Edição 2 - 04.09.20

Escola de faz-de-conta

Bruno Novaes

imagem por Arquivo pessoal

Vou buscar num barril repousado o que decanta dentro. Do lado interno, misturam-se os tempos. Aquele líquido ganha, aos poucos, musculatura, corpo e resistência. E, quando exalado, inebria as conversas. Sentar-se em volta. Lugar de encontro. Entre um gole e outro, aprender. Nos atravessamos. Nossas vozes dobraram. Descobri que eles também moram do lado de trás. Torcem, pintam, descascam. Recolhem as coisas caídas. Ensinam com elas. Buscam rasgar as cortinas e deixar a luz passar. Encontrar outras pessoas que passeiam por lá. Descobrir os nomes dos próximos. Eu posso ter avistado alguns. 

Aviso aquele menino. Cabelo tigela. Shortinho vermelho. Bota marrom. Vivia no fundo da casa. E do quartinho abria uma janela pro quintal. Chão de cimento quebrado. Das fendas nascia um pouco de mato. Escondiam-se ratos. Dentro da edícula, prateleiras que apareciam no deslizar do velho lençol estampado. Amaciantes, sabão em pó. Compras do mercado. Caixa de ferramentas. Uma lousa, uma mesa e duas carteiras. Brincar de escola. Horário de refazer gestos. Imitar professoras. Copiar lições. Matemática no quadro. Lista de chamada nas gavetas. Preencher, escrever, memorizar. Escola de brincar. Lugar da casa que se imagina. Espaço de fabulação. Com o carrinho de feira, inventava os caminhos para chegar. Estacionava na vaga demarcada com giz no chão. Era hora de dar aula. Repetir, repetir, repetir. Até que ficou diferente. Mudaram-se as lousas. As matérias. A disciplina. O trajeto era outro. Eram outros, os móveis. Não se tinham mais os produtos na dispensa. As ferramentas mudaram. As crianças, agora, assistiam às aulas. Participavam. Por espelho ou por esforço, ditavam o ritmo. O rumo. Faziam junto. Davam novos nomes para as coisas. Imaginavam novas coisas. Redescobriam as coisas como se fosse sempre a primeira vez. Brincar na escola. 

“Escolinha”, instalação de Bruno Novaes exibida na exposição “Aluga-se Triplex” em 2018. Curadoria por Márcio Harum, composta pelos trabalhos “Aula Vaga”, “Caminho Suave” e “Ensino Confessional”. Fotos: Filipe Bernt

Uma risca é traçada. União adulto-criança. Há um fascínio pelo real sem que seja preciso soltar-se da ficção. Uma lacuna se abre para as entrelinhas. Uma luz ilumina os espaços opacos dos corredores. Um som torna presente o canto. As quinas. A memória confunde camadas distintas de tempos. Estudante-professor. O jeito torto de olhar atravessa as paredes e enxerga um currículo oculto. Não-dito. Velado. Inventa-se outros manuais de conduta. Regras de convívio. Novas cartilhas. Reaprender a ler para reensinar camaradas, guris e maricas. Um novo modo de alfabetizar. Um outro jeito para oralizar. Volume a volume, se forma uma coleção de diários de classe. O cotidiano num espaço quadriculado para recontar histórias. Apostilas e mapas reinterpretam o mundo ficcional das imagens. Um corpo de trabalho constrói-se enquanto o corpo se entende docente. Sente-se doce-amargo-doente. Escolhe mostrar as falhas e faíscas nas situações de controle impreciso. Revelar rachaduras e abismos. As incongruências e distâncias entre intenções e gestos. A palavra convertida em caráter e o caráter ficcional da palavra. Queira ou não. Crente ou ateu. As coisas podem ser verdade. E o oposto também é real. Ficção e testemunho de mundo se confundem. Percorre-se um trajeto da autobiografia a um lugar inventado. Do pessoal ao político, do político ao pessoal. Confissões, depoimentos e relatos reforçam o coro. Vozes pueris. Vozes calejadas. Outros juízes da realidade cantam juntos. Desejam conceber o inexistente. Repensar as relações que se dão a partir da escola. Ajudar a olhar e ensinar o que viram. Aquele menino risca o giz no chão e desenha novos caminhos para o carrinho. Tira as botas de couro e a bermuda vermelha. A tigela agora lava o seu rosto e o seu quintal. Recolhe pistas. Traça alguma cartografia. Abre as janelas e encontra os vizinhos. Não deixa de brincar. Joga junto. Constrói o acervo, a documentação e a experiência de uma escola de faz-de-conta que se tenciona entre o potencial criativo e o fingimento em potencial.          

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Bruno Novaes é artista e educador. Apresentou exposições individuais na Temporada de Projetos do Paço das Artes e na Casa do Olhar Luiz Sacilotto. Participou da 33a Bienal de Arte de São Paulo como artista residente na obra de Mark Dion, e no mesmo ano, premiado pela editora Lamparina Luminosa, publicou o livro Alugo para rapazes. Vem realizando práticas artísticas e educativas em diferentes instituições culturais e, em 2020 foi selecionado para o Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo.

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