Edição 1 - 30.06.20

Em defesa dos saques

por Vicky Osterweil tradução Cris Ambrósio

imagem por Cris Ambrósio

O texto a seguir foi escrito no contexto da onda de protestos que tomaram a cidade de Ferguson, nos Estados Unidos, em resposta ao assassinato de Michael Brown Jr., um jovem negro de 18 anos desarmado e sem antecedentes criminais morto pela polícia em agosto de 2014. 

A exemplo das lojas saqueadas e incendiadas durante os protestos de Ferguson, das manifestações desencadeadas pelo assassinato de George Floyd em maio de 2020 que provocaram uma série de escrachos contra monumentos racistas e imperialistas pelo mundo, e das experiências que temos no Brasil, a resposta automática das mídias de massa e de grande parte da opinião pública é deslegitimar as pautas das manifestações e mesmo ignorá-las completamente, por motivos que abrangem desde a defesa do trânsito de carros (uma interpretação cômica do direito de ir e vir), até as óbvias acusações de vandalismo e violência – dos manifestantes, jamais da polícia, e menos ainda do valor simbólico de tais ações. A insistência nesse tipo de argumento contamina também o discurso de apoiadores dos movimentos e reivindicações, que falam então em “infiltrados”. 

O artigo de Vicky Osterweil publicado na revista online The New Inquiry que traduzimos aqui reflete sobre a gangorra de ativistas, mídia e forças policiais, muito familiar para nós, e como ela se relaciona com a origem colonial da propriedade privada e das estruturas sociais dos EUA, que em larga medida, também lembram muito as nossas. 

 

Em defesa dos saques

por Vicky Osterweil, publicado originalmente em 21 de Agosto de 2014, The New Inquiry

Enquanto os protestos em Ferguson se mantinham firmes uma semana depois do assassinato de Michael Brown Jr. por um policial, certas vozes no Twitter e nas mídias de esquerda que estavam em sua maioria a favor dos protestos, passaram a criticar com irritação os saqueadores. Alguns afirmaram que os responsáveis pelos saques e pela destruição de propriedade eram manifestantes brancos, e outros se inquietavam com o surgimento de estereótipos e da representação negativa na mídia. Também parecia que havia vários manifestantes (se não muitos) nas ruas de Ferguson agindo para prevenir os saques, na medida em que eles aconteciam. Embora eu discorde da tática, eu entendo que ela foi posta em prática em favor da causa, e quero reconhecer todas as ações corajosas e inspiradoras que se alastraram nas últimas semanas.

Alguns políticos de Ferguson, como o vereador Antonio French e membros do Novo Partido dos Panteras Negras*, repudiam os saques com a intenção de manter seus postos de liderança e enfraquecer a rejeição aos protestos, mas um número ainda maior o faz por comprometimento com o avanço de uma posição política e ética vantajosa. É por solidariedade com esse segundo grupo – junto daqueles que saqueiam – e contra os políticos e os apaziguadores de toda parte que eu ofereço esta crítica, como uma forma de fortalecer a discussão entre aqueles que estão engajados na luta contra a opressão em Ferguson e em todos os lugares em que a polícia violentamente perpetua a supremacia branca e o colonialismo. Em outras palavras, em qualquer lugar dos Estados Unidos.

* Apesar do nome, o NBPP fundado em 1989 não é um sucessor oficial do Partido dos Panteras Negras original (ativo entre 1966 e 1982) (NdT ).

• • •

A imprensa dominante é ela própria ferramenta da supremacia branca: ela repete o que a polícia fala praticamente palavra por palavra e sem nenhuma crítica, mesmo quando a narrativa policial é alterada nove vezes, como aconteceu até agora com o assassinato de Brown. A imprensa usa frases como “tiroteio com envolvimento policial” e usa a voz passiva quando um homem negro é baleado por um justiceiro branco ou um policial (“tiros foram disparados”). Jornalistas afirmam que “é preciso ouvir os dois lados” para depois privilegiar as ofuscantes declarações do estado em detrimento às vozes nítidas e aos depoimentos de uma comunidade inteira que testemunhou o assassinato de um adolescente a sangue frio pela polícia. A imprensa é mais respeitosa [todos os links são da matéria original] com serial killers e assassinos em massa brancos do que com vítimas negras de assassinato.

