Edição 1 - 07.07.20

Apagamentos de traços da escravidão na história do Brasil recente

Caio Bonifacio

Em 2018, a artista Priscila Rezende realizou no Instituto Tomie Ohtake sua performance Como erguer baronatos, em que ela usa café para desenhar no chão uma série de cruzes, depois varre tudo e recolhe com uma pá. Os elementos da performance fazem referência ao período mais longo da história brasileira: a escravidão. Especificamente, referenciam a escravidão no estado de São Paulo, onde a cultura do café foi mais intensa, e o fruto foi considerado responsável simbólico pela riqueza da cidade – podemos ver, por exemplo, sua celebração no prédio do Theatro Municipal, com adornos dourados na forma de folhas de café. Depois da proibição do tráfico de pessoas negras, em 1850, a demanda por mão-de-obra escravizada aumentou, e grande parte daqueles cativos mantidos na cidade foram vendidos a fazendeiros do café e submetidos a um regime de trabalho ainda mais pesado e violento, o que resultou em diversas revoltas e depois no fim da escravidão legal. O Instituto Tomie Ohtake fica no Alto de Pinheiros, bairro de elite da cidade de São Paulo. A performance de Rezende coloca no chão desse ambiente amplamente frequentado pela elite paulista, em frente ao restaurante do museu, a memória dos homens e mulheres que foram escravizados, colocados em trabalho forçado nas fazendas de café para construir a riqueza hereditária de grandes famílias paulistanas; depois, a artista coloca-se a limpar o café, atuando uma ação frequentemente vista em espaços de elite, da mulher negra limpando, que possui também uma linha que corre até história da escravidão.

Como erguer baronato. Foto: Ricardo Miyada
Como erguer baronato. Foto: Ricardo Miyada

Em 1940, Walter Benjamin escreveu suas teses sobre o conceito de História, que ainda são interessantes para pensar a relação de nosso presente com o passado. Penso que o passado não está trancado no período em que apareceu, mas acompanha o desenrolar dos acontecimentos no tempo, transformando-se: o presente traz consigo elementos do passado. Porém, o passado não é totalmente conhecido, então não vemos espontaneamente onde ele se mostra nos acontecimentos presentes, nem podemos, de forma alguma, obter o passado em sua totalidade. Apenas vemos o passado no momento do perigo: quando o presente é ameaçador, vemos nele, como um relâmpago, a imagem do passado a que ele se relaciona. O retorno do passado é um perigo também para aqueles que querem manter a ordem do poder, como o presente é uma ameaça ao oprimido. Muito poderia ser escrito sobre as formulações de Benjamin sobre o conceito de História, vou usá-las aqui para uma reflexão sobre os apagamentos das marcas da escravidão no Brasil, buscando desenrolar significados de alguns casos recentes.

No século XVIII funcionou no centro do Rio de Janeiro (no Largo de Santa Rita) o Cemitério dos Pretos Novos, onde eram enterrados em cova rasa, sob um punhado de terra e sem nenhum ritual funerário, aqueles negros sequestrados em África e trazidos ao Brasil como escravos que ficavam muito doentes ou morriam no trajeto de navio; esse cemitério é anterior àquele do Valongo, onde hoje é o Museu dos Pretos Novos. Lá, nas costas da antiga Igreja de Santa Rita, foram depositados cerca de 20 mil cadáveres, que vez ou outra escapavam da terra durante as chuvas e boiavam pela cidade do Rio de Janeiro, como descrito pelo viajante alemão G. W. Freireyss. Esse lugar é um dos registros da violência do escravismo. Como escreve o intelectual brasileiro Paulo Prado, a cidade do Rio tinha seu solo lavado de sangue e parte de sua paisagem urbana era constituída de pessoas reduzidas a objetos, submetidas a condições desumanas, sendo açoitadas, escravizadas.

Apenas vemos o passado no momento do perigo: quando o presente é ameaçador, vemos nele, como um relâmpago, a imagem do passado a que ele se relaciona.

A cidade do Rio de Janeiro passou por cima dos dois cemitérios citados, uma primeira vez na reforma Pereira Passos, no início do século XX, e outra vez com a construção do VLT (veículo leve sobre trilhos), cerca de três anos atrás. Poucos documentos restaram dos enterros que foram realizados lá e daqueles que foram sepultados; tanto é que, em 2018, a prefeitura do Rio de Janeiro, em nota oficial, não reconhecia a existência do cemitério no Lgo. de Santa Rita. Só durante as obras da 3ª linha do VLT, que passa pela região central, esse território foi “descoberto”. Depois de muita mobilização de partes da sociedade civil, principalmente do movimento negro, as obras foram paradas por alguns instantes para que a região pudesse ser inspecionada, assim se confirmou a existência de diversas ossadas, que não foram escavadas, mas por cima das quais hoje passa o VLT.

