Edição 2 - 28.09.20

Entrevista: LINK MUSEU

Emerson Freire

“MUSEU, um grupo de pixação da zona leste de São Paulo, foi criado entre 1989 e 1990 na COHAB Juscelino e faz parte das grifes de pixação Os mais imundos, Dead Kennedy, União racial e Os mau criados, e atualmente tem três membros.

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Eu me chamo Diego, mas no pixo MUSEU assino Link. Morador de Guaianases, tenho 33 anos e sou o cabeça do pixo atualmente. Entrei em 2001, fiz rolê pelas quatros zonas de São Paulo, revolucionei meu pixo ao longo dos anos fazendo grapixo e grafite. Participei e organizei de vários encontros de grafite e desde 2007 e no ano de 2001 comecei frequentar vários point de pixação na cidade. Atualmente firmei uma parceria de pintura com o artista plástico Rodrigo Andrade, que conheci através do projeto ali*, possibilitando assim a intervenção entre arte urbana e artes plásticas. Pintamos telas e muros na região da Cidade Tiradentes e participamos da galeria Reocupa na Ocupação 9 de Julho, conseguimos um espaço no Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes e fizemos um ateliê de arte chamado Um Bom Lugar.

Devido à pandemia as atividades estão moderadas, sendo feitas online. Eu continuo a fazer minhas artes pela cidade de uma forma reduzida, mas sem perder o foco e o amor à arte, busco interagir com o espaço urbano cotidianamente através do pixo do grafite e de saraus. Devido ao amor às tintas me empenhei e me aperfeiçoei, me tornando pintor também.”

Link

* ali:leste, arte livre itinerante.

TONEL: Por que o nome MUSEU?

LINK: MUSEU foi criado no ano de 1989, 1990, na COHAB Juscelino, no extremo da Zona Leste de São Paulo. Até então foi Os mais imundos que era um grupo de pixação e de roqueiro da galera que curtia um som sujeira, um som sujo. E aí, com o tempo ficou muita gente fazendo Os mais imundos e aí começamos a nos organizar melhor e começou a surgir nomes. E foi onde surgiu o MUSEU também, com a intenção de ficar como coisa antiga.

Como são essas ações na região da Cidade Tiradentes que você citou no seu texto?

A gente faz ações na Cidade Tiradentes há mais de dez anos através do coletivo Luau dos Loucos que nós tínhamos. E diversos tipos: desde ações sociais até ações culturais, eventos de grafite, arrecadação de roupas e brinquedos, doações… Junto com o pessoal do ali:leste a gente conseguiu o espaço pra fazer o ateliê de arte no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes. Lá participo de várias pinturas, grafites, pixações e também pintei algumas telas no ateliê em parceria com o Instituto do Gueto e ali:leste. 

Com a pandemia como estão sendo as ações online? Como isso alterou seu método de trabalho?

Estamos tendo aulas online no projeto de poesia visual com a artista plástica Lucia Koch. Também temos grupos no Whatsapp, além do Instagram e do Facebook, onde a gente se comunica. E por essas comunicações estamos promovendo alguns encontros online e algum ou outro físico, porém, respeitando as normas de distanciamento e segurança. Isso alterou meu trabalho porque tive que reduzir [o que vinha fazendo]: a gente estava muito empenhado com ateliê, com esse universo de pintura que eu estava conhecendo, estava muito ligado com Rodrigo Andrade e indo ao ateliê dele tudo e tal, várias vezes. Porém, agora devido à pandemia, tive que reduzir, mas continuo ainda pintando em casa, fazendo alguns trabalhos na rua, pixações na madrugada, grafite com alguns amigos, mas de uma forma bem mais reduzida do que antes. 

Como foi fazer a parceria com o Rodrigo Andrade?

A gente organiza aqui na Cidade Tiradentes, divisa com Itaquera e Guaianases, um movimento chamado Luau dos Loucos há mais de 10 anos. Já formamos coletivos e também nos formamos, mas hoje as ações estão paradas devido à pandemia. Junto com o Luau também rola o Sarau às dez horas da noite. Através da Sara Ramo, que é artista plástica, e um amigo nosso, Tom Guerra, que trouxe eles [ali:leste] pra conhecer Cidade Tiradentes e alguns artistas. Eles vieram até o Luau e se encantaram com a galera, com a forma como era feito. E despertou o interesse do Rodrigo quando ele soube que eu era pixador, viu minhas pixações e frequentou o museu aqui na região. Passaram alguns dias, ele veio até aqui [Cidade Tiradentes] e no Luau e começamos a conversar. E eu super empolgado com a horta urbana que eu e meus amigos temos. Ele sugeriu fazer uma parceria de pintura, mas achei que era pintura do tipo de coisinha básica, aí ele me apresentou o universo das tintas óleo, das artes plásticas e dos artistas.