E mesmo assim, muitas das pessoas que sempre fizeram essa crítica podem se enroscar na percepção que a imprensa constrói de manifestantes. Com bons motivos, eles desejam corrigir a asserção midiática de que todos os manifestantes são saqueadores: pessoas negras saqueando uma loja é uma das imagens mais racialmente carregadas do imaginário branco. Quando manifestantes dizem que “nem todos somos saqueadores, inclusive, a maioria deles nem faz parte da manifestação!” ou algo parecido, eles estão tentando combater um histórico terrivelmente racista na cultura estadunidense, no qual pessoas negras são sempre retratadas como ladrões: exatamente a mesma imagem que a polícia de Ferguson tentou evocar para assassinar a reputação de Michael Brown e mais tarde justificar sua morte. É uma posição completamente compreensível.

No entanto, na tentativa de corrigir essa imagem midiática – fazendo uma divisão radical entre Manifestantes bonzinhos e Vândalos malvados, ou entre praticantes da não-violência ética e saqueadores supostamente violentos – a narrativa da juventude negra criminosa é perpetuada. Aqui são delineadas certos tipos de juventude negra – aqueles que saqueiam e aqueles que se manifestam. O efeito desse discurso é a solidificação de uma categoria permanente de criminalidade sobre as pessoas negras que teriam supostamente cometido crime dentro do contexto de uma manifestação. Isso reproduz ideologias racistas e supremacistas (inclusive a tática dividir-e-conquistar), tornando alguns inelegíveis à solidariedade e proteção, marcando-os, sutilmente, como alvos legítimos da violência policial. Ultimamente, a polícia, cujo racismo visível ao público é muito mais podado, ainda que não menos virulento, defende que “agitadores externos” começam os distúrbios e saques. Enquanto isso, a polícia constantemente elogia manifestantes “não-violentos”, e afirma que são esses manifestantes que ela quer proteger.

Na tentativa de corrigir a narrativa midiática supremacista branca, podemos ser levados a reproduzir táticas policiais de isolar os indivíduos que atacam a propriedade em manifestações. Apesar do fato de que se não fosse por esses indivíduos, a imprensa talvez não desse atenção alguma. Se manifestantes não tivessem saqueado e colocado em chamas aquele mercado QuikTrip no segundo dia de protestos, Ferguson estaria no centro das atenções do mundo hoje? É impossível saber, mas levando em consideração todos os protestos não-violentos contra os assassinatos perpetrados pela polícia em todo o país que não são nem notificados, a resposta parece ser “não”. Os saques a uma loja Duane Reade depois de uma vigília foram os responsáveis pela disseminação da notícia do assassinato de Kimani Gray na cidade de Nova Iorque. Os procedimentos torpes da mídia orientam eles próprios que tumultos e saques são mais efetivos para atrair atenção para uma causa. 

Mas é claro, o objetivo não é apenas atrair a atenção da mídia hegemônica. Também não é um tipo específico de atenção da imprensa: não importa o quão não-violenta e bem comportada seja a manifestação, a mídia hegemônica sempre vai dar respaldo para os argumentos da polícia e a pauta supremacista branca. O objetivo é a justiça. Nesse ponto, é necessário retomar rapidamente o legado de vitórias da justiça social nos EUA: ou seja, a não-violência e o movimento dos direitos civis. E isso significa corrigir uma imprensa e uma narrativa histórica mais universal e totalizante, sobre o movimento dos direitos civis: que ele era não-violento, que conquistou vitórias significativas porque era não-violento, e que foi responsável por superar totalmente injustiças raciais.

Nos 400 anos da barbárie, do supremacismo branco, do colonialismo e do genocídio que constroem a história do EUA, o movimento dos direitos civis se destaca como um momento luminoso, belo e infelizmente breve de esperança e luta. Ainda vivemos na sombra dos seus líderes, teorias, e imagens que emergem daqueles anos, e qualquer luta estadunidense que ignore o trabalho (tanto teórico como organizacional) construído naquelas décadas, o faz perigosamente. Contudo, por que é martelado em nossas cabeças, desde o ensino fundamental em diante, em todos os ambientes, por presidentes, professores e policiais na mesma medida, que o movimento de direitos civis foi vitorioso porque ele foi não-violento? Sem dúvida, a desconfiança diante de qualquer narrativa com a qual o establishment** branco concorda na sua totalidade é para nós da máxima importância.

