Edição 3

Edição 3 - 15.10.21

José e só

Julie Dias

Estava ligado
como um mané
zé, esticando de
um lado pro
outro e ficando
bem frouxo e
velho. As vezes
tinha medo da
natureza pq
sabia que ela e
ele eram a
mesma coisa.
Andava
acanhado e
olhava pra toda
ignorância como
se fosse sua.

Ouvia a
zombaria do
lado de fora e
fingia não se
importar com a
incoerência dos
acontecimentos

Era muito difícil estar ali e não teria problema
não ser uma tragédia tosca, ficava dizendo que sim o tempo
todo sem ser avisado que o não é o novo futuro. Estava
muito cansado do que estava fazendo, mas continuava
mesmo assim. Conhecer era agora desconhecer e esse é o
maior impasse das relações secretas e burras.

 

 

 

Como antes, estavam todos bem ridículos
com o que viam, a polícia perseguiu as motocas e
as meninas olhavam rindo. Apreciava com
carinho toda banalidade e se sentia um pouco
requenguela e caduco

 

 

 

Nessas condições climáticas adversas o valor que eu tenho é um pouco culpa do terminal Pirituba mas passou outro dia de noite e de manhã e isso cansa a gente. Gostaria de ver um ataque contra essa decisão de fazer mal por besteira mas não é meio fácil chegar em um lugar chamado campo-santo.

Para quem dizia que não sabe coisa nenhuma de suas atribuições legais demorou menos de dois minutos pra ir pra cadeia produtiva de cabeça muito feliz.

Estava ficando mais velho e se vestia para dar uma volta pelo
quarteirão como quem não sabe mais o que fazer. Não existiam mais paredes emocionais para dar abrigo e além de ser um recém viúvo sua irmã crente não morava mais por perto e não tinha ninguém para conversar além do padeiro que vivia no telefone falando com a mãe que estava presa no asilo.

É verdade que pensava muito e que todas as suas ideias eram ruins, gostava de rir dos outros enquanto toda vida dava certo. É uma droga não saber como alguém ficaria cansado e um pouco morto de entender como tudo acontece.

Estava ficando com os órgãos
ocos e não tinha coragem de sentir
medo. Naquele dia ouviu no rádio
uma oração pra um grupo de
detentos que fazia guerra e logo
depois uma propaganda de
shampoo que prometia deixar os
cabelos mais fortes e longos.

Era um pouco burro o
jeito como fizemos as
coisas, mas gostava
de comer as sobras
acordar e dormir.

 

Quase nunca falava a verdade e estava sempre pensando em como seria o passado se tivesse feito tudo diferente. Sentia medo de perder o ônibus mas ria quando isso acontecia. Era alguém que não valoriza a si mesmo e achava um barato quando as pessoas ficavam bobas sobre algum assunto constrangedor.

Agora vai dar tempo de fazer com que os outros homens olhem para mim e pensem como são uma merda. É muito top ver que fofo os arquivos do sistema e como boa parte do que existe não tem nenhuma novidade, pq a gente não tá muito feliz.

Foram na casa de alguém que não conheço,
comi tudo o que consegui, depois voltei para onde
estava. Algumas horas antes não sabia o que fazer,
pintar as unhas ou correr na chuva, franzir a testa ou
roer os lábios.

Precisavam de algum tipo de ajuda. Dar de
comer e de beber, estalar os dedos enquanto dorme.
Conversavam sobre fazer as pazes e como a amizade
não era verdadeira.

A mamãe disse que estava envergonhada
com medo e muito linda. Por isso digo a ela
que irei fazer uma paródia de algo que
pareça vazio, mas com bom gosto.
Tomamos sorvete sabor chiclete e
inalamos fumaça, fizemos uma pulseira
verde que arrebentou, contamos até trinta
oito vezes seguidas, arrumamos o guarda
roupa e não jogamos nada fora, assistimos
novela, matamos centenas de baratas com
um rodo e também com a palma da mão

RECEITA DE PÃO

 

1/2 kg de…
10 g de…
15 g de…
20 g de…
1 colher de sopa de…

A despedida do mundo vai ficar na fila de espera para fazer uma pessoa normal e uma merda.

• • •

José e Só: São Paulo, 1968. Viúvo, trabalho como pedreiro, anuncie aqui, brasileiro gostoso, uso uma jaqueta jeans e muitas bolsa, não estudo mas sei ler e digitar, sou mudo, mão de vaca, caipirinha, observador.

Julie Dias: São Paulo, 1997. Em 2020 ganhei o Prêmio Respirarte oferecido pela Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), fui selecionada para o Edital Meios e Processos da Fundação Marcos Amaro (FAMA). Também integrei mostras, feiras e ocupações, como a 3ª Edição do programa de Ocupações artísticas de 2018, e a exposição “A menina mais feia da turma” com curadoria da Juliana Bernardino, no ateliê397.

Você pode gostar de...