Edição 3 - 04.06.21

Ensaio sobre a luz

Terenah

Todas as vezes que começo a escrever busco alguma desculpa, começo com “não sei exatamente como começar” ou algo semelhante, como agora. Talvez pelos poucos momentos de ócio, tenho tentado ser mais objetiva. Nas últimas semanas, infelizmente, não tenho tido tempo para desenhar. Aqui já posso introduzir brevemente que tudo para mim é desenho.

Outro dia me dei conta pela primeira vez em palavras, como se não fosse óbvio, que existem pessoas que não desenham e fiquei muito surpresa! Desde então tenho me perguntado como elas existem e como operam seus raciocínios. E até obtenho respostas, mas elas não satisfazem. Por que não? Como não? E isso não me cabe de forma nenhuma, se tudo é desenho como não desenham?

Em meio à pandemia e à alta demanda de produtividade, ocorrem alguns movimentos de adaptação na relação com o desenho e o desenhar. Crescem desejos. Desejos de projetos, desejos de pessoas, desejo de sensações que o mundo pode nos despertar. Esses desejos guiam o olhar, mesmo quando não percebidos ou ainda não assimilados. Eu tenho vontade de ver o mundo e de ver as pessoas e acabo procurando por isso em lugares muitas vezes não identificados ou não cabíveis de um significado único, pois não há palavra que os contenham. Talvez se procurarmos em todas as línguas do mundo consigamos encontrar palavras que abarquem em si alguns deles.

Geralmente quando repousamos sob a luz do sol de olhos fechados podemos ver uma série de imagens que variam de acordo com a incidência da luz. O sol forte forma um plano avermelhado no qual podem ser geradas estampas de acordo com a intensidade que pressionamos nossas pálpebras, ou quando com os olhos levemente abertos vislumbramos a formação de pequenos padrões coloridos de arco-íris e brilho. São desenhos do mundo acessíveis a todos que enxergam (escrevendo me deparei com o fato de que não sei como funcionam esses fenômenos físicos para quem possui deficiência visual, então por enquanto deixarei essa dúvida pairando). Fiz o trabalho acima no meio de 2020 e não tem nome. Desenhei-o com o que tinha em casa: lápis de cor, tinta guache, aquarela, giz pastel oleoso, giz de cera, canetinha, marca texto, grafite e maquiagem sobre folhas de canson A4 unidas por fita crepe. No canto direito tentei reproduzir em laranja, vermelho e amarelo neon uma dessas composições abstratas feitas pela luz do sol.

Outra sorte de desejos tem a ver com as imagens que constroem meu imaginário ou acervo pessoal. Lendo a página 274 do texto “Tendo uma experiência” de John Dewey, rememorei duas situações deveras momentâneas que visualizo com muita clareza, desconectadas de antes e depois, mas às quais sinto para além da vista.

A experiência, em seu sentido vital, define-se por aquelas situações e episódios que chamamos espontaneamente de “experiências reais”; por aquelas coisas das quais dizemos, quando as lembramos, “aquela foi uma experiência”. Pode ter sido algo de enorme importância […] Ou pode ter sido algo relativamente insignificante – e que, talvez, por causa mesmo de sua insignificância, ilustra melhor o que é ser uma experiência.

 

John Dewey, “Tendo uma experiência” (capítulo do livro Arte como Experiência). Os pensadores. São Paulo: Editora Abril, 1974, p 247–263.

A primeira: estava eu no carro com meu avô viajando pela estrada, não sei de onde para onde e nem quem mais estava lá além de nós. Ele dirigindo e eu sentada no banco de trás olhando a janela do porta malas que listrava toda a paisagem atrás de si, era tardinha, árvores ladeavam o caminho e por entre suas folhas farfalhantes atravessava a luz.

A segunda: eu havia passado a noite em claro lendo histórias. Não tenho certeza, mas tenho a impressão de que tinha acabado de acordar de um cochilo breve, pois ainda era manhã. Deitada em minha cama observava a luz suave que passava pelas vidraças coloridas da janela refletindo na parede do quarto.

Ao rememorá-las e, por conseguinte, reconstruí-las, me atravessa a sensação vivida no momento em que ocorreram, como se a memória as transportasse para o presente. E desse modo as busco. A forma das lembranças é relevante nesse sentido, pois estão compostas em minha cabeça imagens quase fotográficas, exceto por uma leve dinâmica. O balanço estático do automóvel ou o tremeluzir da luz que entrava por vidraças coloridas, quase como uma brisa leve, que não poderia entrar pela janela fechada.

Este não era para ser um texto sobre fotografia, mas acho que os caminhos me trouxeram até aqui. Não achei que a mensagem no corpo do email de convite para escrever na Tonel me influenciaria tanto a abordar este tema que já vinha me ocorrendo, ao me pôr em contato com o assunto através da escrita. Percebi então que como o email direcionou minha escrita, esses eventos direcionam o meu olhar, e em todos os cantos os procuro em virtude de sentir novamente a calmaria associada às imagens que descrevi. Às vezes encontro similitudes ou alusões.

Deixei muitas pontas soltas, porque este ensaio diz de coisas que eu mesma venho tentando compreender e até então é a luz o único elemento que as une, sem muito propósito, mais como uma referência ou algo que permite enxergar tudo o que pode vir a ser desenho.

 

• • •

Terenah é artista visual graduanda em licenciatura. Atualmente desenvolve pesquisa em fotografia relacionando retratos de entes queridos e as paisagens de seus respectivos cenários pessoais. Trabalha com o que concerne ao campo do desenho em sua pluralidade, estudando desde a animação e o desenho digital à confecção de zines.

DEWEY, John. Tendo uma experiência (capítulo do livro ”Arte como Experiência”). In: Os pensadores. São Paulo: Editora Abril, 1974, p 247–263.

Você pode gostar de...