Edição 1 - 30.06.20

No olho do furacão

por Mariane Beline

imagem por Francis Alÿs, "Tornado"

Francis Alÿs opera em métodos poéticos e alegóricos e no início da década de 2000 registrou por quase dez anos tornados recorrentes em desertos mexicanos, a ação do artista era, com uma câmera de mão, perseguir esses tornados e tentar entrar no vórtice, de forma a capturar esses movimentos de tensão e força enquanto o tornado estava em fúria e logo que se dissipava chegava a uma calmaria absoluta.

Pode ser um ponto de reflexão para a contemporaneidade, em que de fato nos encontramos dentro do vórtice do tornado e o quanto isso dificulta a análise com clareza, e demonstra a dificuldade de enxergar um panorama possível de futuros. Seria somente dentro do caos que podemos desafiar a turbulência na qual estamos inseridos?

O mundo está tendo forçosamente que se reinventar, em todos os campos de forças simbólicas houve transformações, de forma que sujeitos e instituições estão no vórtice, tentando recodificar operações, a propor reflexões sobre o que chamaremos de contemporâneo hiperconectado.

Nesse, em que há um embaçamento da distinção entre virtualidade e realidade, além da constante presença da Internet das coisas (IoT) – objetos inteligentes que estão conectados em rede e com o usuário com sensores que se adaptam às condições exteriores e podem realmente ser qualquer tipo de objeto, relógios, smartphones, carros, etc. produzindo informação o tempo todo – gerando uma mescla entre humano, dispositivos e natureza. Vivemos atualmente na abundância de informações, nas constantes interações online e para o pesquisador italiano Floridi, vivemos o Onlife, onde não há mais distinção entre online e offline.

Se Baudelaire propôs o conceito de flâneur, esse observador que caminhava sem objetivos definidos como uma narrativa do sujeito que toma posse e marca simbolicamente seu espaço na cidade moderna, podemos ver agora o que é o chamado ciberflâneur, que evoca um processo de leitura digital dos símbolos, de se relacionar com essa narrativa a partir dos novos espaços do ciberespaço, clicando quase desesperadamente, sendo afundado a mais e mais links, fotos, vídeos, redes sociais e mensagens.

A quarta revolução, a da era informacional, nos convoca a recodificar e/ou decodificar operações, as relações e os modos de fazer. Byung-Chul Han* (2018) define nosso tempo como do Homo Digitalis e que estamos em uma crise, uma transição crítica da revolução industrial para a revolução informacional – de um regime caracterizado pela manufatura para outro marcado pela digitalização. Essa situação de crise implica uma série de comportamentos ainda por serem consolidados e um panorama de incerteza.

Com o alto fluxo de informações e imagens é inevitável comentar sobre as redes sociais. Uma reação corriqueira do Homo Digitalis aos numerosos conflitos surgidos ou focalizados no ambiente digital tem sido os shitstorms, ou tempestade de indignação, que são campanhas difamatórias na internet, direcionadas às pessoas ou empresas, popularmente chamadas de cancelamentos.

São realmente como tempestades, se iniciam enfurecidamente e logo se dissipam criando um sujeito quase incapaz de agir em conjunto e uma memória absolutamente perecível, uma vez que já pula para outra onda de indignação sem criar realmente uma reflexão crítica.

Assim, questionamos a potência da utilização das redes, se de fato nos tornamos uma Aldeia Global – em como as tecnologias eletrônicas encurtaram as distâncias e nos tornamos uma comunidade internacionalizada e conectada –  tal como foi preconizado por Marshall McLuhan* (1995) ou isso foi um projeto falido, como afirma Evgeny Morozov*, crítico ferrenho do alto nível de influência do vale do silício na vida contemporânea.

São questionamentos que nos mostram o quanto realmente estamos no vórtice, não há nenhuma certeza, há apenas que refletir e esperar a calmaria chegar. Assim, nos colocamos em diálogo com Francis Alÿs, em que a tempestade de poeira pode ser o colapso iminente, seja de um sistema, da ordem política ou da própria sociedade cristalizada. Porém, ainda corremos de encontro com a tempestade, repetidas vezes em busca de um momento de novas possibilidades.

*Byung-Chul Han é coreano, professor de filosofia e estudos culturais na universidade de Berlim e tem diversos livros publicados.

*Marshall McLuhan, filósofo canadense, foi um dos maiores pesquisadores de comunicação e dos estudos culturais do século XX, escreveu sobre o meio é a mensagem,a aldeia global e os meios como extensões dos homens.

*Evgeny Morozov é  um especialistas em tecnologia e em internet e crítico do Big data e da lógica do Vale do Silício.

 

HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital.  Tradução de Lucas Machado. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.

FLORIDI, L. The Fourth Revolution – How the infosphere is reshaping human reality. London: Oxford University Press, 2014.

_______. The onlife Manifesto – Being human in a hyperconnected Era.  Londres, Springer Open: 2015.

MOROZOV, Evgeny. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

MCLUHAN, Marshall. FIORE, Quentin; AGEL, Jerome.  O meio é a massagem. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

_______. In:MCLUHAN, Eric & ZINGRONE, Frank. Essential Mcluhan. Toronto: Anansi, 1995.

Francis Alÿs – Tornado

Francis Alÿs. A story of Deception: room guide, Tornado

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