Edição 2 - 16.11.20

Dançando em corpo preto

(rafaela castro)

imagem por Arthur Omar

Um texto pra mastigar com os olhos

Escuro. No salão, o que pode ser visto é iluminado por luzes artificiais, que fazem as cores dos corpos se tornarem incertas. O escuro é aconchegante e mais revelador do que parece, e essas finas luzes, conduzem a paisagens nunca antes vistas, mas que devem ser percorridas por cada dançante ali presente. Ao ouvir as primeiras batidas da música, algo no meu interior pulsa em ritmo e esquenta, fazendo subir pelo meu corpo um fluxo facilmente identificável: estava entrando em transe. É o meu primeiro sinal, e sei que é hora de mergulhar.

Nos primeiros enlaces entre a música, meu corpo e o espaço, ocorre uma quebra no tempo, e uma voz-guia me alerta que aquele é o único momento a ser vivido, nunca mais haverá outro igual a ele. Num instinto já conhecido, fecho os olhos pra enxergar melhor. Vejo linhas, fluxos luminosos dançando no ar, animais, sentimentos de paz e de revolta, memórias, imagens do não vivido, pessoas que não conheço, e eu crio esperança. Ao som do tambor ou do beat, me conecto com tudo aquilo em mim que desintegraram. E num esforço ancestral, ouso o mesmo ato de Auset e Ausar, me devolvo meus próprios pedaços e me movimento em inteireza. Já não escondo meus prazeres nem minhas feiuras. E no meio do meu encantamento, encanto os que assistem.

Já falei dos animais? Me transformo neles. No meio da dança meus músculos ganham as massas pesadas de um rinoceronte, a sinuosidade de uma cobra ou o ritmo de um gorila. Existe espaço pra tudo, e todos eles cabem nos buracos entre os meus ossos. No meio da dança me agarro num fio que me leva até onde não sou mais eu mesma, e me permito. Meu corpo ganha a forma de outras e outros, tantos… Mas também se deforma, derrete, evapora, se desconfigura, e enfim, se desfigura em belezas. Belezas de melanina.

Com o toque daqueles que se aproximam, não se fazem perguntas e nada é solicitado. O carbono, contido na melanina que arquiteta esses corpos, cria um movimento de atração inevitável, e no contato pele a pele se constroem paixões de uma vida inteira e parcerias intensas que duram exatamente o tempo de uma música. No chão do salão escuro, o efêmero é a medida ideal, nada mais que isso.

Após o fogo, de todos os meus poros verte água. Já encontro o solo mais macio abaixo dos meus pés, e o ar é sugado com força pra dentro dos meus pulmões. É então que percebo a música se despedindo, se desprendendo das minhas veias. Os movimentos se tornam mais lentos, e os saboreio um a um. Sorrio. Sei que fiz o melhor e que em troca, recebi um abraço do Cosmos. Me coloco em descanso, em preparo para a próxima jornada, e me pergunto: quando virá a próxima música?  

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(rafaela castro) é artista da Dança, educadora e pesquisadora. Nos diversos trabalhos que desenvolve, tem como principal interesse as perspectivas afrocentradas e panafricanas, e o estudo da cosmonoção africana e suas reverberações em diferentes povos e lugares do globo. Seu nome é grafado dessa forma propositadamente. As iniciais em letra minúscula indicam a desimportância de um nome que é consequência do processo de sequestro, em muitos sentidos. E os parênteses indicam seu caráter provisório, já que a autora deste texto está em processo de pesquisa para resgatar seu nome africano.

Ausar e Auset são esferas divinas dentro da ciência espiritual do Kemet (Antigo Egito). A história de Ausar nos conta que, por ter reinado Kemet com grandeza, foi alvo de ciúmes de seu irmão Set que mais tarde, cometeria o seu assassinato e o desmembramento do seu corpo, que foi restaurado posteriormente por Auset, sua esposa, trazendo-o de volta à vida.

 

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