Edição 3 - 27.05.21

Descobri o mundo e ele é feito de massinha

Beatriz Abade

Pedro segurava minhas bochechas e as apertava, sorrindo.

Sentava ao meu lado e perguntava o que eu estava fazendo. Se interessava pelas formas e cores em meu caderno e segurava o giz com a mão gordinha pra desenhar comigo.

Alexandre me olhava desconfiado e Alice sabia que podia aprontar comigo.

Sinto saudade de jogar bola. Jogo mal e desconheço as regras, como o restante das crianças. Me sinto em casa na Educação Infantil.

A gente pega a bola com a mão e sai correndo pra não passar pra ninguém, todo mundo chora e a brincadeira acaba.

Conversamos sobre tudo e respeitamos o nosso choro e as nossas indisposições.

Descobrimos o mundo juntas. Eu descobri a cidade, descobri o parque, descobri a massa do bolo de cenoura, o ralador, o ônibus, o metrô, a yoga, o cheiro de alecrim, as bolhas, a água, o gosto do sabão, o tambor, as mãos e os pés, o silêncio e um palhaço assustador.

Na escola, eu me descubro e reencontro. Não existe momento mais bonito do que o milésimo de segundo em que a mágica acontece. Quero dizer que, às vezes, ela acontece. Às vezes, não dá tempo, a gente perde e espera por outro instante mágico.

Na escola, eu descubro sobre o perdão e o quanto ele é fácil, aprendo sobre dividir e o quanto é gostoso e difícil, ao mesmo tempo. Investigo o dizer e o ouvir “não”. É lá que eu sei que todo machucado passa, é só levantar. Mas que, talvez, em algumas vezes, precisemos de mais que isso: voz calma, água e paciência.

Aprendi a pular corda, pular com um pé só, respirar com a barriga, inventar letras de música e animais e inventar letras de músicas para animais inventados e lugares para os animais inventados morarem cantando as suas próprias músicas.

Eu aprendi, esses tempos, que as pedrinhas do lado de fora do museu são um acervo que eu posso levar comigo, escondidas dentro dos sapatos. E que os sapatos podem ser gigantes ou pequenininhos porque os pés crescem, a gente cresce e crescer é bom.

Na escola, aprendo o quão dura a vida pode ser. E isso dói porque ela será.

Aprendo sobre a sinceridade. Não é sempre não. Meu cabelo não estava bonito naquele dia. Minha calça era engraçada. Eu estava meio feinha, mas disseram com carinho.

Não importa como eu coloque a minha blusa. Importa que, hoje, eu a coloquei sozinha. E se não consigo amarrar os meus sapatos, alguém que já aprendeu pode me ajudar.

Descobrimos a cidade. Descobri a cidade vista de pequeno. Desafiadora. Colorida. Barulhenta.

Somos corajosas e sabemos que o primeiro passo para a coragem é dar as mãos. Enfrentamos as escadas rolantes, as portas do metrô, os semáforos e as pessoas que pensam a cidade como lugar de adultos.

A escola, como deveria ser, se expande pela cidade. E a cidade, como deveria ser, se abre às crianças. O moço que vende instrumentos de percussão na Praça da República, as mulheres que andam por lá seminuas, o senhor da banca de jornal, a ciclista, o catador de papel, o taxista que nos deixa atravessar, o motorista de ônibus que buzina e sorri, a moradora de rua que nos entrega um pirulito, skatistas, velhinhos e velhinhas nos olham com curiosidade. A minha cabeça gira de preocupação, queria ter olhos por todo o corpo. Mas sinto paz, orgulho, me divirto e aprendo com o trabalho, a força, a energia, a certeza e a esperança de mulheres maravilhosas que vieram antes de mim. Não existe lugar no mundo onde me encontre melhor que na escola pública. A luta é séria e contínua. E a força vem da beleza que a gente acredita ser possível porque vê acontecer.

A minha parede é cheia de desenhos, um dos melhores presentes que ganhei na vida: um envelope preto, feito a mão e personalizado por assinaturas e garatujas, com um desenho de cada criança, em papel cartão de diferentes cores.

Todos eles aqui comigo, no meu quarto. Há um ano não vou para a escola. Há um ano, sinto falta todos os dias.

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Beatriz Abade. Artista Educadora. Formanda em  Educação Musical no Instituto de Artes da Unesp e integrante da Equipe de Educação do Instituto Moreira Salles. Autora do TCC “Silenciamentos: o lugar de fala na arte educação”, desenvolve a pesquisa “Preta infância: (re)descobertas na ilustração infantil”. Como musicista tocou em peças de teatro e orquestras, no naipe de violinos. Desenvolve trabalho autoral como ilustradora.

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