Edição 3

Edição 3 - 10.10.21

Conversa fiada: sobre traduzir lixo

Lina Mounzer tradução Mariana Leme

Em 2019, quando este artigo foi traduzido, ainda não tínhamos ideia da pandemia que estava por vir. Em meio à tragédia, testemunhamos a precarização das condições materiais e uma escalada de abusos — incluindo os trabalhistas. Ao mesmo tempo, entre a inocência e o cinismo, muitos escreveram que a arte seria nossa salvação, nosso respiro, num momento em que pessoas literalmente morriam por falta de ar. 

No embate entre os significados das palavras, a necessidade de pagar as contas e o discurso (frequentemente vazio) daqueles que detêm o poder, Lina Mounzer nos convida a desnaturalizar as relações profundamente desiguais que se escondem sob a ideia de arte enquanto espaço de liberdade.

Publicado originalmente em The Paris Review


 

Quando se fala de tradução, ultimamente, é comum que se faça com a mais solene entonação, como se fosse um dever sagrado, realizado por devotos que se prostram diante do altar da linguagem. O eu é renunciado, a ganância da autoria cede seu lugar a um chamado soberano, nada menos do que construir pontes entre os vazios dos povos e as culturas do mundo.

Isto é certamente o caso se você estiver traduzindo, digamos, Dom Quixote, ou poesia japonesa do período Heian, ou um novo romance da mais nova estrela senegalesa em ascensão. Mas apenas uma pequena minoria de tradutores têm a habilidade, a oportunidade e a segurança financeira necessárias para empreender tais trabalhos feitos com amor. O resto de nós terá que se contentar com qualquer lixo que conseguirmos por um salário digno. Por “lixo” refiro-me a um dos itens a seguir, ou a todos eles: discursos corporativos, manifestos de marcas, relatórios de ONGs, relatórios de think tank¹, cartas de agências governamentais respondendo a petroleiras norte-americanas, cartas de agências de governo respondendo a organizações de direitos humanos, prosa escrita por gênios auto-proclamados, cujos fundos credores e falta de autoestima pagam pela tradução, e ao gênero mais abominável de todos, o texto de arte.

1. Think tanks, normalmente traduzido como “laboratório de ideias”, são associações de especialistas que buscam influenciar a política e a opinião pública a partir da elaboração e difusão de pesquisas sobre um determinado tema, que pode ser de interesse governamental, científico e/ou ideológico. (N. da T.)

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Eu nunca procurei me tornar tradutora. Acontece que, como escritora, eu precisava de um salário real para manter um teto sobre minha cabeça, e que deveria corresponder ao conjunto muito restrito das minhas habilidades. Depois de trabalhar como revisora e como professora, deparei-me com a tradução freelance quase por acaso, e por um tempo pensei que tinha descoberto a fórmula mágica, que havia encontrado a ocupação ideal para um escritor.

Parece ótimo: você pode trabalhar com o que ama, o seu tempo é seu e pode ser organizado como melhor lhe parecer (manhãs para escrever, tardes para traduzir), o trajeto é tão longo quanto o de sua cama até a mesa, sem contar que as pausas para o café podem ser tão frequentes quanto quiser.

Acontece que nada disso é exatamente verdade (exceto a parte da pausa do café, o que se provou ser menos um benefício e mais uma mania). Porque a desgraça do trabalho freelancer é esta: seu tempo é seu apenas em teoria. Na verdade, cada minuto dele pertence agora ao cliente. O cliente, cujo trabalho sempre super urgente precisa ser feito num prazo que faria o Google Tradutor chorar. O cliente, que também está sempre pronto a lembrar que em Beirute, esta cidade mercante, não há nada de especial em ser poliglota, e que há hordas de pessoas à espreita para realizar o mesmo trabalho, mais rápido e por menos dinheiro. Você então se vê sempre envolvido(a) em cálculos cruéis, tentando estimar se esse trabalho, dado o prazo e o nível de dificuldade e/ou pesquisa necessária para se familiarizar com o jargão envolvido, pode permitir que você compre de volta uma pequena parte de seu próprio tempo, ainda que sejam duas manhãs por semana, para colocar numa página algumas palavras que não te farão querer arrancar os cabelos de angústia (ou pelo menos não da mesma forma ou pelas mesmas razões).