Como você relaciona a sua pintura com o pixo, você faz uma divisão?

Eu não chego a fazer essa divisão porque eu comecei a fazer pintura, com tinta óleo, através da pixação, na parceria com o Rodrigo Andrade. Ele com as formas ornamentais dele e eu com a minha pixação. Letreiro reto e formas verticais, horizontais, formas geométricas, no caso. Mas eu percebi que poderia fazer algo além da pixação e comecei a treinar algumas paisagens e desenhos, embora não seja muito bom de desenho. E não faço divisão: eu simplesmente pinto e uso formas diferentes. A pixação eu faço muito com a técnica de tinta spray, já a pintura eu gosto bastante de usar óleo e acrílica, mas também já pintei com látex. 

“Nunca imaginei o meu pixo na galeria ou eu vender uma pixação.”

Como você enxerga esse mercado de arte tradicional de galeria, de feiras?

A questão de enxergar um mercado de arte eu estou meio que por fora, porque eu comecei a produzir recentemente e comecei a conhecer agora esse lance de arte comercial. Porque até então era mais o lance de arte urbana mesmo, na cidade, como uma forma de hobby, não tanto como uma arte a ser vendida. Nunca imaginei o meu pixo na galeria ou eu vender uma pixação. Nunca me imaginei pintando ou fazendo paisagem, eu não conhecia tinta óleo, não havia esse contato. Então, esse contato é recente. Conheci a Galeria Millan, na exposição do Rodrigo e chegou a pandemia que impediu de dar continuidade às coisas na forma física, pessoalmente. Porém, a gente está mantendo os contatos virtuais e eu estou conhecendo vários artistas e galerias através do Instagram. Eu venho acompanhando o serviço da galera, mas não tenho muita noção a respeito de como que funciona esse negócio de mercado, feiras. Creio que com um tempo as ideias vão amadurecendo também e conhecimento vem chegando.

Você fala que revolucionou seu pixo ao longo do tempo, fazendo pixo e grafite ao mesmo tempo, isso não era comum com outros pixadores/grafiteiros? Ou você fazia uma coisa ou outra? Tinha essa briga?

Eu comecei a fazer pixação no ano de 1999, 2000. Entrei no grupo que faço parte hoje em dia, o MUSEU, eu sou o dono [do grupo] também atualmente e a pixação era o que tava mais perto, porque eu já rabiscava o banheiro da escola, já riscava a escola fazendo umas tag de canetão, giz de cera. Umas pixações que desde pequeno eu já era apaixonado. Antes mesmo de saber ler e escrever, eu já observava as letras que surgiam de um dia pro outro nas paredes, as cores me chamavam muito atenção. Porém, eu não sabia ler e comecei a aprender a ler, escrever e a assimilar as formas que eu via nas paredes com as letras que eu estudava na escola. E aí a pixação foi o primeiro contato, mas com ela também veio a repressão e foi aí que surgiu o interesse por grafite. Eu fui conhecer o grafite: o Bomb, 3D, Wildstyle, os personagens e acabei me identificando com o Bomb que é uma forma bem simples e fácil, mais utilizada pra fazer o vandalismo mesmo. Geralmente, é mais o lance do grafiteiro, eles não pixam. Tem pixador que ainda faz um grafite, um grapixo. Mas geralmente quem é grafiteiro já foi pixador ou veio de outras artes. Mas assim, não tinha briga, era mais questão de se identificar mesmo, entendeu? E aí vem conhecimento de um, vem interesse por outro, a gente vai se aperfeiçoando e desenvolvendo essa linguagem. 

A gente não entende muito da cena do pixo, então queremos saber o que são as grifes, são os grupos de mais destaque?

