Edição 2 - 06.10.20

Outros modos de ver cinema

Victória Bianchi

imagem por Marina da Silva

Provavelmente você já leu por aí algo sobre a “democratização do acesso ao cinema”, seja nas discussões que rolam sobre pirataria, nas reflexões em torno da chegada das plataformas de streaming* ou até mesmo na prova do Enem. De fato pensar em como trazer o contato com o cinema a mais pessoas é necessário, visto que para uma enorme parcela da sociedade brasileira ele é um luxo (para se ter uma ideia, no Brasil quase 90 milhões de indivíduos vivem em municípios em que não há salas de cinema, segundo dados da Ancine) e para outra, como proceder para assistir um filme antigo ou fora do circuito comercial ainda é uma incógnita.

Na atual era, a comunicação audiovisual é de extrema importância e o cinema possui a capacidade de nos alcançar de diversas formas, entretanto essa pluralidade inerente a ele é pouquíssimo explorada. Em termos de investimento e produção há uma indústria dominante e milionária num constante embate com os pequenos realizadores, que lutam para sobreviver a essa hegemonia, trabalhando com recursos escassos e procurando espaço para narrativas não-convencionais. Quanto à distribuição e ao acesso, esse mesmo esquema problemático se repete: as obras na maioria das vezes são limitadas a um público restrito que detém os conhecimentos e meios financeiros para chegar até elas, fazendo com que os espectadores e conteúdos consumidos sejam sempre muito parecidos.**

Com tudo se convergindo à internet, é claro que esse debate também chegaria nesse terreno, pois apesar das salas físicas de cinema serem indispensáveis, é no mundo virtual que as principais transformações vêm ocorrendo – os serviços de streaming, as plataformas colaborativas, os fóruns, trackers e grupos sem fins lucrativos vêm tentando de alguma forma contornar os problema ligados ao acesso e também à monopolização da indústria. Pensando nisso, foram listadas algumas plataformas e iniciativas que fogem dos nomes mais famosos como a Amazon e a Netflix para facilitar o contato com a sétima arte e expandir as possibilidades de conteúdos e serviços a serem consumidos. O foco é em serviços gratuitos ou a preços acessíveis***, mas existem exceções na lista com valores mais altos, selecionados pela qualidade dos filmes oferecidos.

* Plataformas de streaming são aqueles que possibilitam a transmissão de conteúdos pela internet, sem a necessidade do usuário baixar o arquivo para ter acesso ao filme, música ou livro.

** Volto ao texto “Quem é que vê arte no Brasil?” publicado na edição 1 da revista para questionar: quem é que vê filme no Brasil? E que tipo de filme se vê? 

*** Os preços podem variar de acordo com a data de acesso. O mesmo vale para o catálogo e para a própria disponibilidade das plataformas.

Serviços de streaming pagos

MUBI – O Mubi é uma serviço de streaming com proposta diferenciada,  onde é possível encontrar desde clássicos cults até produções independentes e pouco conhecidas. Dos novos diretores aos grandes vencedores de festivais, há na curadoria o cuidado com a variedade de nacionalidades, gêneros e formatos dos conteúdos selecionados.

A sessão “Em exibição” é a grande sacada da plataforma – nela diariamente um filme é adicionado e outro é excluído, assim cada título permanece disponível por apenas 30 dias. Recentemente houve a ampliação para a aba “Acervo”, onde alguns desses títulos que já passaram pelo site são disponibilizados para consumo a qualquer momento.

É possível experimentar a plataforma gratuitamente por 7 dias e após esse período há a opção de escolher entre o plano mensal ou anual, o primeiro custa R$27,90 e o segundo R$238,80 (o mês passa a custar R$ 19,90). Estudantes possuem desconto e podem assinar o plano de R$16,90 por mês.

TELECINE PLAY – Aplicativo oficial da rede de televisão Telecine, o Telecine Play  possui no catálogo todas as obras da programação de seus canais, ou seja, mais de 2000 filmes entre cults estrangeiros e blockbusters recém lançados. Dos serviços listados ele é provavelmente o mais caro, mas entre as grandes plataformas é o que apresenta maior variedade. A assinatura custa R$ 37,90/mês com três telas disponíveis e para quem já é assinante do canal o aplicativo é gratuito. Vale informar que há um período teste de 30 dias.