E, para adicionar uma afronta moral a um prejuízo material, o que você frequentemente acaba tendo que traduzir é o tipo de escrita que te faz odiar a escrita, algo que não se assemelha em nada com “a mídia que você ama”.

Eu disse lixo e quero dizer lixo; quero dizer pilhas de lixo de palavras organizadas numa sequência sem qualquer ordem sintática ou lógica. Quero dizer ter de vasculhar as minúcias da linguagem, com intermináveis entranhas nas frases, adjetivos e advérbios que se multiplicam como esporos, parágrafos que despejam informações inúteis, como vermes portadores de doenças, que rastejam rapidamente para te atacar e transformar sua própria escrita numa diarreia de pensamentos mal digeridos, às vezes te deixando tão confuso, que você esquece as regras básicas da gramática e precisa pesquisar no Google quais preposições vão com quais palavras.

Mesmo assim, as escolhas que você deve fazer em textos horríveis não são menos delicadas ou complexas do que com os melhores. Pelo contrário, eles estão ainda mais cheios de riscos e tentações: a vontade de mudar o que está diante de você para deixar menos horrível; o perigo de produzir algo que é menos uma tradução e mais um híbrido, uma colaboração com alguém que você não gostaria de se associar. Por exemplo, quando um ministro do interior está sendo acusado de explorar detentos e obter confissões através de violência, é necessário preservar fielmente a ambiguidade. “Nossas leis proíbem os maus-tratos” — diferentemente do mais severo abuso — “da população carcerária e, portanto, seria impossível o envolvimento com tais práticas, proibidas por lei”. Eu poderia me sentir atraída a omitir a sentença final, de tão repetitiva, mas essa insistência vazia é, na verdade, o ponto crucial do que está sendo dito. Às vezes, fico tentada a editar, como quando outro ministro respondeu a uma organização de direitos humanos: “Prezados senhores, vocês devem estar cientes do fato de que fomos devastados pela guerra e suas sanções e que, portanto, somos obrigados a dizer que o Ministério tem jurisdição apenas sobre si mesmo; na verdade, são as milícias as responsáveis ​​pela tortura de refugiados”. Imaginei um burocrata exausto sentado num desses escritórios vazios, com paredes descascadas, uma mesa de metal e um computador antigo, uma cidade em ruínas ao seu redor, e tive vontade de acrescentar, porque ele não o fez: “Vocês têm certeza de que têm lido as notícias? Vocês têm certeza, mesmo que eu esteja os culpando, que entendem que todos os seus esforços são inúteis?”

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Esses textos são certamente frustrantes, mas eles são mais ou menos diretos. Veja, todo tradutor de lixo acaba por encontrar sua especialidade particular, e a minha é o texto de arte. Próximo à literatura, poderia-se dizer, mas apenas no sentido de que a maioria desses textos ostentam a autoindulgência da pior literatura. Eles pavoneiam, usam palavras que não parecem entender completamente, citam nomes sem parar e tentam te ludibriar a cada frase, para fazer com que você acredite que a incapacidade de captar o que está sendo dito é alguma falha sua, e não deles.

Não há nada como a falta de sentido de um texto de arte e a tarefa de dissecar cada uma das carapaças vazias de uma sentença. Uma vez, traduzi quase trinta páginas do manifesto de um artista e fui absolutamente incapaz de entender não apenas com o que seu trabalho se parecia, mas também de quê ele consistia. Seria um vídeo? Uma instalação? Uma performance do grupo Fluxus? (No fim das contas, eram esculturas com objetos encontrados.) O texto foi tão longe em sua p* de abstração, que perdeu completamente de vista o próprio trabalho (o que eu vim a entender que é exatamente o ponto de um texto de arte). 

