Edição 3

Edição 3 - 20.05.21

Mole e derretendo

Caio Bonifácio

imagem por Cris Ambrosio

Cheguei em casa cansado do sol, deixei as compras e os sapatos do lado de fora e fui para o chuveiro com a força dos meus músculos fracos. Em um momento crítico, um último impulso de adrenalina pode dar a alguém uma força sobre-humana, mas esse não era meu caso, já que eu não estava em um momento crítico, só muito cansado de sol. Cansaço de sol não é precisamente de sol, mas quando você caminha e resseca sob o sol, levando algum peso (ou não), voltando para casa e sentindo que está cada vez mais longe de chegar.

Tomei banho e deitei no sofá, meu corpo suave e suavizado pela ducha se desfez no estofado. Nos ombros e na batata da perna o macio da espuma, no meio das costas o duro da estrutura do móvel de almofadas que se desmanchavam por horas de bunda sentada em frente à televisão ou ao computador, horas que deformaram minha bunda e minha coluna, deixando uma pontada na lombar toda vez que fico em pé, como um aviso do corpo quebrando o silêncio que marcava seu funcionamento saudável.

Cansado, desfeito no sofá, meus membros pendiam como se não fossem meus e formigavam suavemente indicando um desastre cujo prazer da anunciação eu prefiro aproveitar; como se alguém acariciasse minha pele com a ponta dos dedos ou com várias agulhas finíssimas, como se um tecido sintético fosse arrastado lentamente e estivesse roçando e prendendo na pontinha dos pelos e puxando no sentido contrário deles, como se as patas de uma centopeia atravessassem minha floresta particular.

É uma frágil harmonia. Do corpo que canta a suave serenata de sua despedida; não é que ele vai embora hoje à noite ou amanhã de manhã, mas ele me permite deixar de lado sua presença intensa que importuna o tempo inteiro. Quando acordo de um sono cheio ou vazio, estou no meu corpo. Se olho pela janela e vejo algumas partes do redobrar infinito do mundo, onde nas dobras escuras se esconde o terror profundo, estou no meu corpo. Se um orgasmo me lança para fora da atmosfera ou me arrasta pelo núcleo metálico, é no meu corpo que sinto a pressão do vácuo ou o níquel ardente. Mas por enquanto ele me liberta em uma despedida lenta que o adormece a partir das extremidades. O que eu quero é cessar por um momento e estar vivo no outro.

Me perdi. Nem mesmo é meu corpo que incomoda, mas as dobras do mundo que escondem em sua escuridão o terror profundo, sobre as quais eu já comentei de passagem. É em meu corpo que existo, e nós andamos de coleira, levados pelas coisas, ameaçados pelo que não vemos e está escondido nas quebras. Essas coisas que são matéria bruta da existência são feitas no meu corpo, mas não tenho nenhum controle sobre elas, como se minha carcaça fosse fábrica autônoma de sua própria destruição. Minha matéria engendra substâncias à minha revelia, carne putrefata aqui e ali, minha vida ativa produz em seu interior o cadáver de si mesma. Eu tenho medo de uma força estúpida que aterroriza por sua possível presença, como em um suspense da vida cotidiana, como o mal de uma fome profunda que se desenrola no escuro produzido pela luz mesma que me alimenta.

Ouvi dizer certa vez que se fosse possível dobrar uma folha de papel ao meio pouco mais de uma centena de vezes esse papel chegaria à lua e suas dimensões excederiam aquelas do universo. Acredito que dentro desse papel dobrado, em cada lado estaria um segredo, mas que ninguém saberia… então não um segredo, mas um mistério. A informação que é mister para a compreensão dos corpos e das coisas que levam os corpos até o desgaste inadiável; é a verdade do oxigênio, dos radicais livres e de outras partículas sem vida.

Eu, deitado no sofá, quase me derreti de olhos fechados. O grito desesperado dos pássaros que confundimos por canções estranhas me acordou de um sono raso. Meus olhos se arrastaram procurando um apoio, procurando a afirmação redundante de nossa ignorância intercalada pelas notícias de manifestações espontâneas e sensíveis do terror, ou pela simulação deste: a televisão. Estiquei-me, sentei no sofá e mais uma vez minha bunda encontrou o pau duro da estrutura, nenhum espanto, nenhum prazer. E a televisão gritava comigo; ela trepida às seis da manhã, grita a partir do meio-dia e chora das quatro da tarde até adormecer. Eu não entendo nada, mesmo assim acho que preciso desse som difuso enquanto meu sexo escorre pelas minhas pernas e suja o chão de uma gosma escura e densa com a qual já aprendi a conviver.

Faz tempo já que meu sexo escorre denso pelas minhas pernas; com tempo quero dizer dias, ou meses, ou até anos que se fundiram apressados. A gosma escura parece marcar o vazio, a falta, o fundo, o oco que ficou entre as pernas e que se estende pelo tronco, abre o peito e fecha no palato. Ainda tenho minha língua que lambe as gengivas, ainda tenho meus dentes que trituram amendoim torrado, ainda tenho minha garganta que agarra comprimidos, tenho um estômago que cozinha as próprias paredes, tenho uma fileira de ossos que se comprimem uns contra os outros, tenho um nervo que inflama vez ou outra, tenho pés que cedem cansados. Um organismo inteiro que cansa de sol e não pode gozar.

Fui enganado, não acordei, dormi mais profundamente. Só sonhei que meu sexo era petróleo; combustível fóssil, marca de vidas que foram arrebentadas por seu próprio movimento, corpos que entraram em um combate violento contra o mundo que os reprimiu tanto mas tanto que a pressão os deixou como um óleo negro e espesso. Então acordei mesmo, desta vez de verdade. O grito dos pássaros também era mentira, a televisão era mentira também. A verdade é que meu celular trepidava, ele sim gritava avisando que era hora de ligar o computador e trabalhar. Coloquei o notebook no meu colo e suas engrenagens macias começaram a girar assobiando baixinho, esquentando seu plástico e minha virilha derretendo levemente. Ele suga energia (minha e da Enel) e isso custa caro, para isso eu trabalho, como em um ciclo vicioso. Ele suga energia e trabalho para que eu possa ver e ouvir, sem sentir, pessoas que estão lá longe, trabalhando e engendrando a morte.

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Caio Bonifácio é professor de artes, pesquisador e artista visual.

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