Edição 2 - 21.09.20

Mais estranho que a ficção

Mariane Beline

imagem por Marina Avello

Começo essa reflexão a partir de um questionamento: estaríamos vivendo em uma realidade mais estranha do que a ficção? Talvez. Isso porque uma série de dispositivos advindos das ficções científicas cada vez mais faz parte do cotidiano, como as tecnologias que utilizam a realidade aumentada ou os tablets do filme 2001 de Stanley Kubrick .

A primeira menção futurística literária do que viria a ser a realidade aumentada acredita-se que foi feita no romance de 1901 do autor L. Frank Baum “The Master Key”, uma narrativa das aventuras de um jovem que busca os mistérios da eletricidade.

Em determinado momento, o menino recebe um óculos chamado Character Marker, em português algo como marcador de caráter, que ao ser utilizado todos que vêm ao seu encontro são marcados em suas testas com uma letra indicando seu caráter, por exemplo, sendo uma boa pessoa aparece um B, uma pessoa sábia aparece um S.  Mais de cem anos depois,  temos aplicativos e jogos em todos os dispositivos móveis, que concretizam não um marcador de caráter, mas uma mescla entre o que é real e o que é virtual.

O caminho para um futuro possível parece ser o embaçamento completo dos limites entre o real e o virtual, a chamada computação ubíqua, termo cunhado na década de 1990 por Mark Weiser em que descreve a onipresença da informática e da hiperconexão no cotidiano das pessoas. É quando a inteligência artificial e os programas de computador estão tão imbricados no cotidiano que não existe mais a necessidade de ligar ou desligar os dispositivos, sendo esses os objetos inteligentes com internet das coisas (IoT) que ficam produzindo informação o tempo todo. Podem ser os mais variados objetos como relógios, smartphones, geladeiras e roupas.

Cena do filme 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), dirigido por Stanley Kubrick
Cena do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968), dirigido por Stanley Kubrick

Outra figura constante na ficção científica são os corpos perfeitos, uma sinergia entre artificial e real, como os ciborgues ou o que defendem os transhumanistas*, isto é, o acoplamento da tecnologia aos humanos permitindo a superação dos limites impostos pela condição humana, acabando com todo o sofrimento físico de forma a nos guiar à condição pós-humana. 

O pós-humano não é uma frente filosófica homogênea, pelo contrário, evoca muito debate e indagações a respeito de rupturas do humanismo, tais como: cultura vs natureza, sujeito vs objeto e principalmente a questão do humano vs não-humano (máquina ou dispositivo ou gadget). 

Recentemente, empresas como a Sony e a Mojo Lens passaram a desenvolver lentes de contato inteligentes que buscam fundir informações digitais com o mundo visual. Ainda em fase de protótipo, a tecnologia pode vir a auxiliar casos de degeneração de retina ou outras deficiências visuais. Mas ao mesmo tempo, seria também um dispositivo de controle digital e de potencialização da conexão ininterrupta, uma vez que quem as utiliza pode parear as lentes inteligentes com os smartphones ou computadores, mostrando o conteúdo acessado diretamente nos olhos e não mais nas telas. 

Isso me parece assustadoramente ficcional! 

Lembra bastante do episódio da série britânica Black Mirror, que em 2011 lançou o episódio “The Entire History of You” em que os personagens usavam lentes de contato que realizavam gravações de suas memórias, permitindo rever a qualquer momento por uma projeção.

Para se pensar a contemporaneidade é interessante olhar para o projeto da modernidade anterior, e que de acordo com o filósofo e antropólogo Bruno Latour pode ser considerado falido, uma vez que esse mundo moderno é uma ilusão.  Isso porque esse mundo moderno nunca existiu, no sentido que jamais funcionou de acordo com as regras de sua constituição. 

A modernidade foi baseada em uma relação tensa entre humanos e natureza, principalmente caracterizada pela dominação e exploração, com um olhar de superioridade e não somente isso, de um controle racional como se a natureza fosse um reservatório infinito e passivo.

E o que seria esse projeto portanto?  A modernidade foi baseada em uma relação tensa entre humanos e natureza, principalmente caracterizada pela dominação e exploração, com um olhar de superioridade e não somente isso, de um controle racional como se a natureza fosse um reservatório infinito e passivo. O progresso, o controle e o racionalismo foram entendidos como garantia. Ou seja, ser moderno é ser assimétrico pois assinala uma ruptura na passagem regular do tempo e aprofunda um combate no qual há vencedores e vencidos, deixando claro o separatismo e excluindo os não humanos (como a tecnologia). É um modelo que tenta justapor, sem conectar, três grandes repertórios da crítica: a sociedade, a natureza e o discurso (as explicações teóricas científicas, por exemplo), como se fossem homogêneos, sem reflexos e interferências. 

McLuhan entende que o mundo moderno abrevia todos os períodos históricos e facilmente reduz o espaço, todo lugar e todo período tornaram-se o aqui e agora, previu na década de 70 o que Crary chama de capitalismo 24/7: um mundo desencantado, muito mais raso do que o dos passados e por isso sem espectros e que a homogeneidade do presente é fraudulenta, que se pretende estender a tudo e antecipar a todo mistério ou ao que é desconhecido. 

Assim o pós-modernismo não seria uma solução, mas sim um sintoma de ainda estar reagindo à essas separações e viver sob a constituição moderna, mas não acreditar mais no que ela oferece. 

Essa falência reverbera para o contemporâneo, uma vez que nenhum desses repertórios pode ser desmembrado sem se considerar uns aos outros, e uma estratégia possível de apontar/reagir a essas falhas é a partir da ficção, seja essa na literatura, no audiovisual ou nas artes visuais.  

