Edição 2 - 22.12.20

Mulher-macho, sim senhor?

Letícia Santos

Certamente, você já ouviu por aí, seja na voz de Gonzagão ou qualquer outro cantor: “Paraíba Masculina, Muié Macho Sim Sinhô”, provavelmente você até leu cantando. Se eu perguntasse a você, caro leitor, o que vem à sua mente quando ouve esta canção, talvez, você apresente uma série de características, personagens de filme, novela ou até mesmo alguém que conheça.

É difícil dizer quando, onde e como surgiu esta expressão, mas é possível identificar em algumas produções culturais, dicionários e na imprensa as primeiras aparições da expressão ou os “sentidos de mulher-macho”. No âmbito literário, temos o livro Luzia Homem de Domingos Olímpio, publicado em 1903.

Domingos Olímpio — natural de Sobral-CE — era advogado, jornalista e escritor, ao finalizar o curso de Direito em Recife foi nomeado no Ceará como promotor público, permanecendo de 1874 até 1878. Sua atuação enquanto promotor configura o momento da seca de 1877 que afetou também parte do estado do  Ceará, período em que a narrativa da sertaneja Luzia é ambientada.

O livro conta sobre a vida desta sertaneja retirante que junto com sua mãe chegam à Sobral, descrita como uma cidade formosa e intelectual, em busca de trabalho. Conseguiu emprego na construção da cadeia pública da cidade, obra custeada pela Comissão de Socorros do Governo Imperial, na qual as pessoas eram remuneradas às vezes em dinheiro ou comida. Essa política, de fato, existiu no período*.

* Para saber mais sobre as políticas de socorros públicos no Ceará, ver JOSÉ W. F. de Souza, Secas e socorros públicos no Ceará: doença, pobreza e violência (1877-1932). Projeto História, v.52, 2015

Há muitos aspectos pertinentes a serem analisados na obra, mas nos interessa destacar aqui, a forma pelo qual a imagem de Luzia é construída pouco a pouco pela ótica dos personagens e do autor, evidenciando a “masculinização” da personagem. 

Domingos Olímpio iniciou a elaboração de Luzia com o personagem Paul, um viajante francês e fabricante de sinetes, em uma de suas viagens pelo mundo, parou em Sobral, fazendo observações e desenhos sobre os povos e lugares que conheceu. Paul escreveu que em visita às obras da cadeia, se deparou com “uma mulher extraordinária”, era Luzia carregando uma parede na cabeça. Outros, até viram carregar um “enorme jarro d’água, que valia três potes de peso, calculado para a força normal de um homem robusto” (Olímpio, 1995, p.13). 

Os moradores de Sobral, dos jovens aos velhos, teciam diversos comentários sobre o “lado homem de Luzia”, essa jovem de “músculos de aço e formas esbeltas das morenas moças do sertão” (Olímpio, 1995, p.14), não se enturmava com as outras moças, e por isso, era vista como soberba.  “Aquilo nem parece mulher fêmea, reparem que ela tem cabelos nos braços e um buço que parece bigode de homem”, dizia uma velha, já outra reclamava que “Lixandre maldou uma cabocla roliça e bronzeada” (Olímpio, 1995, p.14.)

Na narrativa, quando questionada pelo promotor sobre seu apelido, Luzia explicou que desde criança fora acostumada a andar vestida de homem para poder ajudar o pai no trabalho, realizando diversas funções na fazenda, deixando de usar camisa e ceroula quando já tinha 18 anos (Olímpio,1995, p. 35).

Na dissertação de mestrado Racismo e Sexualidade nas Representações de Negras e Mestiças no Final do Século XIX e XX, Silvane A. da Silva enfatiza que esses papéis sociais “não surtiam efeito na população negra, uma vez que homens e mulheres, desde a escravidão estavam acostumados a fazer as mesmas tarefas, eram utilizados para os mesmos tipos de serviços, não havia divisão” (Silva, 2008, p. 31). Portanto, essa problemática invocada na narrativa pelo autor é permeada pelos ideais patriarcais no qual pautavam a feminilidade branca.

