Edição 3 - 31.08.21

In-cômodos + habituar o desejo

Allison Sales + Renata Barbosa Reis

In-cômodos, 2019.
In-cômodos, 2019.
Antiquado, 2020.
Antiquado, 2020.
Pru, 2020.
Pru, 2020.
Título: “Espaço mulher” São Paulo, 21.03.2020, 2020.
Título: “Espaço mulher” São Paulo, 21.03.2020, 2020.
Sem título, 2020.
Sem título, 2020.
Há entrega, 2020.
Há entrega, 2020.
Pra ontem, 2020.
Pra ontem, 2020.

 

 

habituar o desejo

da janela do quarto consigo ver o exato pedaço da avenida que me encontrei com ela. era 2019, dezembro. meu destino era ir ao cinema, mas até lá tinha o caminho. habitar uma cidade periférica é baldear constantemente. é programar-se para retornar ao menos duas horas antes do que qualquer um que more na cidade em que se está. para não querer desistir — quando se pode escolher — , o caminho precisa ser mais do que a única forma de chegar onde se quer, precisa ter alguma beleza, algo que contribua com a ilusão de que faz sentido depositar quase trinta reais e quatro horas para ir e retornar.

era domingo, natural que as ruas estivessem mais vazias do que qualquer outro dia, portanto as primeiras ruas que cruzei após sair de casa não me causaram espanto pela falta de gente e de automóveis. foi quando vi barreiras de metal na avenida que pude notar que algo estava acontecendo. as ruas vazias e as barras de metal mudam tudo, parece que algo-de-muito-importante-está-acontecendo. e, por alguns segundos, me senti extremamente estrangeira na cidade que habito. foi como descobrir que a rua virou contramão exatamente no dia que você deseja passar por ela. seguranças contratados pela prefeitura vestiam um uniforme com o objetivo de demonstrar seriedade, mas estamos no Sul. dezembro é verão aqui e as camisas que, para cumprir com o objetivo, precisavam estar abotoadas, foram substituídas pela pele à mostra levemente brilhante devido o suor das trabalhadoras. a abertura da camisa chegava ao limite dos seios, dando um ar de fantasia de segurança e não um uniforme, como parecia ser a proposta. fui informada por elas que, como parte do protocolo de segurança, não seria possível avançar a partir das barreiras sem ser revistada. era a comemoração do aniversário da cidade e aconteceria dali umas horas o show do Marcos & Belutti na praça principal. se quisesse avançar para chegar em outro lugar era necessário dar uma volta pelo quarteirão, um caminho maior do que o planejado para chegar até o terminal de ônibus. acrescentou-se mais 20 minutos do tempo total da viagem até o centro da cidade grande.

foi assim que nos encontramos. nesta mudança obrigatória de rotas vi uma mulher de aproximadamente quarenta anos em um patinete. em sua mão direita a atenção era dividida entre o guidão do seu meio de transporte e a corrente da coleira do cachorro que a acompanhava. como num balé improvável, ela se equilibrava no patinete, tomava impulso e permanecia por alguns segundo com os dois pés fora do chão, enquanto equalizava o impacto dos movimentos impossíveis de calcular do cão que parecia estar buscando equilíbrio como ela. sem intenção de me conter, sorri para ela mesmo que de longe, tentando dizer que aprovava aquela cena: uma mulher brincando aos quarenta anos na avenida vazia.

uma rua sem carros é fértil, pensei, mesmo que asfaltada. tudo cabe numa rua sem carros. a cena já valeu o caminho até a cidade grande, mas a resposta que ela deu após minha afirmação de que “seria tão bom ser assim mais vezes”, fez valer a ida e a volta: “o duro é se a gente acostuma. depois vamos querer passar com o patinete por cima dos carros”. depois disso pude apenas sinalizar positivamente com a cabeça. pensei no caminho que fazia, em como poderia ser diferente, o trajeto, o preço — ou a ausência dele — , a programação do show da cidade, os uniformes de segurança, a aceitação dos carros como os sujeitos das ruas, a organização da vida nesse sistema que, em sua execução, erra todos os dias pelos princípios lucrativos e genocidas. para exigir o que queremos é necessário habituar o desejo, fazer da rotina uma maneira de concretizá-lo. é querer brincar de patinete durante os engarrafamentos.

daqui da janela consigo ver o exato trecho em que a vi pela única vez, não sei seu nome nem o do cão que a acompanhava. a combinação do domingo com as ruas vazias e esse trecho da avenida me fizeram lembrar deste episódio neste último domingo. a rua é fértil como os acasos: costuma despertar espantos, tragédias e graça.

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Alisson Sales cursou Linguagem Visual com a arquiteta, professora e artista Lahayda Dreger. Cursou História da Arte com o professor e artista Caio Bonifácio. Cursou fotografia no Senac São Paulo, unidade Lapa Scipião. Cursando fotografia na Escuela de Fotografia David Beniluz (Buenos Aires, Argentina). Atualmente trabalha como fotojornalista freelancer em São Paulo.

Renata Barbosa Reis: a partir de relatos extensos de sonhos — já que não poderia fotografá-los — descobri que posso, assim como faço com a fotografia, desenhar o mundo em palavras. Quando esqueço a câmera, faltava filme ou coragem de registrar aqueles/aquilo que cruzam comigo, conto com as palavras para registrar o desconhecido e incendiar as possibilidades.

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