Edição 3 - 16.09.21

apesar de você + jardim vetorial + quando as máquinas param eu fico tão triste + roma + tecnofaloterrorismo ou de como cis-falos usurpam

Heitor Gabriel + Matias Vilardaga + Morgana Mendes + Luís Teixeira + PC

Apesar de você, 2020 - Fotografia digital, dimensões variadas
Apesar de você, 2020 – Fotografia digital, dimensões variadas

Isolado, tenso e entediado, comecei a observar o bairro pela janela através de uma lente 75-300. No momento desse registro, acontecia um panelaço contra Bolsonaro e um homem se queixava do protesto, proferindo mensagens de ódio aos vizinhos que pediam impeachment. Estes, por sua vez, depois de muita discussão, colocaram a música “Apesar de você” para tocar, ressoando a voz de Chico Buarque pela quadra, e finalmente, fazendo o homem retirar-se.

• • •

jardim vetorial, 2021 - pastel oleoso e nanquim sobre papel, 22 x 30 cm
jardim vetorial, 2021 – pastel oleoso e nanquim sobre papel, 22 x 30 cm

é desenho colorido e rabiscado que parte da observação de uma imagem de hiena, de fotografia, que se mistura com a fantasia do artista. trabalho rápido e espontâneo em papel, feito na mesa, na frente do computador, no quarto.

• • •

quando as maquinas não gritam eu fico tão triste. foram primeiro as putas ou o tabaco empacotados pra mim direto de cuba? hoje eu tusso. amanhã tudo bem, não dá pra tossir de boca fechada mesmo. quando as maquinas não gritam eu fico tão triste. alá a carne na mão do açougueiro. alá, esconde as castanhas moça por que o homem é faminto. alá eu tenho dinheiro e você tem boi, alá manda por favor esse menino voltar pra casa.
de todas as máquinas a máquina. eu não sabia muito bem o que dizer então deixei ela falar. eu costumava contar histórias, agora ando meio entorpecido. ninguém aumentou o tom de voz. uma garrafa quebrou esses dias. mas não pude voltar por que estava no hospital. penso na minha irmã em casa, no meu cachorro e no meu corsa.
eu fico aqui ouvindo ela falar.
lá faz tempo agora.
eu perdi algum tempo uma vez que ela parou de falar tentando fazer ela falar de novo.
um dia chegou uma caixa de papelão que quando abrimos saiu outra de dentro e começou a gritar gritar gritar. eu gostei, não sabia muito bem o que dizer então deixei ela gritar. eu costumava contar as vezes que eu subi numa arvore. dizem que foram só duas, uma vez eu subi só pra descer mesmo, a outra vez foi pra apanhar uma maçã. a gente costumava caminhar por ai com a mão no peito. sobraram as fotos. eu queria ter virado astronauta. ouvir elas gritarem no meu ouvido o tempo todo, dentro delas. por mim eu seria o chumbo na carne. eu queria ter assistido de longe a terra explodir dentro dela mesma e a gente ficaria sozinho, no meio de todo o vácuo. eu queria ter ouvido mais elas falarem. eu fico tão triste.
como um espirro que explode, é uma explosão que tem cheiro de mel. e tudo que não contam para você depois que te ensinam. assim que eles chegarem, vamos poder mostrar nossos cálculos científicos a respeito. no dia que ela parou eu descobri o problema. era um vagalume tentando sair. eu coloquei o vagalume na boca e chorei cantando seu nome. imitando o choro da máquina. ela parou de chorar e agora só eu choro, pois ando tão triste.

Roma, 2021 - Óleo sobre tela, 180 x 130 cm
Roma, 2021 – Óleo sobre tela, 180 x 130 cm

Roma faz parte de uma série de pinturas que desenvolvo atualmente experimentando recursos narrativos e estéticos dos quadrinhos, cinema e artes gráficas, intuindo estabelecer pequenas narrativas instantâneas e cíclicas.

Tecnofaloterrorismo ou de como cis-falos usurpam, 2021 - Arte digital, dimensões variadas
Tecnofaloterrorismo ou de como cis-falos usurpam, 2021 – Arte digital, dimensões variadas

• • •

Heitor Gabriel, 27, tem formação em arquitetura e urbanismo, trabalha como designer para museus e galerias, produzindo exposições e dando assistência para artistas. Utiliza mídias variadas para se expressar, desde fotografia, escrita, desenho, pintura, vídeo e performance. Aborda temas como autoconhecimento, deslocamento e presença, em busca de dar matéria ao oculto e sutil.

Matias Vilargada, 1995, Barcelona, vive em São Paulo e estuda Artes Visuais na USP. Trabalha com desenho, escultura, pintura e texto. Explora questões da imagem, do corpo, da distância, sobre pulsões e potências ambivalentes ou contraditórias da experiência humana, do interno, sobre o grotesco, o sublime, as tensões entre as forças estéticas, sobre religião, cultura, tempo, família, espírito, ritual, sexualidade.

Morgana Mendes, artista cênica. graduante de licenciatura em teatro. faz objetos para serem animados e escreve textos para ler em voz alta.

Luís Teixeira, Belo Horizonte, 1982, vive e trabalha em São Paulo, SP. Graduado em artes visuais pela UFMG, participou de de diversas exposições coletivas e já realizou duas Individuais: “Em carne” em 2010 e “Umbigo” em 2018. Desenvolve seu trabalho experimentando diversas mídias e temáticas, abordando dialéticas entre figuração/abstração, peso/suspensão, bi/tridimensionalidade, vida/morte e memória/imagem.

PC (Rodrigo Pedro Casteleira), Mandaguari (PR), formado em filosofia, mestre em ciências sociais e doutor em educação, docente na Fundação Universidade Federal de Rondônia, em Vilhena. Performer e artista plástico autodidata, entremeando negritude, sexualidade, corpo, erotismo, nudez e localidade em tentativas de descolar paradigmas branco-centrados nas produções.

Você pode gostar de...