Edição 2 - 03.09.20

Ficções

Revista Tonel

imagem por Emerson Freire

Na antiguidade, os gigantes que habitavam esta terra batiam de porta em porta fazendo uma única pergunta, cuja resposta determinava se o habitante daquela casa teria a cabeça comida ou não: o que só se vê dormindo e só se faz acordado?

O roteirista de 2020 está de parabéns. A distopia que vivemos é digna de ficção científica: epidemia de um vírus desconhecido, mais de 100 mil mortos no Brasil, miliciano enfia caixa de cloroquina na cara de uma ema, ozônio via retal como tratamento de covid-19, esposa/mãe/sogra mata seu marido/filho/genro, nuvem de gafanhotos, notícias parecem fake news e as fake news parecem legítimas. Toda vez que parecia já não haver nenhuma barreira do absurdo a ser superada, fomos surpreendidos por mais uma virada, mais uma total transgressão de expectativas.

Nesta edição da TONEL vamos investigar essas situações extremas. Ao mesmo tempo, entendemos que toda vez que desabafamos em posts nas redes sociais ou na terapia, que falamos do nosso dia àqueles que nos são próximos e que criamos imagens estamos criando ficções. Ao tentarmos descrever e enfrentar o mundo, o que em última instância significa descrever a vida, a experiência pessoal e a interpretação da realidade, criamos representações, e elas, por definição, nunca serão equivalentes ao real. Essas ficções estão no cinema, na literatura, no jornalismo, no feed do Instagram e nas artes visuais.

As representações podem surgir motivadas pela vontade de rodar a engrenagem do apocalipse na direção contrária, se nada der certo ao menos houve partilha de um mundo singular. A encrenca em que estamos metidos hoje se deve muito a uma incapacidade de considerar essas experiências únicas e a diferença que elas impõem à nossa interpretação do mundo.

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