Edição 2 - 26.11.20

O Brasil e os seus mitos

Afonso Costa

imagem por Afonso Costa

Brasil, nome de árvore que sangra. Este ensaio é uma ficção que busca entender o que foram essas terras, o que elas ainda são e aquilo que está por vir.

É possível falar de história em um país que de tempos em tempos cria um tipo de sociedade a ser alcançada pelas mãos de um profeta carregando debaixo do braço um plano de venda de nossas terras e vivências? Que por sua vez esse tal profeta busca com todas as forças erradicar as vidas, as histórias e as memórias de tudo aquilo que antecede e vai em contramão da realidade que o seu plano quer impor. É possível falar da história de um país quando ela não é escrita pela perspectiva da memória social, mas sim redesenhada pelas mãos de quem detém os poderes aquisitivos e administrativos das reservas de uma nação?

Que a história tem lá seus pés na imaginação do que nos ocorreu isso é fato, porém ela deveria mesmo ser utilizada como o ícone de um progresso ideologizado? No sentido de que a ideia de sociedade e a projeção de seu futuro são justificadas pela grandiosidade de uma história mal contada. Se utilizando de um passado não tão real assim, dando a ele aspectos de um mito a ser profetizado no presente por alguém e que esse alguém direciona o seu povo a um futuro que nunca chegará. Pois para o país colonizado que somos, forjados entre grilhões e assassinatos, cordialismos e submissões, o que nos é concedido enquanto direito de existência e o gozo é pura ficção.

Ficção do dia-a-dia que nos faz crer que no fim do mês o salário mínimo vai dar conta de nossos prazeres, mesmo que os alimentos essenciais e os impostos básicos estejam com o valor ‘pela hora da morte’. De que está tudo bem aguentar pegar ônibus lotado às seis da manhã, porque no fim do ano vai dar certo de comprar um carro usado para se afogar no mar de engarrafamentos. De que as famílias donas dos meios de comunicação de massa retratam nossa cultura e relações sociais de forma imparcial e não ideologizada. De que foi mera sorte ou merecimento os meios de produção do país estarem nas mãos de homens-cis-brancos. De que existe uma democracia racial conquistada por anos de sofrimento, já que somos todos iguais mesmo que ninguém bote na conta que as oportunidades e os direitos não o são. De que a corrupção institucionalizada dentro do sistema democrático vai ser erradicada, pois um político veio à televisão, ou às redes sociais, dizer a verdade. Sendo essa verdade nada mais que a criação de um inimigo comum a ser combatido, porque ele impede a ascensão de um tipo de vida referenciada em um modelo importado de família e bem viver.

E tantas outras ficções que você leitor pode se dar conta que vive e, por mais que a sua imaginação possa ser absurda em criar ficções, a realidade dos fatos inventados no Brasil nem se compara a tamanha maquinaria de imaginários que formulam nosso cotidiano, deixando para trás rastros de uma história distorcida. Eu poderia dizer até falsa história, mas mesmo sendo ficção tudo isso que vivemos, no passado e no presente, ainda assim é pura verdade. Entenda, leitor, que o que coloco enquanto ficção não é o paralelo da mentira, mas sim de uma realidade instituída a partir de golpes, marginalizações e ocultamentos que tem bases para se estruturar ainda que por ventura postule inverdades. 

A história não deveria ser narrativa? Ou seja, a fruição das vivências de ordem comum e ancestrais que nos conectam enquanto seres viventes. E que passadas de geração em geração possuem a intenção de instruir o seu povo sobre a interdependência ontológica da qual se fundam as tantas naturezas que consolidam os terrenos coabitados por nós, pelos animais, pelos rios, pelas florestas, pelos biomas e afins. Instruções estas construídas ao longo de diversos e distintos espaços-tempos anteriores que conectam nossas memórias materiais, simbólicas e espirituais arredando assim nossas relações e nos constituindo enquanto cultura. A história não deveria ser cultura? Cultura enquanto meios de ser, cultivar e elaborar o mundo ao nosso entorno. Que diabos são essas histórias que nos são contadas sobre o Brasil? 

Desde muito pequeno escuto narrativas sobre esse lugar que habitamos. Lugar que já foi colônia de europeus que estupraram, mataram e abriram – sem pedir licença ou agradecimento – as matas e vivências que aqui existem. Colonização que agiu, compactou e incentivou o maior sequestro de corpos humanos da história da humanidade, que bestializou e objetificou corpos negros e indígenas em favor de um mito inventado a fim de legitimar a superioridade de uma cultura sobre outras, pelo anseio de riqueza, dominação, higienização e a pífia sensação de estar fazendo o bem cristão a esses corpos ao aculturá-los pela força da liturgia e do extermínio. 

Essas situações que forjaram o Brasil, ou seja, a ficção de uma descoberta territorial, a institucionalização mentirosa de uma nação aparelhada à coroa portuguesa, a dominação lasciva de corpos, a ideologia eugenista – que décadas depois é maquiada enquanto democracia racial – a coisificação e venda de toda a nossa natureza, o positivismo, o progresso e a industrialização fincadas à força e a subalternização perante a comunidade global são fatores históricos que rearranjados perspectivam narrativas nacionalistas e morais de um modo de ser dessas terras. E que o esforço de escavar a veracidade de tais ficções nos dá a chance de avistar o que há por debaixo delas.