O movimento dos direitos civis não foi puramente não-violento. Alguns dos seus mais corajosos, mais inspiradores ativistas, trabalhavam dentro das diretrizes da não-violência disciplinada. Vários dos seus mais corajosos e inspiradores ativistas, não praticavam a não-violência. Foram meses de campanhas amplamente não-violenta em Birmingham, Alabama, para forçar o presidente John F. Kennedy a discursar em favor do ato dos direitos civis em 1963. Mas um mês antes de fazê-lo, o movimento em Birmingham foi definitivamente não-não-violento:

(Eu uso o termo um tanto desajeitado “não-não-violento” intencionalmente. Para alguns ideólogos da não-violência, quebrar janelas, incendiar latas de lixo ou até mesmo construir barricadas nas ruas é “violência”. Uma vez eu assisti a um grupo de jovens negros cantando “Ei polícia, vai tomar no cu” serem acusados aos gritos por um manifestante branco de estarem sendo “violentos”. Ainda que existam outras formas de violência além dos literais golpes físicos contra o corpo humano, eu não acredito ser produtiva uma concepção de violência que coloca na mesma chave jogar lixo na rua e o assassinato de Michael Brown. De maneira frustrante, no contexto de protestos, situações de violência tendem a ser definidas como “qualquer coisa que a polícia ou que o praticante da não-violência diga que é”. Dizer que quebrar uma janela é “violento” reproduz essa definição inútil e instala toda a argumentação dentro da estrutura retórica da ideologia da não-violência. Não-não-violento, assim, se torna um termo mais útil.)

manifestantes começaram a revidar contra a polícia e contra o Comissário de segurança pública do Alabama Eugene “Bull” Conner, jogando pedras e quebrando janelas. O Procurador geral Robert Kennedy, com medo de que a atmosfera cada vez mais revoltada em Birmingham se espalhasse pelo Alabama e pelo Sul como um todo, convenceu seu irmão John a fazer o famoso discurso e começar a avançar com a legislação pelos direitos civis.

Isso teria sido impossível sem os meses de ativismo não-violento incansável que antecederam essa conquista. Mas foi também a crescente ameaça de uma insurgência que pressionou JFK. Ambos Malcolm X e Martin Luther King tinham guarda-costas armados. Ao longo da era dos direitos civis, campanhas massivas de desobediência civil não-violenta eram acompanhadas de igualmente massivas rebeliões. A mais famosa entre elas foi a rebelião Watts de 1965, mas ocorreram outras em dezenas de cidades por todo o país. Argumentar que o movimento deve suas conquistas à condutas exclusivamente não-violentas, no lugar de serem o resultado de uma combinação entre ação violenta e não-violenta, é no mínimo inexato. E não esqueçamos, Martin Luther King Jr., o homem que personificou a voz respeitável e não-violenta que a estrutura do poder branco afirma que poderia ouvir hoje, foi assassinado por esse mesmo poder branco.

** A ordem econômica, ideológica e política que constitui o governo de uma sociedade. No caso, o establishment branco é o conjunto de valores da branquitude que organiza a vida e define e mantém o lugar subalterno do não-branco (NdT ).

Não existe propriedade ou riqueza no EUA sem a exploração, apropriação, assassinato e escravização de pessoas negras.

Ainda que o movimento dos direitos civis tenha vencido muitas batalhas, ele perdeu a guerra. Encarceramento em massa, o fato de que a riqueza negra e a desigualdade entre negros e brancos estão no mesmo patamar que estavam no começo do movimentos dos direitos civis, que muitas cidades dos EUA são mais segregadas agora do que eram nos anos 60: não importa o quanto liberais digam que “não veem cor”, a justiça racial não foi conquistada, a supremacia branca não foi superada, o racismo não acabou. Na verdade,o racismo contra negros continua sendo o princípio organizacional fundamental deste país. Isso se deve ao fato de que ele foi construído pelo direito à propriedade, e não existe propriedade ou riqueza no EUA sem a exploração, apropriação, assassinato e escravização de pessoas negras.