Por um lado, foi por exigência do movimento negro que as ossadas não foram retiradas para estudo, por isso ter sido considerado uma profanação daqueles corpos, por outro lado, a passagem dos trilhos por cima do cemitério marca o prevalecer do progresso sobre a memória dos espaços: o progresso exige que os destroços do passado sejam deixados para trás. Ainda que haja uma referência ao cemitério no nome da estação (Igreja de Santa Rita/Cemitério dos Pretos Novos), não há o impacto da realidade dos corpos como marcas do processo violento da escravidão. Além da nomeação, serão instalados totens explicativos nas estações, que contam a história do cemitério, e o piso da área sob a qual há ossadas será demarcado por pedras portuguesas e contará com um aviso para que quem passe por ali saiba onde está pisando. O desejo de Merced Guimarães, diretora do Instituto dos Pretos Novos, era de que fosse construído um grande memorial no local, que marcasse fisicamente o espaço urbano com impacto. Mesmo que a existência dessas pessoas que estão ali enterradas viva na memória, através do texto, quanto dessa existência é sentida, percebida na vida cotidiana?

No caso do Cemitério dos Pretos Novos, o recurso da memória textual – frágil enquanto impacto físico, mas duradouro como relato e descrição de um acontecimento – persiste, mas a cidade de São Paulo lida com sua história de forma ainda mais frágil. O bairro da Liberdade, em São Paulo, passou, também em 2018, por um enfraquecimento dessa memória textual da escravidão com a mudança de nome da praça que dá nomeia o bairro e sua estação do metrô, de Liberdade para Japão-Liberdade. Essa alteração foi uma espécie de contrapartida do Estado ao investimento feito por Hirofumi Ikesaki – dono da rede de lojas de perfumaria Ikesaki e presidente da Associação Cultural e Assistencial da Liberdade – para a reforma da praça, como parte do ano de comemoração de 110 anos da imigração, que contou também com a realização do Festival do Japão e da Virada Black Liberdade Japão (em referência à Black Friday estadunidense).

Mesmo que a existência dessas pessoas que estão ali enterradas viva na memória, através do texto, quanto dessa existência é sentida?

A Praça da Liberdade, onde foi construída a estação do metrô, até meados do século XIX chamava-se Largo da Forca, por ter abrigado a forca da cidade, onde executava-se os pretos escravizados que fugiam de seus cativeiros e eram capturados e sentenciados à morte. Também no centro da cidade, ali próximo, era o pelourinho municipal, onde é hoje a Praça João Mendes; onde fica o Parque Dom Pedro foi uma prisão para os escravizados condenados. Na região da Liberdade também foi construída a Capela dos Aflitos e seu cemitério, onde eram enterrados os corpos de escravizados, de criminosos e de indigentes. Como no Rio de Janeiro, essa região era considerada “os fundos” da cidade, afastada do centro, para que não incomodasse o cotidiano urbano. O bairro ganha o nome de Liberdade pelo soldado negro Chaguinhas, que liderou uma revolta da categoria contra o atraso dos salários, que ativou um clamor popular por liberdade e por isso foi enforcado. Aos poucos, ao longo do século XX, o bairro foi ocupado por imigrantes japoneses e as memórias da violência colonial foram substituídas pela decoração turística de “bairro oriental” que hoje marca a região.

O hífen (de Japão-Liberdade) que agora se torna parte do nome da estação e da praça só tem função mercantil, para agregar certo valor ao nome da região, como também é feito em outras estações do metrô, como Higienópolis-Mackenzie, que associa ao bairro uma instituição privada de ensino. A associação feita em Japão-Liberdade não tem nenhuma fundamentação na história ou no significado das palavras. Com o passar do tempo, é possível ainda que a estação torne-se apenas “Japão” no boca-a-boca, para encurtar o termo, o que acontece também com outras estações de metrô, como Corinthians-Itaquera, Portuguesa-Tietê, São Paulo-Morumbi e na já citada Higienópolis-Mackenzie.

Assim, com o desaparecimento do termo Liberdade, a região seria enfim liberta da associação, mesmo que bamba, ao seu passado de barbárie, aos assassinatos cometidos ali, para abrir espaço às novas iniciativas, à renovação do centro da cidade – projeto do então prefeito João Dória, que já contava com a mudança de nome da praça. Enquanto isso, também uma marca física da escravidão no espaço do bairro está sendo apagada: a Capela dos Aflitos está ficando espremida em um beco da rua dos Estudantes pela construção ao seu lado de um enorme complexo comercial que ameaça sua estrutura.

O apagamento das marcas da história negra do Brasil, principalmente de seu passado escravista, é uma estratégia posta em prática ao menos desde a abolição, com a substituição da mão-de-obra negra pela de imigrantes europeus e com a queima de documentos da escravidão ordenada por Ruy Barbosa, como uma forma de superação dessa marca sangrenta na história do Brasil. Desde então, os processos de ocupação do espaço urbano brasileiro contam com o abafamento dos gritos que o passado colonial lança ao presente. Essas vozes do passado, que ocasionalmente gritam, costumam sussurrar em práticas de nossa elite econômica: na continuidade do trabalho doméstico assalariado e de suas relações sociais (como elaboradas recentemente no cinema brasileiro, em filmes como Que horas ela volta, de Anna Muylaert, e O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho), na maioria negra entre a população de rua nos centros urbanos e entre moradores das favelas e na persistência da influência política e econômica de famílias cuja tradição se funda na exploração do açúcar ou do café por trabalho escravo. Como formulado por Benjamin, é no reconhecimento do sofrimento de nossos antepassados e na identificação com sua dor que surge o ódio de seus herdeiros no presente, ódio que, quando pensado e articulado, pode mover revoluções.

