perfeição nas redes sociais, médicos relatam um fenômeno bastante preocupante: o chamado Snapchat dysmorphia. Esse nome refere-se a um tipo de dismorfia corporal desencadeada pelo estresse associado aos filtros das redes sociais, sendo que o transtorno dismórfico corporal é uma doença mental que leva os sujeitos a ter pensamentos frequentes sobre sua aparência, principalmente de forma negativa e sem aceitação. As pessoas, especialmente mulheres, estão se apoiando na ideia de que o filtro é uma versão aprimorada de si mesmo.

 

Há sim um aspecto que é a liberdade criativa que os filtros, tanto para quem os projeta quanto o entretenimento de quem os utiliza, agora outra coisa é o borramento completo dos limites entre o que é criado artificialmente e a intervenção invasiva no corpo para atingir essa imagem.

Muitas pessoas passaram a realizar cirurgias plásticas solicitando procedimentos para parecer melhor nas mídias sociais e mais grave ainda, desejando que suas características físicas se aproximasse dos filtros utilizados, lembrando que esses são absolutamente criações artificiais que não se baseiam na realidade corpórea dos sujeitos. São tipos de indústrias que movimentam bilhões anualmente, a das dietas, dos cosméticos e claro das cirurgias plásticas que trabalham em cima da capitalização das inseguranças.

Há sim um aspecto que é a liberdade criativa que os filtros, tanto para quem os projeta quanto o entretenimento de quem os utiliza, agora outra coisa é o borramento completo dos limites entre o que é criado artificialmente e a intervenção invasiva no corpo para atingir essa imagem.

Essas ferramentas são cruéis no sentido que podem colonizar os corpos, como, por exemplo, nos filtros que realizam um embranquecimento ao afinar o nariz, clarear a pele, diminuir os lábios ou acrescentar olhos claros, dando a entender que esse é o padrão a ser atingido de beleza: o do colonizador.

Aqui entendemos a perversão dessa lógica, mulheres brancas realizam procedimentos para ficar com o lábio carnudo, isso então é entendido como bonito, e mulheres negras utilizam o filtro que desconfiguram suas características fenotípicas, impondo uma condição racista. Assim como também acontece no processo de ocidentalização das pessoas amarelas, ao realizarem procedimentos cirúrgicos para formar a prega palpebral ao mesmo tempo que há uma moda do chamado “foxy eyes” que é uma simulação de olhos alongados como dos orientais.

Beleza para cavidades, 2020. Marina Avello.

Claro que intervenções estéticas têm variações sendo a cirurgia a mais invasiva, no entanto, isso reverbera também em outras tendências que são potencializadas nas redes sociais, tais como as rotinas de skincare, com um bombardeio de produtos necessários para atingir a pele “perfeita”. A linha entre o que é cuidado e o que é inatingível pode mascarar o medo de envelhecer e o quanto é temido o processo natural e inevitável da passagem do tempo no modelo de vida capitalista. Destaco aqui as grandes diferenças com os povos originários que valorizam a experiência que é atrelada à idade.

Para David Le Breton* (2019) o envelhecimento na sociedade capitalista implica um remanejamento de si e das relações com o mundo, de forma que há uma transformação da sociabilidade e que se tornou um fardo, um medo tão grande que culminou numa espécie de desaparecimento de si mesmo, da desvalorização do ser por não ser mais produtivo economicamente.

São tantas camadas simbólicas decorrentes dessa discussão, do quanto o corpo da mulher ainda é sim um corpo político e há uma grande preocupação relativamente à saúde mental dessas mulheres. Assim, o que gostaríamos de destacar aqui é o quanto é necessária uma reflexão crítica diante de qualquer tipo de tendência ou novas obsessões que surgem nas redes sociais, de forma a não sermos passivos a recebermos essas violências de forma diluída, além de não legitimarmos essas operações racistas e absolutamente cruéis que entendem o envelhecimento como um fracasso inevitável.

*David Le Breton é professor de Sociologia e Antropologia da Universidade de Estrasburgo.

Referências

Cosméticos e abjeção: feminismo e fetichismo na fotografia de Cindy Sherman, por Laura Mulvey

O MITO DA BELEZA Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres (Rocco, Rio de Janeiro: 1992), por Naomi Wolf

Desaparecer de si Uma tentação contemporânea (Editora vozes, Petrópolis: 2019), por David Le Breton

‘Snapchat Dysmorphia’: Is the Stress of Social Media Driving Teens to Plastic Surgery?

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