Edição 1 - 25.07.20

Encarou chutou pra rede é gol: entre a pintura de Francisco Rebolo e o time do povo

Marina da Silva

Ilustração: Bruno Alves

No imaginário da cultura brasileira rondam símbolos e imagens que são amplamente reconhecíveis e que sua importância não se resume apenas à visualidade em si, mas também a uma construção de um contexto histórico e social. Há um caso como esse que, gostando ou não gostando, todo brasileiro já se relacionou de algum modo: pás e âncora vermelhas, a bandeira do estado de São Paulo dentro da boia naútica onde se lê S. C. Corinthians Paulista 1910. Um emblema tão singular que se diferencia da maioria dos outros times brasileiros. Esse é o time do povo, é o Coringão.

Fundado na Rua dos Italianos, no bairro do Bom Retiro em São Paulo, a trajetória do Corinthians se aproxima com a de grande parte da população brasileira que não pertence à elite. Aos trancos e barrancos vai seguindo em frente. Além disso, seus torcedores e jogadores muitas vezes estiveram próximos das lutas populares. Por exemplo, a Democracia Corinthiana, um movimento pautado pela democracia dentro e principalmente fora de campo durante o período da ditadura militar brasileira (1964-1985). 

Após meses de paralisação devido ao covid-19, o campeonato paulista foi retomado com um clássico Corinthians x Palmeiras no mesmo dia em que o Brasil bateu o recorde de casos diários de transmissão do vírus. Embora nos meses anteriores não houvesse grandes notícias à respeito do dentro de campo, o emblema do Corinthians voltou a figurar os noticiários, com pautas relacionadas à atual conjuntura brasileira. 

Como a própria trajetória do Corinthians é fundamentada em questões de caráter social e político, nesse momento isso não seria diferente, logo, não foi de nenhum espanto que neste momento esses torcedores retomaram as ruas e levantaram a bandeira contra a necropolítica conceito criado pelo historiador e filósofo camaronês Achille Mbembe, que descreve a escolha de quem deve viver e morrer como política de Estado.

Uma das torcidas organizadas do Corinthians, a Gaviões da Fiel, se somou às vozes que foram às ruas gritar contra o racismo e o fascismo reacendendo o debate sobre a disputa do espaço público no contexto do isolamento social. 

É notável, ao longo da trajetória desses artistas, como essas duas esferas do campo do trabalho se misturam e se apresentam ora como aspecto formal, ora como tema.

Paralela à história do clube, desenvolve-se a pintura paulistana que possuía traços acadêmicos, mas também uma liberdade e exploração no campo pictórico. O Grupo Santa Helena foi fundado em meados dos anos 1930 e estabelecido em um edifício de mesmo nome na Praça da Sé, centro de São Paulo. Era formado por artistas que também tinham uma profissão para além da pintura. No grupo havia uma diversidade de trabalhadores: açougueiro, mecânico, decorador de paredes e fachadas, e jogador de futebol. Esses são Fulvio Pennacchi, Alfredo Rizzotti, Alfredo Volpi e Francisco Rebolo, respectivamente.

É notável, ao longo da trajetória desses artistas, como essas duas esferas do campo do trabalho se misturam e se apresentam ora como aspecto formal, ora como tema. Em Alfredo Volpi, notamos o mesmo raciocínio tanto no preparo de suas telas, como nas paredes, de mesmo modo que as fachadas foram seu objeto de interesse ao longo do anos. Já Francisco Rebolo transita entre estudos de uma paisagem que vai adquirindo um olhar geometrizado e uma paleta em tons terrosos rebaixados, onde também valoriza a relação de massas e volumes de tinta que rebatem as paredes e construções. De mesmo modo, esse rebatimento de formas também acontece em pinturas que tematizam partidas e jogadores de futebol. 

Rebolo não foi somente um artista de destaque no contexto da arte moderna brasileira: foi também jogador de times como Ypiranga, São Bento e… Corinthians. Foi campeão do centenário pelo Timão em 1922 e atuou como jogador profissional até 1934, finalizando sua carreira no Ypiranga. O ponto de encontro entre esses dois “Rebolos”, o do campo de futebol e o do campo pictórico, se dá na imagem que não é só gol e nem só pintura: o emblema do Corinthians que hoje conhecemos foi feito por Rebolo no início da década de 1930. 

