Edição 2 - 23.09.20

Como se tivéssemos mais que sentenças

Renata Masini Hein

imagem por Marina da Silva

Renata Masini Hein nos apresenta três poemas, ensaios sobre uma angústia latino-americana que ultrapassa fronteiras, em direção a uma pátria continental (utópica?), uma irmandade melancólica sempre presente e distante que provê um apoio fantasmagórico na vida precária compartilhada; uma irmandade que toma forma em poesia e suavemente “se desfaz em espuma branca”.

Jorro

se tivéssemos mais que palavras
para defendermos a vida como se
tivéssemos outros abrigos para
nos recolhermos no frio em ninho
em berço
em pátria
como se tivéssemos mais que sentenças
para nos exilarmos das rajadas
para termos amparo e proteção
e escudo como se tivéssemos origem
para além de qualquer território
como se houvesse chão
para termos lar para termos
família e lareira e sepultura
como se não morrêssemos também
de sol e de sede e de descaso e de carência e de discurso

se tivéssemos mais que palavras
para ancorarmos na costa lisa como se
tivéssemos mais certezas que areia
mais iniciativas que fronteira mais
emancipação
que soberania

apenas as ondas se desfazem em espumas brancas

cierren los ojos y recen

apague a luz apague a luz irmã
já é noite e eu preciso dormir
fechar os olhos e reaprender a rezar
mas amanhã mas amanhã irmã
te prometo que te ajudo a bordar
bordaremos a manta toda
retalho por retalho
bordaremos o nome da santa
com nossos próprios fios de cabelo
e te prometo e te prometo irmã
não vamos mais viver com frio
cobriremos nossos pés e barrigas
cobriremos nossas outras hermanas
mas agora mas agora irmã
vou rezar para a nossa padroeira
quero lhe pedir um milagre
quero lhe pedir um manto
um manto infinito e invisível
que nos cubra toda a terra
que nos cubra todos os rios e mares
que nos defenda dos golpes
que nos proteja do medo
que nos abençoe a manta
para ao menos sonharmos tranquilas

deseo extranjero

estoy contigo en la distancia de nuestro
continente la presencia de la lengua
portuguesa hasta donde marca
la frontera entre la brasa y el tango
entre el samba y la llama entre el sol
y el bolero entre el calor entre la fiebre
y la salsa entre la cueca y el fuego
entre la lambada entre la rumba y
la pasión y el ardor entre el
cha-cha-cha y el fervor entre el merengue
entre la energia y los incendios
en las piernas en los cuerpos
en las palabras entre tu y yo
en la imaginación del colonizador
estoy contigo en el límite
idioma iberoamericano
utopía latinoamericana
estoy contigo bailando
y seguimos

• • •

Renata Masini Hein é graduanda em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense, foi bolsista pela PIBIC em 2019/2020 com Iniciação Científica na área do cinema-ensaio. Atualmente, pesquisa literatura latinoamericana.

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