A experiência de traduzir tais textos é melhor descrita como uma tentativa de transpor com delicadeza a camada impossivelmente fina de uma sentença-nada em algo que se lê como uma frase de verdade, enquanto se preserva o vazio quebradiço que lhe resguarda. É como pegar a pele de uma cobra sem esmagá-la ou torcê-la. À primeira vista, ela se parece com uma cobra, ela preserva a anatomia de uma cobra: cabeça, escamas e rabo estão todos em ordem e no lugar certo. Mas é algo que pode colapsar sob o peso da mais leve análise. Por exemplo, observe: “A maioria dos meus trabalhos apresenta superfícies cilíndricas, onduladas, numa tentativa de despojar o material de sua transparência e apresentá-lo numa forma visual dramática, uma sátira fascinante que então aparece, finalmente, numa quantidade enorme de superfícies e formas ‘não-coercivas’.” Tenho quase certeza que fechei meus olhos em êxtase depois de ter deixado esta parte “descansar” na página. E nessas horas, quando consigo minimamente resolver as coisas, quase me convenço de que, se não amo, pelo menos eu gosto do texto. Não está tão ruim; eu só preciso entendê-lo em seus próprios termos. 

Mas então eu me deparo com metáforas tão emaranhadas que mal consigo separar alhos de bugalhos. Uma vez, as escolhas de cores de um artista me fizeram subir aos céus da imaginação, em seguida elas estavam mergulhando nas profundezas do subconsciente, e então, antes que eu pudesse me dar conta, elas cavalgavam um animal selvagem em direção aos recantos desconhecidos da alma. (E isso segundo a descrição isenta de um crítico de arte.)

A maneira com a qual eu trabalho é a seguinte: em primeiro lugar, coloco na página a maioria da tradução bruta, estabelecendo os parâmetros dentro dos quais eu posso me mover. Deixo apenas algumas escolhas em aberto, a serem feitas/decididas/resolvidas durante a leitura final, talvez pelo desejo de dar a mim mesma algum sentido de controle/agência/a ilusão de que eu mereça mais esse trabalho que o Google. Eu tento ser tão eficiente quanto possível nessa fase, mantendo tremores e viradas de olhos a um patamar mínimo, na tentativa de não ficar exausta antes que eu realmente precise me confrontar com o completo horror do que foi escrito. 

Não é incomum, em textos de arte, encontrar uma sentença tão atravancada que me vejo forçada a fazer algumas perguntas, a me comunicar com o autor que escreveu o texto ou, pior, com o curador que o comissionou. Curadores são frequentemente tão protetores da “visão” de um autor quanto o próprio autor — e às vezes até mais, afinal foram eles mesmos que estabeleceram os parâmetros para o tipo de ininteligibilidade promovidos por suas instituições. Eu não saberia dizer, quando celebram o manifesto ou o tratado do autor, ou os seus sonhos, ou qualquer que seja o sinônimo chique que eles estejam usando para essa pilha perniciosa de palavras, se esta é uma situação do tipo “as roupas novas do imperador”, em que estamos cansados de dizer o óbvio, ou se realmente acreditam que os feijões que estão vendendo são de fato mágicos. E então eu percebo que minhas habilidades devem se ampliar no sentido de traduzir desdém ou raiva ou perplexidade ou às vezes todos os três em impecável polidez. “Mas o que c* quer dizer ‘a casa não emerge da casa’?” transforma-se em: “Não estou completamente segura sobre a nuance dessa sentença”. E “a estrutura constitutiva das minhas peças se caracteriza pela ‘rápida flutuação’ e ‘composição da dúvida’ — essa m* não pode ser verdade, certo?” é melhor fraseada como “Não estou completamente segura de que ‘dúvida’ pode caracterizar uma estrutura — há talvez alguma outra frase que se encaixe melhor aqui e que eu não estou conseguindo encontrar?” Por sorte, diferentemente dos meus colegas homens que também fazem esse tipo de trabalho, posso contar com a experiência da vida inteira de uma mulher, em comprimir sua irritação furiosa num pequeno e doce bombom de incompreensão pessoal.

