Edição 2 - 22.10.20

E aí, já somos ciborgues?

Mariane Beline

Ahhhhhhhh pronto, acordei e me deparei com uma entrevista do Elon Musk – bilionário da tecnologia, CEO da empresa Tesla e da SpaceX –  afirmando que haverá uma interface que conecta o cérebro a computadores por meio de chips, com experimentos em humanos em 2021. O objetivo é que esses chips se comuniquem com aplicativos nos celulares e que quando estiverem mais “evoluídos” controlem um telefone apenas por pensamentos. 

Ao ler isso instantaneamente me lembrei de tantas figuras ficcionais, mas principalmente os ciborgues. Para Donna Haraway, autora do “Manifesto ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX” o ciborgue é: um organismo cibernético, que seria um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura saída de uma ficção científica. Para ela, a ficção está repleta dessas criaturas que são simultaneamente animal e máquina e que habitam mundos que são, de forma ambígua, tanto natural quanto fabricada.

Assim, o ciborgue suscita esse misto de fascínio e tenho que dizer, um pouco de pânico diante de uma possibilidade de alteração completa do corpo humano. Quando se trata de imagem, muito do que recebemos sobre essa criatura vêm dos filmes de ficção científica hollywoodianos.

Além disso, essas imagens também permeiam o imaginário das artes visuais, por exemplo, com o trabalho Machine-Made America II uma colagem de 1956 do artista britânico John McHale (1922-78), um dos integrantes do Independent Group*, grupo de artistas e críticos em Londres cujo pensamento antecipou a Pop Art – em que formularam, discutiram e disseminaram muitas das ideias básicas do que viria ser a pop art britânica da década de 70, isso no final dos anos 1950 e início dos 1960, principalmente acerca das mídias, cultura popular e comercial e relação com os filmes, ficção científica, publicidade e música pop.

* Outros membros do Independent group foram Richard Hamilton, Eduardo Paolozzi e os escritores Reyner Banham e Lawrence Alloway.

Machine-Made America II (1956) de John McHale

Nessa colagem o artista explorou a sobreposição de camadas não só físicas como também conceituais e, ao criar esse ciborgue, criou um híbrido de máquina, humano, bolo e carne, ou seja, o orgânico e mecânico estão em uma fusão bastante confusa. O trabalho foi feito na década de cinquenta e já refletia uma gama do espectro sensorial que foi absurdamente ampliada, com um aumento imagético e informacional – isso que estamos falando de décadas antes da internet do modo como conhecemos hoje – mas já trazia discussões como impressões descartáveis e a rapidez do consumo, especialmente no que se trata da obsolescência programada*.

* Conceito de obsolescência programada: se trata de uma estratégia mercadológica que incentiva o consumo repetitivo reduzindo o tempo de vida útil de um produto, de forma que os consumidores passem a consumir mais, gerando uma excessiva desatualização das tecnologias. Há sempre um novo modelo com uma nova aparência,  nunca há peças disponíveis para o conserto do aparelho que o sujeito já possui, sistemas operacionais ou tecnologias se tornam inutilizáveis ou obsoletas.

Décadas mais tarde, o artista performático Stelarc estirou os limites do corpo humano, em uma linguagem que pretende amplificar o seu corpo a partir de extensões principalmente tecnológicas. Stelarc já fez filmes do interior do corpo e realizou suspensões preso por ganchos dentro da pele utilizando em seus trabalhos instrumentos médicos, próteses, robótica, sistemas virtuais, internet e biotecnologia para explorar alternativas, interfaces íntimas e involuntárias com o corpo.

Das performances artísticas estritamente relacionadas com próteses tecnológicas, já teve uma terceira mão, um braço virtual, um exoesqueleto e um robô andante com seis pernas. Em outro momento, ao estimular eletricamente seus músculos, explorou a coreografia involuntária do corpo e quais efeitos eram produzidos.

O artista vai além do que ele considera entre as distinções metafísicas entre alma, corpo, mente e cérebro. Coloca-nos em uma incerteza, de excessos e do aumento dos sistemas operacionais, e para isso propõe o quimera – reinterpretação da criatura mitológica quimera  que tinha cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente – que seria um corpo híbrido que opera em realidades mistas, ou seja, mantém o seu aspecto biológico mas esse é aumentado exponencialmente pela tecnologia e sua mente age telematicamente junto com os sistemas virtuais.

Mas agora, o seu trabalho mais extremo: ele acoplou cirurgicamente uma orelha extra, feita de cartilagem humana em seu braço esquerdo habilitada com a internet a tornando um órgão acústico publicamente acessível para pessoas em outros lugares do mundo, um ouvido que não só ouve, mas também transmite o que ele ouve na internet. Parece que o processo não foi simples, após algumas cirurgias, a pele necrosou, teve que retirar o microfone, enfim, uma série de complicações mostrando que talvez não seja tão simples assim o processo de hibridização.

Extra Ear (2006) de Stelarc

Apesar dessa ação de Stelarc ser um movimento extremo, a sensação é de que alguma forma todos nós estamos virando ciborgues, claro, em proporções diferentes, mas já vivemos usando as tecnologias como próteses. 

Haraway já tinha falado sobre a quimera (o texto foi publicado em 1985) e entende que já no final do século XX estaríamos vivendo um tempo mítico e que somos todos quimeras, híbridos (teóricos e fabricados) de máquina e organismo, ou seja, somos TODOS em suma, ciborgues.

Em diferentes gradações é possível entender os celulares e os wearables (que podemos traduzir como vestíveis) como próteses, por exemplo, com os google glass ou um relógio inteligente, e os implantes de gadgets subcutâneos ou até mesmo tatuáveis, estando assim conectados o tempo todo. Não só pensando na conexão, mas também no aprimoramento, uma lente biônica ou uma perna robótica podem melhorar a qualidade de vida das pessoas.

O que quero dizer é que a lógica do ciborgue já está entre nós e não vai ser da noite pro dia que vai acontecer uma mudança brusca e as personagens ciborgues dos filmes Vingadores ou Metropolis vão surgir. Parece que estamos esperando uma notícia específica para anunciar que o futuro chegou quando na verdade já estamos nele, o futuro é agora. Já fomos completamente dominados pelo Big Tech*, esse momento absolutamente inédito na história da humanidade e que demanda reflexões e diagnósticos de um processo ainda em desenvolvimento. 

* A ascensão do Big Tech está relacionada com grandes empresas associadas à plataformas de uso intensivo de dados, majoritariamente norte-americanas, o chamado Vale do Silício e com um recente crescimento na China.

É bastante evidente como essas referências imagéticas são muito potentes no nosso imaginário cotidiano e bem encantadoras, como se ao nos tornarmos ciborgues automaticamente seríamos sobre-humanos.

A verdade é que o que vai acontecer nessa suposta evolução em um futuro próximo é uma incógnita, os dados irão dominar o mundo? Nos cercaremos de robôs? Viraremos ciborgues? Haverá uma pane geral e apocalíptica? Não sei, mas confesso estar bastante curiosa para ver.

“Manifesto ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX” de Donna Haraway.

“Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política” de Evgeny Morozov, publicado pela editora Ubu. 

Sobre John McHale

Trabalho do artista Stelarc

Exposição This is tomorrow

Mais sobre o Independent group

Entrevista com Elon Musk

 

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