Edição 1 - 29.07.20

Da corveia à bruxa morta (que revive)

Isabella Giacom

Camponeses miseráveis e seus senhores, cavaleiros e damas romanescos, religiosos proferindo missas em latim. Não me pareceria muito intuitivo considerar a Idade Média europeia ou pelo menos o imaginário pitoresco que boa parte de nós fazemos dela um bom ponto de partida pra pensar sobre rebelião ou revoltas sociais. 

Lembro meio vagamente dos incursos de estudo sobre a produção cultural desse período ao longo da formação em artes. Salta na memória a ênfase dada ao desmantelamento do mito renascentista/iluminista a respeito dessa era: um suposto período de estagnação cultural sem precedentes, um buraco escuro e malcheiroso entre a Antiguidade e o Renascimento. Com os olhos em imagens digitais de afrescos bizantinos e igrejas que eram muita coisa ao mesmo tempo, me coloquei no exercício de pensar uma Idade Média que já não era, então, a imagem de um tempo de indivíduos bestializados perante a fé engolfante na eterna danação, ou a sociedade reduzida a um código fiscal corveia-talha-dízimo dos livros do ensino médio. Pensar então um milênio diverso, complexo, achatado a posteriori numa narrativa elogiosa de seus sucessores construída por seus sucessores. 

Essa reorientação de teor já colocava em xeque o discurso de inferiorização da produção intelectual do período medieval. No entanto, foi num outro encontro com o tema, sob um prisma menos subordinado ao meu currículo acadêmico diretamente, que me vi frente a outra possibilidade de ressignificação desses anos. Dessa vez, Patrick Boucheron propunha um questionamento diferente sobre eles. Em Como se revoltar?, registro de uma de suas palestras, o historiador francês expõe uma visão generosa para com seu objeto de estudo não necessariamente propondo alguma reviravolta bombástica ocultada na história que conhecemos, mas reconhecendo em um período histórico controverso e extenso um possível ponto de interesse para os dias atuais.

Insistir na ideia da Idade Média inerte do ponto de vista das rebeliões sociais seria, de certa forma, se render à crença na “fatalidade da obediência e da credulidade”, segundo o autor. Nesse sentido, entender as mudanças e diferentes forças agindo no contexto seria uma atitude emancipatória.

Seguindo esse caminho, olhar para as várias formas em que se resistiu ao poder hegemônico foi uma experiência interessantíssima. Entre o livro-palestra de Boucheron, o Calibã e a Bruxa de Silvia Federici e o que foi magnetizado ao redor, vi falar sobre a evasão coletiva de camponeses de postos de trabalho,  tensões constantes entre servos e senhores que, por vezes, acabavam na morte do último, combates numerosos em campo de batalha e até a criação de seitas alternativas à Igreja Católica por vezes atingindo a magnitude de verdadeiras comunidades paralelas. Boucheron também pincela em seu seminário a presença literária constante de figuras de rebeldia no imaginário da Idade Média e anedotas sobre a impertinência servil no cotidiano, tendo no deboche uma ferramenta constante.

Há um certo peso, no entanto, em descobrir que, sim, as insurgências estiveram lá, em suas diferentes formas… e também, esteve lá a repressão sangrenta, por vezes assombrosa, por parte dos aristocratas e da Igreja, dos corpos que se articulavam na direção errada fosse nos massacres de hordas revoltosas ou na perseguição individual.

Judith Butler, ao escrever sobre a noção de levante, coloca em diálogo a ideia do “fracasso” numa rebelião. Aqui, me reservo o direito de citar todo um parágrafo. Grifos de minha parte.