BELAS ARTES À LA CARTE – Lançado neste ano pelo famoso cinema paulistano Petra Belas Artes, o Belas Artes à la carte é um serviço voltado para quem está cansado da mesmice. Seu repertório conta com filmes sucessos de crítica, produzidos em diversos países (destaque para a produção russa e japonesa) e escolhidos a dedo pelos mesmos  curadores do cinema físico. O plano mensal do serviço custa R$ 9,90 e o anual R$ 108,90, mas há também a possibilidade de alugar filmes individualmente a partir de R$ 4,90.

FILME FILME – Nas grandes plataformas de streaming é comum demorar mais tempo procurando o que assistir do que realmente assistindo, pensando nisso a Filme Filme surgiu com um serviço de curadoria limitado. Todas as semanas, quatro filmes entram em cartaz, cada um em uma categoria (filmes de festivais, documentários, júri popular e curta-metragem) e os menos assistidos das semanas anteriores descem no catálogo, assim os filmes ficam disponíveis no site por apenas três meses. A ideia passa pelos mesmos princípios do funcionamento de uma sala de cinema e o usuário paga R$ 6 por locação individual.

DARKFLIX – Plataforma brasileira específica para os amantes do terror, a Darkflix inclui tanto clássicos quanto produções atuais. O streaming mantém 666 filmes e 333 episódios de séries no seu catálogo e possui um plano único de R$ 9,90 por mês com direito a até cinco usuários.

OLDFLIX – Mais um “flix” por aí, a Oldflix oferece por volta de 800 títulos entre filmes, séries, animações, shows e documentários da “TV Retrô”, ou seja, produções realizadas até meados dos anos 90. Os clássicos estão disponíveis por uma mensalidade de R$ 12,90 e os primeiro 7 dias testes são oferecidos gratuitamente.

Plataformas gratuitas

SPCINE PLAY – Única plataforma pública de streaming do Brasil, a Spcine Play é uma iniciativa da Spcine, empresa de desenvolvimento, financiamento e implementação de programas e políticas audiovisuais, que coordena também o Circuito Spcine, projeto responsável por 20 salas de cinema gratuitas na periferia do Estado de São Paulo.

Nela o conteúdo varia entre filmes, séries, shows, gravações de espetáculos e eventos culturais. Em relação ao cinema há no catálogo filmes de todos os cantos, mas o foco é na produção brasileira, contando com títulos importantes para a cinematografia do país.

CINEMATECA PERNAMBUCANA – Espaço destinado à coleta, catalogação, preservação, formação, pesquisa e difusão das produções do cinema feito em Pernambuco, a Cinemateca Pernambucana disponibiliza através do seu site um acervo de 261 películas que misturam tradição e modernidade e comprovam que o cinema do Nordeste é um dos mais prolíferos e criativos do Brasil. Pensando na inserção de pessoas com deficiências sensoriais no universo do cinema, os títulos  do acervo estão disponíveis em três modalidades de acessibilidade comunicacional.

PARANÁFLIX – A Paranáflix é uma plataforma criada para difundir produções cinematográficas produzidas no Paraná e possui um acervo construído de maneira colaborativa com filmagens que datam desde 1910 até filmagens recém-lançadas. A iniciativa surgiu segundo seus idealizadores como “sintoma da insuficiência de políticas públicas consistentes de distribuição, produção, exibição e preservação do cinema no estado”.

LIBREFLIX – Baseado no conceito de cultura livre* e no uso do código-aberto, a Libreflix é um site onde as produções são inseridas pelos próprios criadores. Os documentários correspondem a 75% das obras e podem ser melhor visualizados na divisão por temas, que engloba assuntos como feminismo, veganismo, música, tecnologia, ativismo e outros.

* Cultura livre é um movimento social que defende a igualdade de direitos para todas as pessoas em relação ao conhecimento e obras intelectuais, como músicas filmes, livros e etc. Para mais informações há o livro Cultura Livre de Lawrence Lessig.

AFROFLIX – Coordenada majoritariamente por mulheres, a AfroFlix é uma plataforma que busca trazer mais visibilidade à questão afro-brasileira, reunindo produções audiovisuais escritas, protagonizadas, produzidas ou dirigidas por ao menos uma pessoa negra. As obras vão desde ficções que brincam com o realismo mágico até discussões étnico-raciais e políticas.