Olhar para nossa história, ou seja, olhar para as valas cheias de mortes que constroem o nosso imaginário do que é esse país, é encontrar falsas verdades que se impregnam nos caminhos das memórias coletivas

Assim como todas essas ficções do real são necessárias de serem postas em questionamento a fim de reconstituir em nós uma re-volta espaço-temporal sobre nossas memórias soterradas. Sendo essa re-volta um pulso de raiva que nos possibilitará ampliar as vozes de vivências que permeiam as veias de nossos corpos, rios e estradas. Nos fará entender que a separabilidade hierárquica-racional-cristã pautada no maniqueísmo dialógico entre norte-sul, centro-periferia, brancos-não-brancos, cristãos-pagãos, cidade-sertão, é um modelo importado de existência que impossibilita que avistemos as origens de nossas relações étnico-culturais, epistemológicas e o culto àqueles que vieram antes de nós.  

A memória de um povo não deve ser registrada, reformulada e nem sequer profetizada a mando de um progresso ideologizado. Quando penso em ficção, dadas as circunstâncias do momento atual de genocídio e terceirização dos nossos corpos em pleno século vinte e um na flagelada Latino América, o que me vem à cabeça é a imagem desse Brasil mutilado pelo seu passado. Olhar para nossa história, ou seja, olhar para as valas cheias de mortes que constroem o nosso imaginário do que é esse país, é encontrar falsas verdades que se impregnam nos caminhos das memórias coletivas. Sendo essas inverdades proferidas a torto e a direita – eu bem diria extrema-direita – com a intenção de projetar um futuro que dá margem apenas e somente para isso que se fundou enquanto uma cultura hierárquica-racional-liberal-cristã-neopentecostal-amém. Esse palavrão em si já exterminou – e continua a exterminar – diversas epistemes e vidas.

A história do nosso país, como se fosse um caderno – multiétnico, multicultural e multilinguístico, de suma importância ressaltar esses fatos – foi escrita a lápis e apagada ora aqui em uma página, ora ali em outra, por borrachas brancas a fim de pormenorizar certos acontecimentos e destituir de povos seus pertencimentos territoriais, materiais e imateriais. Indicando assim a resultante de um presente não verossímil com os fatos que antecedem o agora. Quando não, esse caderno de história do Brasil além de ser apagado por borrachas brancas também já foi muitas vezes queimado para que nem possíveis resquícios de passados pudessem ser re-voltados. 

Mas falar de nosso passado também é encontrar vivências soterradas. Mortas memórias que não tiveram o direito de serem cultuadas e florescerem em novas searas. E que então vagam por entre nós como fantasmas puxando os nossos pés dizendo “Acordem! Acordem! Eu ainda não pude morrer, me desenterrem, tenho muito o que contar”. Mesmo soterradas, que vozes são essas que ainda gritam? O que essas terras têm para nos contar para além dos seus mitos colonizadores? 

É preciso acordar quando os fantasmas puxam nossos pés, não por medo, mas por alerta

É preciso acordar quando os fantasmas puxam nossos pés, não por medo, mas por alerta. É preciso escutar as vozes que antecedem nossas existências e que por aqui ainda vagueiam. Se não no espaço-tempo material do agora, em nós mesmos naquilo que fundamos enquanto tempo-espaço. Somos seres que lembram, imaginam, que inventam e colocam em agência nossas ideias. Mas também somos seres que aprenderam a valorar e capitalizar essas agências, aprenderam a separar-se pelo jogo do poder e bestializar tudo aquilo que não comporta um modelo de perspectiva forjada. Essas terras têm muito o que nos dizer e nos fazer imaginar outros modos de existir e compactuar com o espaço-tempo, porém para isso é preciso abrir o olhar e a escuta, desenterrar os mortos, diferenciar sem separar ao desacreditar em hegemonias.

É preciso de fato caminhar com os fantasmas que puxam os nossos pés. É de extrema necessidade que nossa geração diferencie as vivências sem separá-las, pois a separabilidade é ferramenta de capitalização, marginalização e objetificação de nossos corpos e entornos. Que re-voltemos o passado e criemos oportunidades de reparações históricas para que assim tantas outras ficções mais próximas então daquilo que já foi a realidade de tantas gentes apagadas e queimadas possam re-existir. É preciso parar de fingir que a cultura hierárquica-racional-liberal-cristã-neopentecostal-amém é a única possível que nos fará chegar ao gozo infinito. Existe o agora e é neste momento, e no antes dele, que se fazem essas terras. O futuro prometido se existe é colonial. 

Este ensaio é uma ficção que busca entender o que foram essas terras, o que elas ainda são e o que ainda está por vir. Tudo está em jogo, que nos joguemos então nas memórias que perpassam as veias, os rios e as estradas dessas terras. Brasil, nome de árvore que sangra.

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Afonso Costa, filho de Rita e de Pardal é artista da cena. Dialoga com as práticas narrativas do viver através da performance, da dança e do teatro. Nos dois últimos anos vem estudado as distinções coloniais entre as narrativas hegemônicas e as narrativas pluriversais dissidentes da norma no território urbano da cidade de São Paulo.

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