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Eu me vejo constantemente num dilema moral: minha responsabilidade é com a tradução ou com a própria linguagem? Esta não é uma preocupação altruísta, exatamente, pois subjaz o receio de que o leitor possa decidir que eu sou uma péssima tradutora e não o autor que é um péssimo escritor. Por exemplo, o autor usa o mesmo verbo ou o mesmo adjetivo sem parar num mesmo parágrafo, muitas vezes numa mesma frase. Ou a tradutora terá que investir na missão de buscar sinônimos ou simplesmente aceitar que seu trabalho é traduzir as palavras como ela as encontrou, e se contentar com o fato de que: se seu autor não se deu ao trabalho de abrir um maldito dicionário, então, por deus, ela também não vai.

Aconteceu comigo mais de uma vez, porém, que depois de enviar uma tradução, ter recebido um email desapontado de um autor insistindo que estava impreciso, que eu tinha sido incapaz de “adentrar a poética” do texto, e que eles não poderiam jamais ter escrito aquilo que eu alego que escreveram. Quando apresentados com evidências detalhadas para sustentar as escolhas que foram feitas, mais de um [autor] cedeu, ponderando que, de fato, o inglês é um idioma seco, corporativo, incapaz de atingir o intelectualismo jocoso do francês ou a grandiloquência do árabe. Péssima escrita, eu gostaria de responder, o que em qualquer outro idioma seria lido como pútrido. 

Se eu pudesse fazer esse trabalho de maneira isenta não seria tão ruim. Mas confrontada com a audácia da péssima escrita eu tenho a reação de qualquer conservador forçado a ver o flagrante desdém aos costumes que definiram e controlaram suas vidas. Raiva. Barulho, cusparada, raiva de homem branco de meia-idade e rosto vermelho, o tipo de fogo que alguém acende e alimenta para manter afastados os lobos da inveja. “Como ousam”, eu penso, “como ousam?”— mas eu mesma não ouso terminar o pensamento. “Como ousam permitirem-se a liberdade e a autoridade para escrever quando eu me controlei por tantos anos, escrevendo a conta-gotas, apavorada por pensarem que falta [algo], ou por inspirar o mesmo desdém que sinto quando leio textos como estes?” 

Mas essa raiva é também a tradução mais conveniente da sensação de impotência que esse trabalho muitas vezes me faz sentir. Impotência sobre meu próprio tempo, que eu não posso jamais reivindicar; impotência sobre minha situação financeira, que permanece firmemente ruim; e a impotência de ser uma engrenagem nesta máquina econômica alimentada por palavras que trazem muito dinheiro a muita gente em algum lugar, mas que no fim não empodera nada. Todo o financiamento canalizado em várias instituições e think tanks para produzir relatórios assépticos, todas as palavras usadas para inflar os mais débeis trabalhos de arte, tentando dar-lhes uma chance de competir no coliseu de um mercado de arte brutal e brutalizante ao mesmo tempo.

Porque quando eu digo lixo, eu quero dizer lixo. Quero dizer puro desperdício de palavras, tantos relatórios, tanta informação, tanta cópia gerada e em seguida regurgitada em outra língua, apenas, imagino, para ficar numa mesa em algum lugar, ou para florescer obscurecido numa parede de galeria. O melhor que posso dizer sobre isso é que passar pelo lixo da linguagem é geralmente um processo revelador, assim como revirar o lixo do vizinho pode te dar insights sobre o funcionamento íntimo de suas vidas. 