Um levante é geralmente um acontecimento pontual. Tem um fim. Seu fracasso é parte intrínseca de sua definição. Consequentemente, mesmo que um levante não atinja seus objetivos, ele “entra para a história”, o que em si já constitui uma realização, um evento discursivo com repercussões afetivas. Um levante fracassado pode se tornar uma memória transmitida pela história, uma promessa não cumprida retomada pelas gerações seguintes, que tentarão alcançar seus objetivos. Um levante sempre cita um outro e é animado por imagens e narrativas do anterior. Levantes que não param de se produzir em um lugar e em outros formam uma herança histórica. Um levante acaba, outro começa, o que leva a pensar que, em determinado momento, a história cumulativa dos levantes é um processo em curso, uma luta que ultrapassa os levantes que a compõem, uma luta sem fim. Um levante pode fracassar, mas o processo pode continuar indefinidamente, ou se tornar um movimento revolucionário que chega ao fim (uma vez feita a revolução) ou prossegue num estado que paradoxalmente se concebe como “revolução permanente”.

Quais são os processos que, em diálogo com uma Europa medieval, estendem-se e desenvolvem-se até nós? Que forças políticas, hoje, atravessam nossos corpos e podem ter raízes seguidas além mar, ao norte, ao leste? 

Quais são os processos que, em diálogo com uma Europa medieval, estendem-se e desenvolvem-se até nós? Que forças políticas, hoje, atravessam nossos corpos e podem ter raízes seguidas além mar, ao norte, ao leste?

Volto aqui ao já mencionado Calibã e a Bruxa. Nele, a autora se dedica a traçar uma nova perspectiva sobre a importância basal do trabalho feminino não remunerado no desenvolvimento (e manutenção) do capitalismo, no conceito expandido da reprodução da força de trabalho, esmiuçando a ressignificação pela qual passaram os corpos de mulheres ao longo da Idade Média e no surgimento do sistema capitalista.  Espaços que permitiam a sociabilidade de mulheres camponesas associados às terras comunais foram desintegrados; a presença (ainda que cheia de precariedades) das mulheres trabalhadoras nas cidades foi desmantelada – elas eram desde açougueiras até comerciantes, passando por ferreiras e cardadeiras de lã, e no século XIV, atesta-se inclusive a presença de mulheres médicas e cirurgiãs; uniões de mulheres, a exemplo das beguinas,  comunidades de solteiras devotas às “boas obras” sem subordinação ao controle monástico, foram perseguidas e destruídas; as seitas heréticas perseguidas pela Igreja contavam com a presença massiva de mulheres, que nelas por vezes possuíam direitos proporcionais aos de homens, como no caso, segundo Federici, dos cátaros e dos valdenses; parteiras foram substituídas por médicos.

A caça às bruxas assume um papel muito menos periférico do que na narrativa histórica usual, aqui. É estabelecida uma leitura de relação direta entre a conexão com métodos contraceptivos e controle sobre o próprio corpo (e própria capacidade reprodutiva)* por parte das mulheres e a gigantesca perseguição levada a cabo nesse período, configurando, assim, um marco na colonização dos corpos de mulheres pelo capitalismo.* 

Ainda que a vida das mulheres nos tempos medievais não seja, em si, um levante, apropriar-se da história que envolve seu processo de opressão me parece, no mínimo, construtivo. Citar as narrativas silenciadas, as forças anuladas e que, de alguma forma, hoje nos fazem sentido; dando nomes e memória a tudo que nos faz sul, nos faz colônia: sejamos mulheres, negros, indígenas, proletários. 

Na história cumulativa dos saques aos corpos expropriados, alienados, podemos resgatar a potência daquilo que não deveríamos; olhar nos olhos como num espelho revelador do que já deixaram claro, em algum momento, que não podemos ser. 

*Se a questão reprodutiva te interessa, outro texto da casa pode vir a calhar: Isto não é apenas um guia sobre aborto seguro.

Referências

Patrick Boucheron é um historiador francês. Lecionou história medieval na Universidade de Paris. O pequeno livro dele que menciono, Como se revoltar?, é da Editora 34. 

Silvia Federici é uma filósofa, professora e ativista feminista italiana radicada nos EUA. O Calibã e a Bruxa está disponível em português numa edição lindíssima pela editora Elefante, com um trabalho incrível de pesquisa de xilogravuras de época.

Judith Butler é uma filósofa e professora estadunidense, uma das principais teóricas de gênero da atualidade. O trecho que citei está no catálogo Levantes, da Editora Sesc.

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