Edição 3 - 06.07.21

Memória é cultivo de árvores ancestrais

Igor Vice

Capa: Campo Limpo 1954-1980, 2021, Igor Vice

Em meio à constante manutenção das ferramentas de violência geradas e cultivadas por sistemas opressores, os territórios de continuidade histórica de nossos ancestrais negros e indígenas seguem se atualizando. Criando e recriando desenhos estratégicos que garantam a existência de nossos corpos e a preservação de nossas memórias, esses territórios são regados por práticas artísticas e manifestações culturais que têm seu fundamento no respeito à oralidade. As histórias contadas por quem já nasce com o compromisso e a responsabilidade de ter na memória as palavras geridas em sua comunidade são mantidas por um fogo antigo. Apresentam modos de vida possíveis a partir de suas vivências e contextos, dinamizam os trajetos da geografia em que habitam e fortalecem encruzilhadas onde corpo e território se encontram para dançar um passo que é ancestral.

Em 1980, quase quatro décadas depois da existência de uma fazenda chamada Pombinhos, onde se iniciou a ocupação urbana do que viria a se tornar o distrito do Campo Limpo, o Movimento Negro, fundado na região no fim dos anos 1970*, foi o responsável por mobilizar a esfera cultural do distrito. Atuava na organização e realização de atividades culturais em equipamentos e espaços urbanos públicos na região da Praça do Campo Limpo, onde foram promovidos encontros em que as potencialidades da região eram ressaltadas. O Movimento Negro resgatou memórias dos povos que migraram para a Zona Sul da cidade de São Paulo em busca de melhores condições de vida, contribuindo com o desenvolvimento político, social e cultural do distrito e do seu entorno. O grupo organizado desenvolveu estratégias que fomentaram discussões sobre raça e gênero a partir de realidades locais, acionando agentes e coletivos que atuavam concomitantemente com as práticas antirracistas do Movimento, como o Bloco Afro e a Escola de Samba do Campo Limpo.

* As informações sobre o Movimento Negro de Campo Limpo foram coletadas a partir de entrevista realizada via videochamada, em 27 de novembro de 2020, com a Iyá Ana Rita Encarnação, que foi militante da organização nos anos 1980.

Os grupos e espaços culturais que atuavam na Zona Sul construíram uma rede que deu suporte às necessidades das comunidades, ao garantir  que pautas relevantes às suas realidades fossem abordadas e, principalmente, que as ideias e projetos locais tivessem apoio para serem desenvolvidos. Essa rede se formou a partir dos percursos traçados por quem frequentava as atividades culturais organizadas na região. Tais percursos geraram novos fluxos entre Campo Limpo, Capão Redondo, Embu das Artes, Taboão da Serra e outras áreas periféricas próximas, que fortaleceram os vínculos entre esses territórios e consolidaram um movimento cultural entre periferias da Zona Sul.

Já escrevi esse texto algumas outras vezes. Não que isso seja um problema. Aqui está sendo levantado justamente a falta de acesso público a documentos que tratem sobre a história do distrito do Campo Limpo em relação à existência de tantos relatos e memórias que contam sobre a formação da região a partir do movimento de corpos negros e periféricos. Alcança-se a existência da Fazenda Pombinhos nos textos disponibilizados pela Subprefeitura do Campo Limpo e muitas outras plataformas que replicam as mesmas palavras, mas não se encontra nesses mesmos lugares sobre os modos de vida existentes na região que não fossem de origem japonesa ou italiana. Se o distrito começa a tomar forma urbana devido a expansão de Santo Amaro, causada pelo aumento do fluxo de migração de populações de outras regiões do país em busca de melhores condições de vida, onde estão registradas as histórias vividas por esses corpos que parecem não ser relevantes aos documentos que contam sobre a formação de nossas cidades? Na boca do povo, diriam os que vieram antes.

Campo Limpo 2004-2014, 2021, Igor Vice
Campo Limpo 2004-2014, 2021, Igor Vice

Dona Raquel Trindade, A Kambinda, como assinava suas pinturas, filha do poeta Solano Trindade e uma das responsáveis por manter vivo o legado de seus ancestrais, foi uma figura importante para a esfera cultural da Zona Sul de São Paulo. A artista fez sua passagem ao Orum em 2018, nos deixando no Aiê com a memória e potência de sua alegria, força, coragem e ternura. Se hoje nos movemos em busca por resgatar memórias negras presentes no Campo Limpo e arredores, é A Kambinda uma das figuras que nos sopra curiosidade, nos mantendo firmes na localização e na reconstrução dessas raízes.