Eu aprendi, por exemplo, que as instituições mais inchadas e ricas são aquelas que vão pechinchar mais insistentemente por centavos. (Recentemente uma pessoa do escritório de compras de nada menos que a universidade privada mais importante do país me ligou depois de receber meu e-mail, para perguntar, num tom de lamento: “Você não poderia nos dar um desconto, como un geste, apenas para nós?”, como se fossem um membro de uma família maltrapilha pedindo alguma coisa para mantê-los de pé até cair o próximo salário.) Eu aprendi que ONGs internacionais, quando se mobilizam para promover conforto e ajuda numa situação de crise emergencial raramente — se é que vão — levam em consideração as demandas das organizações locais que trabalham em campo para saber exatamente que tipo de conforto e ajuda são realmente necessários (mesmo que tenham recebido cartas e mais cartas traduzidas detalhando exatamente isso). Que think tanks vão contratar os salafrários mais corruptos e inveterados para escrever relatórios sobre corrupção e nepotismo. Que alguns autores, buscando a validação de um ou outro ponto, vão inventar citações em saldão e atribuí-las a várias pessoas famosas, e então você precisa ler os ensaios completos de Kasimir Malevich (depois de passar horas procurando traduções gratuitas para o inglês) para se dar conta que não, provavelmente ele nunca disse que “ansiava pelo exílio do mar” (embora curiosamente ele tenha dito que “estética é o lixo do sentimento intuitivo”). Que alguns artistas, forçados a falar uma língua que eles não entendem completamente, vão frequentemente minar, ou deturpar, ou sobrecarregar o trabalho que estaria melhor sozinho, e, ao mesmo tempo, que outro trabalho não se sustenta sem a muleta do discurso. Que, forçados a falar a mesma linguagem homogênea, artistas locais são continuamente encorajados a aumentar o volume sobre sua própria “alteridade”, seja qual for, a anunciá-la em alto e bom som, na esperança de serem ouvidos apesar da cacofonia, o que deixa a alteridade ainda mais exótica/centrada. Que muitos artistas (especialmente os estrangeiros), buscando talvez justificar a estetização da pobreza, guerra, deslocamento e outras experiências que não tiveram tempo de considerar plenamente, vão frequentemente recitar alguma ideia grandiosa de propósitos morais. Eu com certeza aprendi a desconfiar de qualquer obra de arte que pretenda, de qualquer maneira, um propósito moral. Que finalidades morais para a arte são como ovos para um bolo. Se você consegue sentir seu gosto, seu cheiro ou ver pequenas partículas infiltradas, então é um bolo fracassado, e comê-lo não é nenhum prazer, mas uma punição.

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Acima de tudo, tenho tido uma lição mais ampla, difícil de abreviar. É que, não importa qual idioma eu esteja traduzindo, árabe ou francês, há sempre um único tipo ou estilo de linguagem empregado, estritamente devido à categoria a que adere. Falácias burocráticas emitidas por órgãos oficiais. Frases frias cheias de jargão institucional dos pesquisadores, seguidas de recomendações vazias e conservadoras, entregues no mesmo tom cautelosamente otimista. Os parágrafos intercambiáveis dos dossiês de imprensa sobre violações dos direitos humanos, feitos para preencher espaço. Os objetivos mais elevados das instituições grandes e pequenas, que sempre inevitavelmente “buscam”, “tentam” e “pretendem” as mesmas coisas. Os frenéticos Mad Libs² dos textos de arte.

2. Mad Libs é um jogo norte-americano dos anos 1950, em que os jogadores são convidados a preencher os espaços vazios de uma história com palavras cuja categoria é indicada, como “verbo”, “adjetivo”, “exclamação” etc., e formam narrativas cômicas pelo absurdo e falta de sentido. (N. da T.)