Walnice N. Galvão, professora de teoria literária e literatura comparada na USP e crítica literária, em seu livro sobre a temática de donzela guerreira, aponta que são histórias de mulheres como a de Luzia, mitológica ou não, que perpassam a literatura e diferentes culturas, possuindo determinados aspectos que caracterizam esse arquétipo (Galvão, 1998). Talvez, o principal seja a inversão de papéis sociais de homens e mulheres, ou como ouvimos geralmente “coisa de mulher”, “coisa de homem”: se vestir de homem, ir para a guerra, cortar o cabelo curto, etc.

Nas narrativas de donzela guerreira, o pai tem papel importante, enquanto a mãe aparece ausente ou debilitada, os ideais de força e poder estão expressos na figura do pai, sendo assim, a constituição desse corpo ora masculino, ora feminino, se fortalece quando o pai sai de cena e a personagem passa a assumir suas funções, após sua morte é ela a responsável pelos cuidados da mãe, em trabalhar fora e manter a casa.

A partir da visão do autor, homem e branco do século XIX e XX e da elaboração que fez de Luzia, é possível trazer diversas reflexões sobre gênero e corpo fundamentado na obra da filósofa Judith Butler, a mais pertinente para essa discussão é a noção de gênero enquanto construção social, cultural e discursiva (Butler, 2003, p. 24-28). 

O gênero de Luzia é colocado em discussão, pois as marcas que ela traz no corpo são do desvio, foge de uma feminilidade, é calcado naquilo que é compreendido como características de homem: “mulher que tinha buço de rapaz, pernas e braços forrados de pelúcia crespa e entonos de força, com ares varonis de um virago, avessa a homens, devera ser um desses erros da natureza, marcados com o estigma dos desvios monstruosos do ventre maldito que os concebera”. (Olímpio,1995, p. 21)

Sobre essa relação entre sexo e gênero, Butler diz que “a hipótese de um sistema binário dos gêneros encerra implicitamente a crença numa relação mimética entre gênero e sexo, na qual o gênero reflete o sexo ou é por ele restrito” (Butler, 2002, p. 24). 

São as falas dos personagens que impõem que Luzia deveria estar no corpo de fêmea, portanto carregar um conjunto de práticas que expressaria a feminilidade aceita no período em que a obra é escrita. São as produções culturais – literatura, cinema, música, etc – que repetem a mesma lógica, alimentando com discursos verbais e imagéticos o que seria a “mulher-macho”.

Outro ponto a ser observado da elaboração  que Olímpio fez de Luzia, é que não difere muito do que Euclides da Cunha em Os Sertões (1902) fez com os sertanejos de Canudos. Em ambas as narrativas, os sertanejos e Luzia são racializados sob a perspectiva do racismo científico, o sertanejo foi pensado como sub-raça, elaborado como o não ser, uma vez que é inferiorizado e animalizado em diversas passagens.

Em Luzia Homem, há vestígios da mesma influência cientificista, a personagem foi elaborada tal qual o meio: seco, embrutecido, viril, a ser dominado e domesticado, em algumas passagens associada a um animal, uma não fêmea.

 Cunha fez o movimento em negar ou diminuir a presença negra da composição racial sertaneja, lembremos que o autor estava localizado em um contexto de construção da nacionalidade, então se o sertanejo era o expoente dessa nacionalidade, ele não poderia ter influência negra (Munanga, 2019, p.58).

O historiador e sociólogo Clóvis Moura, teceu críticas em 1964 no livro Introdução ao Pensamento de Euclides da Cunha e nos anos de 1990 em As Injustiças de Clio sobre essa perspectiva presente em Os Sertões. Segundo Moura, “Euclides da Cunha define quem é o sertanejo sem pesquisas de campo e com roupagem científica delineando um homem do interior que não condiz com a realidade” (Moura, 1964,p. 85).

Diversos autores contribuíram para endossar uma imagem sobre o que era o sertão e posteriormente o Nordeste, o maior expoente seria Euclides da Cunha, tornando-se uma matriz de referências para as narrativas literárias que surgiram, dentre eles Luzia Homem.