Gravura de Pedro Seman, 1998
Gravura de Pedro Seman, 1998

Também é um ponto de destaque em sua trajetória a fundação do Sindicato Nacional dos Artistas Plásticos, junto de outros integrantes do Santa Helena. Fundado em 1937, mesmo ano do início do Estado Novo (1937 – 1946), esse sindicato promovia grandes salões abertos, sem inscrição prévia, o que abarcou grande diversidades de trabalhos e artistas. 

Destaco que esse raciocínio aqui exposto não romantiza a origem dos membros desse grupo e não alude a um certo “didatismo”, muito pelo contrário: eles tinham contato com o estudo formal de artes plásticas, e também organizavam caravanas às regiões periféricas para o estudo da pintura ao ar livre. Havia um trânsito e diversidade de referências. É entre o acadêmico e o popular. Ressalto também a questão de classe e o modo de produção artística desse grupo que se difere de grandes nomes da pintura brasileira, como Tarsila do Amaral, proveniente de uma tradicional família quatrocentona. Os Santa Helena e os Modernistas, no entanto, são postos dentro de um grande bolsão da arte moderna brasileira.

Nesses quase 100 anos de diferença entre os primeiros trabalhos de Francisco Rebolo e os dias de hoje, ainda notamos disparidades na produção e no sistema da arte brasileira. Ampliando o recorte para além da produção e pensando em trabalhadores do setor da arte e cultura, notamos que ao longo dos últimos anos cortes e reduções nos orçamentos das instituições culturais afetaram diretamente esse setor. Isso acarretou na diminuição de exposições e consequentemente a também diminuição do quadro de funcionários. Sobretudo nesse momento de caos epidemiológico ao qual o Brasil está sucumbido, muitos trabalhadores tiveram suas atividades suspensas ou até mesmo foram demitidos, o que só corrobora a precarização desse setor. É notável a grande massa de trabalhadores PJ, ou seja, que não possuem vínculos empregatícios com a instituição e operam como prestadores de serviço ao invés de funcionários. Nada mais do que um reflexo da reforma trabalhista aprovada em 2017.

Então qual seria a diferença entre 90 minutos de bola rolando e 90 minutos de uma vernissage?

A trajetória de Francisco Rebolo evidencia o trânsito por entre esses espaços. Há quem venha com discursos rasos que o futebol seja o local de alienação do povo. Ora, e será que tal discurso também não poderia, ainda que de maneira igualmente rasa, se pôr em relação à esfera da arte? Quando o único olhar é para dentro de seu próprio circuito, recheado de uma manutenção de privilégios e discursos já desgastados, isso não seria uma maneira de alienação perante todo um mundo em ebulição? Então qual seria a diferença entre 90 minutos de bola rolando e 90 minutos de uma vernissage? 

No atual contexto da arte brasileira, são notáveis conflitos de interesses e, por que não dizer, de luta de classes que se estendem para além de tematizações no campo pictórico. Há artistas que denunciam esse sistema hegemônico e exploram outras possibilidades. No futebol esse conflito também é evidente, operando dentro e fora de campo, e muitas vezes contradizem as arquibancadas e torcidas de seus próprios times. Como por exemplo, ver que quem sobe no pódio e leva medalha na final do campeonato é o mesmo que quer proibir as torcidas organizadas de entrar nos estádios, ou ainda de maneira mais cínica e menos surpreendente ver presidente vestindo a camisa do time que lhe convém.

Imagem: PETER LEONE/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: PETER LEONE/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Via Twitter @ecolombari
Via Twitter @ecolombari

As trajetórias de artistas que provém das periferias da arte ressaltam as contradições intrínsecas da arte e cultura brasileira, assim como a disputa de uma narrativa. Francisco Rebolo, ao passo que ocupa um lugar memorável na arte moderna brasileira, tem como seu trabalho (talvez) mais reconhecido um caráter descolado de sua figura e quase anônimo de tão embrenhado na cultura popular. 

O emaranhado de convergências entre essas diferentes esferas existe, mesmo que não seja notado logo de cara. São movidos por contradições e conflitos: o futebol, a arte e a política são campos de batalha. 

 

Referências

Site oficial do Sindicato nacional de artistas plásticos

Grupo Santa helena, Enciclopédia Itaú Cultural

“Necropolítica”, de Achille Mbembe

 

 

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