Tendências são abundantes, no sentido em que instituições (culturais, acadêmicas etc.) consciente ou inconscientemente ditam os substantivos através dos quais as questões serão examinadas (o arquivo; memória; entropia; exílio; o imaginário), os verbos que usamos para examiná-los (confrontar; problematizar; impactar; agitar; romper; borrar) e os objetos dignos de exame (em geral Síria/migrantes/pós-colonialismo, é o momento de mudança climática/capitalismo tardio/trauma). E é isso, acima de tudo, o que causa desespero. Não o conteúdo das tendências, mas o fato de funcionarem como tais; a velocidade de um chicote com a qual elas movem; a uniformidade de sua ascensão e queda. Como mesmo as intervenções que valem ou parecem valer a pena tornam-se dissonantes pelo ruído de palavras repetidas, ideias repetidas ou conclusões repetidas.  

Comece a notar tendências e começará a vê-las por toda parte: na cadência de poesias e ensaios, nas vozes de contos ou novelas, no tom de nossos debates, na internet e fora dela, naquilo que há em contos, ensaios, poemas e debates aos quais estamos expostos e direcionados para ler. É difícil não pensar sobre como nossos fluxos de consciência são levados pelos fluxos monetários (dinheiro; atenção; capital cultural); ainda mais difícil resistir a ser arrastado pela ressaca todo-poderosa e invisível.

Como poderia mesmo saber se falo com minha própria voz ou se estou atuando como ventríloquo para a monocultura como um todo? Por que ainda assim quero escrever? Em que lugar obscuro ou exaltado está essa ambição? Não há respostas; apenas as perguntas permanecem, e talvez isso seja importante. Talvez também seja importante lembrar que um dos meios para encontrar um propósito/consolar-se/tirar qualquer sentido de qualquer ato, qualquer trabalho, é encontrar uma maneira de desfrutar dele, por menor que seja. Em meus próprios escritos, nos escritos de outras pessoas, isso se traduz no prazer que surge do incognoscível, de confiar em perguntas que são respostas em si mesmas. A escrita ruim intensifica o prazer que recebo da boa escrita. Facilita o reconhecimento de uma boa redação, porque continuo refinando minha própria definição do que não é. É um prazer modesto, simples, privado. Acima de tudo, subjetivo. Portanto, parece ao mesmo tempo autônomo e comunitário.

Quanto ao prazer que pode ser derivado da tradução do lixo, é, justamente, um pouco mais tosco por natureza. Sentada em um café com um amigo, um dia, tentei descrever o sentimento de fazer um trabalho que você ama em princípio, mas muitas vezes acha impossível amar no momento. Ao se aproximar de um texto, você não tem nada além de desdém, mas faz com que ele caia na sua pele, para que pequenos trechos dele continuem piscando em sua cabeça o dia todo, muito depois de você ter se afastado.

“Como uma trepada com alguém que você odeia?”, ele disse.

“Sim!”, eu disse. “Exatamente como uma trepada com alguém que você odeia.” 

É comum afirmar que o prazer de uma foda de ódio está nas alturas de sentir que a paixão do ódio permite que você atinja. O ódio orgiástico dá sentido a um encontro sem sentido, capacitando-o com a sensação de que você pode simplesmente pegar o que precisa e depois se afastar para fazer suas próprias coisas no seu próprio tempo.

Mas nada se compara ao verdadeiro prazer de falar mal da foda de ódio em questão aos seus amigos depois. Maltratando aquele parceiro como se ele não tivesse controle sobre sua vida, como se você pudesse abandoná-lo sempre que quisesse, como se não estivesse desesperadamente ansioso o tempo todo que ele o deixaria na mão, como se você tivesse o poder e a liberdade de não dizer “sim, é claro, imediatamente, o que você quiser” na próxima vez que ligasse.

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Mariana Leme: Curadora e pesquisadora em história da arte, bacharel e mestre pela ECA-USP. Fez parte da equipe do MASP e foi curadora de Pedro Figari: nostalgias africanas (2018) e Histórias das mulheres: artistas até 1900 (2019). Publicou textos nas revistas Terremoto e seLecT e foi selecionada para integrar o número especial do Journal of Curatorial Studies.

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