Apesar de focar aqui no apagamento da memória negra nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, sem dúvida há também esse apagamento em outros lugares, assim como essas cidades também são palco do apagamento de outras memórias, como com o recentíssimo incêndio na terra indígena do Jaraguá, em São Paulo, cuja extinção do fogo mal contou com o auxílio dos bombeiros e o descaso com a Aldeia do Maracanã, no Rio de Janeiro, que abriga o Museu do Índio, hoje abandonado. Também lembro da perseguição à comunidade japonesa na década de 1940, guiada pela ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas. Sem querer simplificar demais as dinâmicas de poder, proponho analisar alguns eventos das políticas públicas de apagamento da memória negra do Brasil; na maior parte das vezes, essa memória continua viva nos textos e nos documentos, mas tem cortada sua presença massacrante no espaço público, o espaço da cidade onde ocorreu, que foi transformado e que, hoje, dá lugar a outras formas das relações sociais que arrastam consigo os pedaços daquelas anteriores.

A escravidão é o que há de mais abjeto na história brasileira.

Podemos considerar a escravidão na história do Brasil como um momento traumático, cuja total ausência de civilidade não pode ser assimilada no projeto de construção de um Brasil moderno. Portanto, os dados dessa história são apagados, como já citei a ordem de Ruy Barbosa de queimar os documentos desse período e as subsequentes empreitadas de recalcar as marcas físicas, geográficas, desse passado na paisagem urbana. Há ainda o esforço de manter essa memória por diversos grupos que percorrem espaços da cidade recontando a história daqueles que ali habitavam, do que aconteceu e foi esquecido ou apagado, mas esse trabalho torna-se cada vez mais difícil à medida que existem menos evidências sensíveis das existências desse passado. O que tratamos até aqui, um assunto que é considerado feio, dolorido, violento demais para ser mexido, portanto é escondido, rejeitado, é o que podemos chamar de abjeto – a escravidão é um elemento abjeto da história brasileira.

Como também já exemplificado antes, o momento traumático que é reprimido sem ser resolvido tende a voltar sob novas formas em busca de uma resolução. Quando o passado escravista retorna na colonialidade da família que mantém uma empregada doméstica, ele já está sem sua carga repulsiva, mas quando retorna nas ossadas descobertas de um cemitério aterrado, ele vem pleno em sua violência original e é rejeitado novamente. Em uma performance como Bombril, realizada pela primeira vez em 2013 por Priscila Rezende, esse passado colonial é apresentado com parte de sua carga repulsiva, na presença desconfortável de uma mulher negra vestida de branco, descalça, sentada no chão, lavando panelas com o próprio cabelo, em referência à associação pejorativa do cabelo crespo com a palha de aço Bombril – que recentemente causou revolta na internet quando anunciou o retorno do produto Krespinha, que tem a mesma conotação racista.

Ainda que a presença de pessoas negras morando nas ruas já não cause indignação em boa parte da população das grandes cidades que, acostumadas com a situação, ignoram essas presenças tão marcantes e desconcertantes, ou voltam suas costas com medo, a ocupação dos espaços (de certa forma) sagrados reservados à exposição de obras de arte pelas imagens desconfortáveis dessas cenas coloniais pode causar o incômodo esperado, pode recolocar esse trauma com uma carga de choque. As roupas usadas na performance (o tecido cru, sem tingimento, comum no imaginário sobre as pessoas escravizadas) e o ambiente onde é encenada (a paisagem de igrejas de Ouro Preto, o chão de pedras portuguesas do Memorial da Vale em Minas Gerais) dão o ar de re-encenação, como se fosse um evento do passado transposto ao presente, mas não há registros de que lavar panelas com os cabelos fosse uma prática no período colonial, essa é a articulação com um significado atual.

Na performance Gênesis 09:25, de 2015, também está a atuação de uma cena repulsiva: Priscila é açoitada com rosários por um homem. Aqui já não há uma tentativa de encenação do passado, as roupas são contemporâneas (a artista veste uma calça preta, o homem veste roupas sociais) e o ambiente é interno, todo revestido de mármore (como de um imponente prédio público republicano), mas o ato de açoite é o grotesco característico da escravidão – que, recentemente, foi sido usado na tortura de um garoto negro por seguranças do supermercado Ricoy, na zona sul de São Paulo. Esses trabalhos impõem o enfrentamento com o abjeto da escravidão, que é ainda recusado pelo grosso da sociedade brasileira. Como poderíamos realizar o projeto de uma nação desenvolvida sem antes tratar de uma ferida aberta na história do país que, antes de cicatrizar, é envolta e apertada em tecidos grossos, sob os quais infecciona e gangrena até apodrecer?

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