Há uma fricção entre realidade e ficção, gerando produções críticas que questionam a sociedade utilizando elementos do presente desta, de forma que essas narrativas ativam a imaginação e experimentam caminhos alternativos para avançarmos.

O cientista político Sérgio Abranches entende que não há como falar das causas prováveis do futuro, se não na forma de ficção, utopia e distopia. Todo outro esforço será impreciso e efêmero. As formas ficcionais e utópicas prescindem de teste de validade. Não buscam a verdade, se não alguma plausibilidade. 

Ou seja, é por meio dessa estratégia de criação de universos paralelos como utopias e distopias que o espectador é inserido nessas realidades e são puxados a refletir sobre o contexto atual e apesar de não buscarem a verdade, até porque o que é a verdade afinal (?), apelam para elementos plausíveis e cotidianos, o que deixa ainda mais assustadora e encantadora a entrada nessas ficções.

Instalação de
Instalação de “The Aalto Natives” (2017), de Nathaniel Mellors e Erkka Nissinen, foto: FAD Magazine
Cena de um dos vídeos da instalação
Cena de um dos vídeos da instalação

Pela ficção se projeta um futuro  como estratégia de ataque e denúncia do passado recente e do presente. Alguns artistas visuais, a partir de vídeos e instalações, vêm trabalhando dentro dessa perspectiva crítica.

É o caso dos artistas finlandeses Nathaniel Mellors e Erkka Nissinen em “The Aalto Natives” na Bienal de Veneza de 2017. Somam conceitos de arqueologia, antropologia e ficção científica em um trabalho que re-imagina a sociedade finlandesa através dos olhos de duas figuras messiânicas chamadas Geb e Atum, representadas por fantoches falantes animados, que estão nas telas e nos espaços da instalação.

A história criada é que os dois retornam à Finlândia, milhões de anos após a terem criado, repensando a sua origem, revendo a sociedade contemporânea e a sua visão para o futuro. Dentro dessa narrativa criticam as falhas sistêmicas da cultura dominada pelo racionalismo e a fetichização do progresso (novamente aqui destaco a falência da modernidade). Evocam um universo de denúncia, de completo questionamento da sociedade atual, que, a partir do desconforto de uma experiência absolutamente imersiva e teatral, levam a uma reflexão de que caminhos a sociedade tomou.

Outro trabalho importante foi exposto na Bienal de São Paulo Incerteza Viva em 2016, em que o artista brasileiro Luiz Roque apresentou o vídeo Heaven (2016). Roque desde o início dos anos 2000 traz em seus filmes especulações sobre os lugares e sobre a condição do sujeito. Heaven se passa em um tempo suspenso, sem saber exatamente se passado ou futuro e o que parece ser a maior potência está na questão temática do filme, que contou com a atuação de atrizes e artistas ativas na luta de gênero.

A sinopse é a divulgação da notícia de uma epidemia de origem desconhecida que faz os órgãos de saúde levantarem a hipótese da transmissão ser realizada pela saliva de pessoas transe, sugerindo uma repetição da retórica preconceituosa e acusatória das campanhas contra a Aids na década de 1980. O medo, a escolha precoce de suspeitos, a acusação, o preconceito, a violência persistem nessa visão de futuro deixando claro as fissuras problemáticas do presente.

Aborda assim a possibilidade do exercício da liberdade individual em uma sociedade distópica e futurística. É a partir dessa estratégia que traz para o cerne da discussão questões urgentes e atuais, considerando o avanço crescente do conservadorismo que acirra preconceitos de gênero e classe, faz referência ao futuro por elementos recorrentes do presente, de disputas sociais cíclicas da história.  

No trabalho o corpo é político, é um corpo em luta, usado como instrumento de contestação, de enfrentamento de preconceitos. A discussão do corpo é expandida, a partir da narrativa é que se permeia o quanto esses corpos são marcados pela violência e exclusão, que infelizmente são muito comuns no cotidiano de mulheres e homens trans.

Cena de Heaven (2016), do artista Luiz Roque

Um elemento bastante curioso no vídeo é a utilização de aparatos de vigilância como os drones que vêm como dispositivos opressores dos corpos, em que os sujeitos são vigiados em todos os ambientes da sociedade. Claro que essa vigilância via drone não acontece em nosso cotidiano, ainda. Mas existem outros meios bastantes controladores como os objetos inteligentes que coletam dados o tempo todo simulando uma liberdade e um livre arbítrio que na verdade é absolutamente controlada por grandes empresas do vale do silício.

Estaríamos já vivendo em um panóptico** digital?

** Referência ao panóptico de Benthan que criou uma penitenciária ideal concebida em 1785, que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros, sem que estes saibam se estão ou não sendo observados. O medo e o receio de não saberem os leva a adotar o comportamento mais pacífico

 

Se tiver interesse, aqui tem outro de The Aalto Natives

 A era do Imprevisto: a grande transição do século XXI, livro de Sérgio Abranches

The Master key – an electrical fairy tale, livro de Frank L. Baum

Incerteza Viva (2016): Catálogo da Fundação Bienal de São Paulo

27/7: Capitalismo Tardio e os fins do sono, livro de Jonathan Crary

The Responsibility of Immortality: Welcome to the New Transhumanism (2018), artigo de Joi Ito 

No enxame: perspectivas do digital, livro de  Byung-Chul Han 

 Meet the Transhumanists Turning Themselves Into Cyborgs, artigo de Michael Hardy

Jamais fomos modernos, livro de Bruno Latour

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