LGBTFLIX– Criado pelo Coletivo #VoteLGBT a LGBTFlix é um catálogo de filmes com temática LGBTQI+ que possui até o momento 180 obras, em sua maioria curtas-metragens, realizados por cineastas brasileiros pertencentes à comunidade.

 

Há também as plataformas estrangeiras:

 

LE CINÉMA CLUB – Streaming francês com tradução para o inglês, o Le Cinéma Club busca oferecer um espaço online para vozes diversas e originais. Obras raras que muitas vezes não recebem a devida atenção são escolhidas para serem exibidas no site, onde um único filme fica disponível por semana.

CINEMARGENTINO – A videoteca dos hermanos é um projeto realizado com o apoio das produtoras locais e apoiado pelo governo, que busca facilitar o acesso ao cinema argentino, principalmente do circuito independente. Os filmes estão em espanhol e podem ser acessados pelo site sem qualquer tipo de cadastro.

Torrents e downloads

STREMIO – O Stremio é um programa multimídia que permite o acesso do usuário à mídia de diversas fontes diferentes, como filmes e seriados, em uma única plataforma. 

A instalação e uso da plataforma são totalmente legais, no entanto os conteúdos são agregados através de Addons da comunidade e na maioria das vezes há a utilização de torrents e P2P’s que podem envolver propriedade de terceiros e violar direitos de uso. 

INTERNET ARCHIVES – Biblioteca digital sem fins lucrativos que disponibiliza filmes, músicas e livros de forma legal e gratuita. No site é possível encontrar mais de 20 mil filmes para assistir online ou baixar no computador.

LEGALMENTE GRÁTIS – Site espanhol que reúne títulos enquadrados na lei do Domínio Público ou sob licença Creative Commons.

Sites de compartilhamento

VIMEO – Criado em 2004 por um grupo de cineastas que estavam à procura de uma maneira fácil de compartilhar vídeos com seus amigos, o Vimeo conta atualmente com mais de 175.000.000 membros no mundo todo. Há uma quantidade expressiva de ofertas de obras audiovisuais sob demanda, pagas e gratuitos na plataforma, principalmente filmes independentes e curtas-metragens.

YOUTUBE – Um dos sites mais conhecidos do planeta, o Youtube oferece um serviço próprio de compra e aluguéis de filme com algumas boas opções no seu catálogo. Entretanto destaco o trabalho individual realizado dentro da plataforma pelos diversos canais que buscam difundir o cinema de forma gratuita para um público mais amplo:

CINEMATECA VIOLA CHINESA – Iniciativa com um conteúdo variado que visa disponibilizar filmes para um público mais amplo. Numa conversa com o idealizador do canal ele comentou sobre a “necessidade de trazer esses filmes que são considerados ultrapassados ou feitos à margem, e lembrar que, se foram feitos ontem, eles ainda existem hoje”  pois “uma cinemateca preservada e fechada a sete chaves, vale tanto quanto suas cinzas’.

CLÁSSICOS DE MULHERES NO CINEMA – Voltado para filmes antigos dirigidos ou co-dirigidos por mulheres.

CINE ANTIQUA – Publica filmes em domínio público ou no denominado “uso justo”. Além do Youtube também está presente no Daily Motion e Vimeo.

CLÁSSICOS DO TERROR – Como o próprio nome indica é voltado para os fãs do gênero do terror e possui mais de 70 obras publicadas.

KOREAN CLASSIC FILM – Iniciativa do Korean Film Archive (KOFA), possui um conteúdo inestimável com quase 200 filmes sul-coreanos. Todos os títulos estão disponíveis em coreano com legendas em inglês.

CLASSIC CINEMA ONLINE – Plataforma gratuita que reúne uma variedade de filmes clássicos hospedados no YouTube, no idioma original e com opções de legendas em inglês.

 

Como bônus uma última dica: fique atento aos festivais. Com as medidas de isolamento social os eventos do mundo todo passaram a acontecer online e se tornaram um pouquinho mais acessíveis. Aqui você pode conferir o calendário de festivais nacionais onlines do 2º semestre e aqui  o calendário internacional.

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Victória Bianchi é graduanda em Letras na habilitação português – francês pela USP. Realizou uma série de cursos livres na área do cinema e atualmente trabalha com produção e curadoria audiovisual.

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