Antes mesmo da ação ativa do escritor Gilberto Freyre no Movimento Regionalista do Recife, em 1926, na definição de uma figura para o Nordeste, narrativas literárias como essas e outras contribuíram para o surgimento daquilo que o filósofo Michel Foucault chama de arquivo (Foucault, 2008, p.106) onde temos um conjunto de discursos que foram e ainda são atualizadas e mobilizadas ao longo da História.

Há uma regularidade de elementos que compõe a obra de Domingos Olímpio e outras diversas produções culturais, mesmo quando ‘mulher-macho’ é evocada ou mobilizada em uma tentativa de positivar uma “identidade nordestina”, ela acaba por acionar os mesmos signos raciais, de gênero e território. 

Durval Muniz de Albuquerque Júnior é historiador e com os livros: A invenção do Nordeste e outras artes e Nordestino: a invenção do falo, abre os caminhos para pensarmos a região e o nordestino, enquanto uma invenção imaginária e discursiva, sendo em muitas produções uma construção conservadora, emergindo na segunda metade do século XX, para se colocar na contramão das transformações sociais, econômicas e políticas que vinham acontecendo desde o advento da abolição, da república e da industrialização (Albuquerque Jr, 2011).

O historiador nos chama atenção para a construção do Nordeste pelo discurso regionalista baseado na nostalgia à sociedade escravocrata e patriarcal. Outro elemento desse discurso é a noção de sertão, que segundo Albuquerque, até “o século XIX descrevia qualquer área do país que ficava para além do litoral e das cidades” (Albuquerque Jr, 2019).

 Foi no século XX que a ideia de sertão foi incorporada pelos discursos regionalistas, políticos, dentre outros, associado à seca, cangaço, miséria e violência (Albuquerque Jr, 2019). Para Albuquerque Jr., “o Nordeste é filho das secas; produto imagético-discursivo de toda uma série de imagens e textos, produzidos a respeito deste fenômeno, desde a grande seca de 1877” (Albuquerque Jr, 2011, p. 81). 

À medida que foram construídos e alimentados diversos discursos sobre a região, como algo homogêneo atravessado por imagens de miséria, fome, virilidade, violência, ao elaborarem os habitantes desse espaço os mesmo signos foram mobilizados, primeiro na construção de sertanejos e sertanejas, e posteriormente, na emergência das expressões mulher-macho e cabra-macho para designar homens e mulheres do Nordeste.

 Tipo regional atravessado pelo elemento da virilidade e violência, corpos animalizados, nesta região existiria a mulher-macho que “era aí uma exigência da natureza hostil e da sociedade marcada pela necessidade de coragem e destemor constante” (Albuquerque Jr, 2013, p. 224).

Muitos já viram ou utilizaram a expressão aqui discutida, no tom de positivar a “identidade nordestina” ou de dizer que alguma mulher é valente, mas como as mulheres valentes de outros espaços são denominadas? São animalizadas? A partir de todos os elementos apresentados aqui e que fizeram emergir o Nordeste e tal referência identitária, não devemos repensar a expressão e o seu uso? 

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Letícia Santos é filha de Gil, baiano do Geribá e Lê, pernambucana de Exu, estudante de História pela Unifesp, se aventurou por toda a graduação a compreender a emergência da expressão mulher-macho, tão valorizada em sua família

Clóvis Moura: Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha. Ed. Civilização Brasileira, 1964

___. As injustiças de Clio. Ed. Oficina de Livros, 1990

Durval Muniz de Albuquerque Jr.: A invenção do Nordeste e outras artes. Ed. Cortez, 2011

___. Nordestino: a invenção do “falo” uma história do gênero masculino (1920-1940). Ed. Intermeios, 2013

 JOSÉ W. F. de Souza, Secas e socorros públicos no Ceará: doença, pobreza e violência (1877-1932). Projeto História, v.52, 2015

Judith Butler: Problemas de Gênero –  Feminismo e subversão da identidade. Ed. Civilização Brasileira, 2003

Kabengele Munanga: Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Ed. Autêntica, 2019

Silvane A. da Silva: Racismo e sexualidade nas representações de negras e mestiças no final do século XIX e início do XX. Dissertação (Mestrado em História) – PUC SP, 2008.

Walnice N. Galvão: A Donzela-Guerreira – um estudo de gênero. Ed. Senac, 1998

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