Como Raven Rakia coloca, “Nos EUA, a propriedade é racial. Sempre foi”. Uma noção de negritude [blackness no original, não négritude, o termo do escritor senegalês Léopold Sédar Senghor] foi inventada simultaneamente à noção estadunidense de propriedade: via escravidão. No começo dos EUA coloniais, a escravidão era bem menos comum do que servidão por contrato – embora a diferença entre os dois não tenha sido sempre significativa – e havia os irlandeses, franceses, alemães e ingleses que imigraram entre essas populações. Embora sempre tenham existido, e continuassem a existir, alguns indivíduos negros livres, ao longo do século 17, europeus de pele clara pararam de ser cooptados para servidão e escravidão. Isso se deve em parte à explosão da produção nas colônias ter acontecido em uma velocidade muito maior do que as populações trabalhadoras pudessem se organizar para o trabalho – seja por reprodução ou imigração voluntária – da mesma forma que o custo de trabalho contratado e pago foi às alturas. Mesmo os europeus miseráveis e desesperados se tornaram muito mais caros do que um africano proveniente do cada vez mais escasso tráfico de escravizados.

A distinção entre brancos e negros foi então eventualmente forjada como uma forma de distinguir quem poderia de quem não poderia ser escravizado. Uma definição antiga de negritude poderia muito bem ter sido “aqueles que podem ser propriedade”. Alguém que organizasse um movimento para libertar por meios violentos pessoas escravizadas, naquela época, seria com certeza definido como um saqueador (caso a palavra já estivesse em amplo uso, os abolicionistas John Brown e Nat Turner teriam sido estigmatizados com ela). Não queremos criar uma equivalência ética absurda entre libertar alguém e pegar uma TV tela plana em uma agitação. Na maior parte da história dos EUA, os saques foram uma das táticas mais justas na luta contra o supremacismo branco. A visão de escravizados se libertando pode ser entendida como a primeira imagem de saqueadores negros na história estadunidense.

No Twitter, uma hashtag irônica de política começou a circular, #suspeitodesaque (#suspectedlooters), cheia de imagens de colonizadores europeus, proprietários de escravizados, cowboys e apropriadores culturais brancos. Da mesma forma, muitos apontaram que, caso a África não tivesse sido saqueada, não haveria pessoas negras na América. Essas são correções poderosas para argumentos sobre saques, e o apontamento retórico –  de que quando pessoas de cor saqueiam uma loja, elas estão tomando de volta uma proporção minúscula do que lhes foi roubado historicamente, desde sua história ancestral e linguagem, até a segurança básica de seus filhos na rua hoje – é totalmente essencial. Mas apenas com o propósito deste argumento – porque eu concordo honestamente com o projeto político dessas campanhas – afirmo que o que os colonizadores brancos e traficantes de escravizados fizeram não foi apenas saquear.

Foi genocídio, roubo e barbárie da ordem mais baixa. Mas em parte, o modo de funcionamento da escravidão e do colonialismo era a introdução de novos territórios e categorias para o âmbito da propriedade. Não só eles roubaram as terras dos povos nativos, mas ainda desenvolveram um sistema em que a própria terra podia ser roubada, um decreto de conquista a forças armadas. Não só eles tiraram as vidas, histórias, culturas e liberdade de povos africanos, como também transformam pessoas em propriedade, e força de trabalho em uma commodity passível de comércio. A escravidão em massa é a forma de trabalho coercitivo mais bárbara e violenta – mas como mostraram os últimos 150 anos, é possível dominar um povo inteiro por meio de leis e violência, e compensa muito.

Recentemente circulou no Instagram o vídeo de um manifestante em Ferguson discutindo o saque e incêndio de um mercado QuikTrip. Ele responde às banais acusações usadas contra os agitadores: “Falam que a gente destrói os nossos próprios bairros. Mas a gente não é dono de nada aqui!”. Esse é o cerne da questão, e poderia ser dito da maior parte dos bairros de maioria negra nos EUA, que possuem uma concentração muito maior de redes de varejo e restaurantes fast-food do que bairros não-negros. A renda per capita em média de Ferguson, Missouri é menor que US$ 21.000 por ano, e esse número com certeza diminui caso sejam removidos os 35% que representam a população branca de Ferguson, contabilizada nessa equação. Como um residente médio de Ferguson pode dizer que é o “nosso QuikTrip”? De fato, embora você possa passar um tempinho nela, como pode uma rede de lojas de conveniência ou uma rede corporativa de restaurantes fazer parte da vizinhança de quem quer que seja? Os mesmos liberais brancos que criticam corporações por destruírem comunidades locais ficam chocados quando manifestantes pegam essa crítica e a transformam uma ação material.