Em 2014, ao ser procurada por dois artistas que atuam na região da Praça do Campo Limpo, Dona Raquel os conta que naquela região existiu uma senzala. O seu relato nos coloca em tensão por compreender melhor as relações entre memórias negras contadas sobre aquela região e as manifestações sociais e artísticas que hoje se fazem presentes em todo o território aqui abordado. Além disso, o relato da artista aponta a falta de documentos que apresentam o protagonismo negro na formação social e urbana do distrito, nos impulsionando a tomarmos uma posição constante de busca e resgate por essas memórias invisibilizadas.

A falta de documentos que abordam a participação e a presença negra na formação de nossas cidades contribui diretamente para o apagamento de saberes e tecnologias carregados por nós e nossos ancestrais. As inúmeras ferramentas racistas herdadas do período colonial e renovadas até a atualidade garantem que o povo negro siga sendo marginalizado em distintas esferas. A luta negra está atrelada ao compromisso e responsabilidade por assegurar a preservação e continuidade das memórias de nossas mais velhas e mais velhos, atualizando as nossas ferramentas de resistência e garantindo o alcance, respeito e reconhecimento de nossa ancestralidade na construção de tudo o que há no mundo.

Campo Limpo 2018-2021, 2021, Igor Vice
Campo Limpo 2018-2021, 2021, Igor Vice

Há dez anos, em frente a Praça do Campo Limpo, um grupo de teatro iniciava uma ocupação cultural em uma construção abandonada. Hoje, já consolidado e reconhecido pela comunidade, o Espaço Cultural CITA é casa de oito coletivos que atuam entre teatro, dança, maracatu de baque virado, jongo e formações técnicas – além de acolher colaboradores que levam ao espaço oficinas de permacultura, capoeira angola e outras manifestações e temas ligados ao fazer coletivo. A existência do CITA na região é garantia por estrutura e apoio a pessoas e coletivos que têm projetos dentro e a partir da comunidade porém não possuem um espaço ou um representante legal que possibilite a realização de suas atividades. O CITA, que tem sua gestão de modo coletivo, é processo e resultado dessas inúmeras pesquisas que nos posicionam a enfrentar um sistema opressor a partir da cultura. Existe ali um território de encontro que fortalece e cura, mantido por múltiplas mãos e guiado por tudo aquilo o que nos foi deixado de legado ancestral.

Em 2018, durante o Festival Percurso, que acontece na região da Praça do Campo Limpo, a partir do diálogo entre a Agência Solano Trindade e o grupo Maracatu Ouro do Congo, o Espaço Cultural CITA recebeu uma muda de Baobá, entregue pelo Mestre TC Silva, um de nossos griôs, fundador da Casa de Cultura Tainã e um dos idealizadores da Rede Mocambos e do projeto Rota dos Baobás. A chegada dessa árvore sagrada de origem africana no território do Campo Limpo se expressa enquanto demonstração da riqueza presente naquela terra, nos orientando sobre nossa própria história em curso diante da construção urbana e afetiva daquele território. O Baobá é uma divindade em terra. Ser presenteado desta forma é um ato de força e respeito quanto aos movimentos de resistência negra existentes no Campo Limpo desde seu surgimento. É bonito pensar o plantio do Baobá enquanto ato de respeito e reconhecimento por todos os corpos que formam aquela paisagem, espalhando suas raízes no solo de um espaço de cultura, preservando as memórias de nossas mais velhas e mais velhos e esticando seus galhos sobre um território que luta por sua existência e continuidade.

Hoje, o Baobá e o Espaço Cultural CITA fazem parte do Inventário Memória Paulistana, idealizado pelo Departamento de Patrimônio Histórico do município de São Paulo, e estão registrados e disponibilizados pela plataforma Geosampa. Da boca do povo para os documentos oficiais da cidade, a história e a ancestralidade do povo preto são intrínsecas à construção de nossas cidades, e o reconhecimento dessas memórias é parte fundamental do resgate de nossas raízes e afrontamento à ciclos de violência seculares. Quem está pegando fogo são eles!

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Igor Vice é artista visual, pesquisador e arquiteto.

 

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