As grifes, poderia até dizer que de certa forma, são códigos ou cifras, símbolos que representam algum nome e geralmente a grife faz parte do pixo. Então, por exemplo, o pixo MUSEU e a grife que eu faço é Os mais imundos, DK [Dead Kennedy], Os mau criados, União racial e União agressão. A grife não é uma somente, ela é uma grife porém vários pixos fazem a mesma grife. No caso, os mais imundos, que é uma das mais antigas na cidade de São Paulo, na COHAB Juscelino, a princípio era pixação mas tomou uma proporção tão grande, com tanto membro, que eles resolveram fazer do pixo a grife. E acabou se difundindo nos quatro cantos da cidade e várias galera hoje em dia faz os mais imundos, porém, cada um com a sua pixação. Fazendo a grife que acaba se tornando um lance de união entre várias galeras da pixação. As que são de mais destaque, tem várias, mas geralmente as mais antigas que tem mais destaque pelo fato de estar há um tempo sendo feita na cidade e ter tido uma expansão bem `maior. Mas tem muitas grifes também que surgem enfrentadas por outras ou admiradores novos que entram pras grifes antigas e têm destaque também. 

Como os points de pixação são escolhidos? É por altura, pelo quanto o lugar é movimentado? E esses points vão mudando, né?

Bom, primeiro point de pixação que eu fui foi em meados de 2000, 2001, que era no Pólo Cultural da Vergueiro. Já faz tempo porém hoje não mais. Antes desse tinha o point do Anhangabaú, em 1997 até 1998, que também deixou de existir. Hoje em dia o point central é na região da Dom José de Barros, próximo à Galeria [do Rock] mas também tem um point aqui na região de Guaianases, tem um point em Osasco, Guarulhos e já teve em Mogi. Então tem vários points pela cidade, mas o que é sempre mais movimentado é o do centro. E muda de lugar de acordo com o que vai ficando sujo na ideia. Na Dom José de Barros já tentaram mudar, já acabou, voltou pro Anhangabaú, mas não teve sucesso e acabou voltando pra lá. Eu, no entanto, gosto mais de ir no ponto da região aqui de Guaianases, que é próximo, e no do centro pelo fato de encontrar amigos de todas as quebradas de São Paulo, isso que é o legal. O point de pixação é um lugar de encontro, onde a gente se encontra, bebe, troca ideia, dá risada, assina folha um pro outro pra deixar de lembrança, marca os rolê, fala das festas, divulga, forma as amizades e faz os rolês. Tem as vezes também que sai do point e já vai riscar algum lugar, alguma quebrada. Essa é a intenção do point, é se reunir, se conhecer, fortalecer os vínculos de amizade e desfrutar. Nada mais que isso, é essa que é a ideia. Fortalecer mesmo a cena, a amizade e o companheirismo.

Quais os rolês de encontro de grafite que você organizou foram mais legais? Como esses encontros funcionam?

A gente já teve muitos encontros de grafite, mas os que mais se destacam são mesmo os da COHAB 13, Fazenda do Carmo, mais conhecida como COHAB 13 que começou no ano de 2007. Quando vigorou a Lei Cidade Limpa, então pela gestão do Kassab, proibindo anúncios, desenhos, propagandas nas paredes e junto com isso veio a repressão do jato cinza que veio na nossa comunidade e que pintou os muros que era um misturador de pixação, grafite, tag, tudo junto e acabou ficando os muros cinzas. Eu e mais uns amigos aqui da comunidade que admiramos e praticamos arte, nos unimos, fizemos reunião com moradores e síndicos, conseguimos autorização, conseguimos material também através de rifas, os restos de tintas dos próprios moradores e fizemos a mão de obra. Chamamos vários amigos de toda cidade e até outros estados e países e foi assim que começou a acontecer os eventos de grafite na COHAB 13. Desde 2007 até hoje, já tivemos vários eventos, a gente faz um por ano ou dois, conforme a disponibilidade de espaço e material e organização. Mas o primeiro foi um dos mais legal porque foi algo inovador pra nossa comunidade a oportunidade de pessoas terem a experiência, criança que nunca pegou um pincel, um rolo pra pintar, nunca soube utilizar um spray, como funcionava um spray e as técnicas pra poder afinar, alargar os traços e tal. Então, a gente trouxe esse conhecimento pra nossa região e também quebramos o preconceito porque muitos olhavam com preconceito o que era feito. Hoje em dia todo mundo entende como arte, me admira e me apoia.

 

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