A afirmação ideológica mistificante de que os saques são violentos e apolíticos foi cuidadosamente criada pelas classes dominantes porque é justamente a manutenção violenta da propriedade que é ao mesmo tempo a base e a finalidade do seu poder. Saquear é extremamente ameaçador para os ricos (e maior parte dos brancos) porque revela, com uma imediatez que precisa ser moralizada, que a ideia da propriedade privada é exatamente isso: uma ideia, uma estrutura frágil de consentimento, reforçada pela força letal do estado. Quando manifestantes tomam território e saqueiam, eles estão demonstrando como, em um lugar sem a polícia, as relações de propriedade podem ser destruídas e bens podem ser distribuídos gratuitamente.

Os mesmos liberais brancos que criticam corporações por destruírem comunidades locais ficam chocados quando manifestantes pegam essa crítica e a transformam uma ação material.

Em um nível menos abstrato existem os benefícios práticos e táticos dos saques. Quando as pessoas se preocupam com saques, existe uma sensação implícita de que o saqueador deve necessariamente estar agindo por egoísmo, “um oportunista”, e por excessos. Mas por que é negativo se valer de uma oportunidade de melhorar a própria condição de vida, torná-la mais fácil ou confortável? Ou, como a artista e autora Hannah Black coloca no Twitter: “A polícia existe para que as pessoas não saqueiem, ou seja, tenham coisas boas gratuitamente, então eu não entendo por que é tão difícil entender que as pessoas saqueiam quando elas protestam contra a polícia”. Apenas acreditando que a posse de coisas boas de graça é imoral, acreditando, resumidamente, que o regime de propriedade atual (supremacista branco, colonialista) é justo, pode-se acreditar que os saques são em si imorais.

Pessoas brancas aplicam a ideia dos saques de uma maneira que implica que pessoas de cor são preguiçosas e gananciosas, mas é exatamente o oposto: saquear é um ato difícil e perigoso, com consequências potencialmente terríveis, e saqueadores roubam apenas das margens de lucro dos seus proprietários ricos. Tais proprietários, enquanto isso, especialmente de redes como o QuikTrip, roubam 40 horas por semana dos milhares de empregados que em troca recebem o privilégio de não morrer por mais uma semana.

E a presunção de que um saqueador não iria dividir seu saque é igualmente racista e ideológica. Sabe-se que comunidades pobres e de cor praticam mais ajuda e apoio mútuo do que comunidades brancas e ricas – em parte porque eles precisam. A pessoa que saqueia pode ser alguém que precisa lutar todos os dias para sobreviver, alguém que, ao tomar algo de valor, pode passar o resto da semana protestando “não-violentamente”. Eles podem estar alimentando suas famílias, ou pessoas mais velhas da comunidade que mal sobrevivem com a aposentadoria e não podem trabalhar (ou saquear) por conta própria. Eles podem estar expropriado o que eles em outra situação comprariam – bebidas alcoólicas por exemplo – mas ainda representa uma forma material que os protestos ajudam a comunidade: provendo uma maneira em que as pessoas tentam solucionar alguns dos problemas imediatos da pobreza e criar espaço para as pessoas livremente reproduzirem suas vidas, no lugar de o fazerem com trabalho pago.

Forças policiais modernas têm suas origens nas patrulhas para recuperar escravizados que escaparam, trabalhando para literalmente impedir que a propriedade fugisse de seus donos. A história da polícia nos EUA é a história de pessoas negras serem violentamente impedidas de ameaçar os direitos de propriedade de pessoas brancas. Quando, em meio a um movimento de protestos contra a polícia, as pessoas saqueiam, elas não estão agindo apoliticamente, elas não estão desviando a atenção da pauta da brutalidade policial e dominação, tampouco estão colocando lenha na fogueira do discurso midiático sempre racista. Em vez disso, estão atacando o coração do problema com a polícia, propriedade e supremacia branca.

Solidariedade com os rebeldes de Ferguson! Justiça para Mike Brown!

Você pode gostar de...