Edição 2 - 16.09.20

FALAPATISTU

Alexandre D'Elboux, Bruna Mayer, Guilherme Beraldo e Lara Machado Fernandes

vamos começar???

eu acho que esse texto tinha que ser sério. Mas não é por ser sério que ele não vai ter graça. Mesmo que você não queira. É meio coisa de texto essa coisa de ser sério, se não fosse sério a gente fazia falando (a escrita tem poder, porque não é todo mundo que escreve. Antes, pela privação do conhecimento técnico. Hoje, pela sensação de inadequação). Mas qual texto é sério? 

 

Você é ingênuo a ponto de acreditar na seriedade de um texto antes de chegar em seu final? Há textos com graça, mas qual graça? Quantas graças existem? Você consegue contar? E se você acha graça em algo, todos devem achar também? Seria o humor subjetivo (sim)? Se sim, então não há (deveria haver) um número limitado de graça, certo? Não é que nem dinheiro, não dá pra contar coisas em graças. 

Um, dois, três, quatro…. Dois mil e quinhentos anos.

Mas o que eu queria que a gente pensasse antes de começar é que esse texto tem um bom humor. Eu to falando de coisas do meu mundo real…. Mesmo sendo sério. Então esse texto deve ter uma despreocupação com a verdade (aquela verdade que a gente sempre busca, que as ciências duras comprovam).

E você deve lê-lo assim: isso não é um mapa do tesouro. A gente não tem que chegar em lugar nenhum. 

E quem de nós pode traçar o limite do bom humor e o engraçado? O que contém uma sagacidade discreta para um é o riso do outro. É que as coisas tem certas posturas solicitadas… É bem difícil estar lendo um texto daqueles textos bem sérios e se permitir dar uma gargalhada. Ainda mais quando é coisa dos “bons e velhos tempos”.

Por quê? Será que lá nada tinha graça? Será que não é pela proximidade e pela intimidade que achamos graça? Aí faz todo sentido não achar graça de coisa séria. Coisa séria se estuda e é preciso de afastamento para estudar (ou coisa séria é aquilo com que estamos emocionalmente envolvidos demais).

Graça é coisa de quem não sabe das coisas, coisa de gente que só vê a superfície das coisas. Mas não é engraçado que a graça possa vir da intimidade, então? A graça tem essa coisa engraçada: acaba lidando com dois extremos, o tempo todo, confortavelmente desconfortável.Acho que temos é medo de intimidade. Ou talvez, medo da intimidade com o erro e com o errado. Buscamos, através de relações distanciadas e austeras, nos aproximar do sério e nos tornarmos íntimos dele, distantemente íntimos. Mas o lugar dessa intimidade não é o conforto, é a reverência.

Não há lugar. Não há lugar.

Trilhamos uma corda bamba imaginária, buscando limites invisíveis entre coisas que são, no final das contas, fictícias. Nada tem graça, a gente é que é engraçado. A gente que vê graça até onde não há nada, até o vazio pode ter graça para uns. Vazio só de sentido? Acho que, no final, meio que tudo é só vazio de sentido. Shunyata. Menos a gente.

Quando a gente se sente vazio, a gente fica mal. Triste. Perdido. E aí não tem graça. Ou tem? Será que aí teria então pelo menos espaço pra graça, já que está tudo tão vazio? Ou a graça vem do não vazio? Fico pensando que achar que graça é superfície, é fala de quem não entende um bom (ou mau) trocadilho.

E só pra retomar um ponto aqui… nada tem graça. Quem põe graça nas coisas é a gente. Porque a graça tá sempre numa relação. Eu acho graça de alguém, aquela moça é muito graciosa e graças a Deus que aquilo lá aconteceu.

Uma coisa imprime graça em algo ou alguém, ou DeuS que decidiu dar graça pras coisas – mas é sempre coisa externa, não substancial. Então é julgamento… minha mãe me ensinou o que é certo e o que é errado e eu tenho certeza que alguém também te ensinou e também ensinou pra ela. O problema dessa história toda é que não é um problema dos ovos e das galinhas (quem veio antes?): antes de ensinar tem que decidir o que ensinar e como ensinar. 

Eu não consigo imaginar que o momento em que se entende algo seja diferente do momento em que uma coisa passa a ser engraçada. Eu não consigo desligar o riso da mais sincera compreensão. Ou Arquimedes não gargalhava em meio aos seus gritos?

Eureka!

Quão desconfortável seria se alguém lesse isso e, concordando com tudo, viesse a concluir nada do que concluímos?
Meio frustrante ler um texto procurando um sentido e no final, achar nada. Mas seria possível achar esse nada? Se posso dar sentido a um trovão, a um pôr do sol, a um sorriso  (ou riso), a essas coisas tão efêmeras e tão neutras, como não poderia dar sentido a um texto, coisa de gente grande, que sabe o que faz.

Tudo que é escrito tende a querer ter sentido, a questão fica em qual lado da ponte damos sentido às coisas, do lado de quem começa ou do lado de quem termina.

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The end

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Alexandre D’Elboux é compositor e produtor, graduando em Música/Composição pela ECA-USP. Se interessa por modos alternativos de composição, processamento de áudio e pelas intersecções dos sons com outras práticas artísticas

Bruna Mayer é mestranda do PPAGAV-USP em Poéticas Visuais/Multimídia, construtora, estuda objetos e instalações interativas-tecnológicas. Se interessa por experiências entre arte, ciência e tecnologia

Guilherme Beraldo é compositor, multi-instrumentista e professor de música, graduando em Licenciatura em Música pela ECA-USP. Se interessa por experiências com improvisação, humor e horizontalidade

Lara Machado Fernandes faz graduação em licenciatura em música na UNESP, estuda técnicas vocais e piano. Tem interesse especial nos desdobramentos na saúde mental dos praticantes dessas técnicas, concertistas e professores.

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