Edição 3

Edição 3 - 23.11.21

Ao fazermos amor com a máquina

Marcos Haas

elegia sobre um túmulo de luz

Não sei o que me aconteceu para ficar tão triste. / Lembro-me de ter percorrido meio mundo à procura de imagens. / Tinham-me dito: é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas.”[1]

Os devaneios e cenas e imagens a seguir derivam do fascínio pela poética de Hudinilson Jr, e foram escritos em um só fôlego. Se tudo isso se assemelhar a uma encenação de uma tempestuosa batalha entre eros e thanatos não é coincidência. Me acompanhem:

1// preso no meu quarto, sentado na frente de uma tela de computador, com tesão o tempo inteiro. corpos no instagram, mais uma vez Toshiro Mifune num filme do Kurosawa, a voz do Gustavo Cerati no meu ouvido, sonhos eróticos. aplicativos de pegação no celular, saudade dos banheiros públicos, minha imagem no espelho. eu e uma multifuncional sozinhos num cômodo. a máquina não exige jogo de sedução, mas eu sim. num impulso tecno-xamânico eu ofereço flores com a boca. resta em sua superfície um fio de baba. limpo, repito o processo. arrasto minha língua acompanhando o leitor do scanner. confiro a imagem na tela do computador. encosto o rosto no vidro. a luz penetra meu olho. me vejo congelado no monitor de referência. olho com cuidado minha pele ampliada na tela, e penso nessa imagem a qual eu busco; reverbero as palavras de Al Berto, sempre Al Berto, ao questionar se a luz não é um túmulo. a luz que incide e cria sombras gravadas em grãos ou pixels numa imagem já sem vida. a não ser que luz garanta permanência. tiro a roupa. colo o baixo ventre, a virilha, a mão e a perna. copulo com a máquina mas o gesto é claramente autoerótico e o impulso é narcísico. “Não posso me / tocar me reproduzo” [2]. num orgasmo, uma pequena morte e uma sobrevida. me imortalizo e me anulo num só gesto. a luz é meu túmulo. me enterraram com pás e pás de pixels. na minha lápide em .png está gravado o epitáfio “exercícios de me ver”. em cima “Narcisse. 2020”.

[1] Em Al Berto, da página 74 de “Anjo Mudo”, lançado em Lisboa pela editora Assírio & Alvim em 2017

[2] Na página 147 do texto de Verônica Stigger intitulado “Cadernos de Narciso” publicado na Revista Zum, 18° edição em 2020. 

Exercícios de Me Ver. Marcos Haas. Vídeo experimental, 2020. Acervo Pessoal
Exercício de Me Ver II. Hudinilson Jr. Registro de performance. 1982

2// ao fazermos amor com a máquina, não fazemos amor sozinhos. mas se há um fantasma na máquina, é um espectro dos passados ou um fragmento da nossa própria alma. às vezes eu perco a noção de como eu me pareço e o único reflexo que eu vejo é meu fantasma na tela do pc. não tenho espelhos e eles não me fazem falta. busco não enamorar-me de minha sombra.  “O mito de Narciso / A máquina = meu espelho”.³

3.  Na página 147 do texto de Verônica Stigger intitulado “Cadernos de Narciso” publicado na Revista Zum, 18° edição em 2020.

Figura 48: Narcisse. 2020 (II). (Marcos Haas. Fotocópia, 2020. Acervo pessoal.

3// quando eu penso na facilidade de reproduzir e expandir uma imagem, os diversos dispositivos de captura que tenho na mão, todas as telas que estão na minha frente todo dia, não deixo de ver um avanço em direção à reprodução de moldes velhos, filtros de aplicativos que adicionam ruído a uma imagem de outra maneira limpa, ajustes de granulação, mil e uma maneiras de alcançar aquela estética vhs tão nostálgica… por que meu espelho é uma câmera tekpix e meu objeto de amor escolhido um scanner HP não tão velho mas – pelas leis da obsolência programada – já ultrapassado? “Uma explosão/ exploração das imagens de meu corpo/ xerografado/ fermentado/ reproduzido/ ampliado/ dividido”. o gradual desaparecimento do futuro que Mark Fisher anunciava, se denuncia numa infertilidade do pensamento; as imagens que se repetem, que se clonam, mas em aceno a um passado que conhecemos e nele nos confortamos. xerocamos o passado e depois o xerox do passado… e se sobrepõem ruídos. uma busca na repetição de um passado que não fabula… e só se fabula quando há desejo. e o futuro é objeto e imagem de desejo. o futuro está implicado não tanto na necessidade e na falta quanto está no desejo.

os fantasmas que nos assombram vêm do passado ou do futuro?
Narcisse. 2020 (III). (Marcos Haas. Fotocópia, 2020. Acervo pessoal.

3.333…// “o futuro é sempre experienciado como uma assombração:” 

como uma virtualidade que já incide no presente, condicionando expectativas e motivando a produção cultural. O luto da música [arte] assombrológica é menos pela falência de um futuro para transpirar – o futuro como atualidade – quanto pelo desaparecimento dessa virtualidade efetiva. [4]

a palavra assombrologia, uma vez traduzida de hantologie [5] como elaborada por Derrida (1993) perde um caráter importante mas ganha sentidos interessantes. Se Derrida quis fazer um jogo entre haunt (inglês para assombrar) e do francês ontologie – uma palavra curiosa, uma vez que o “h” emudece e a palavra soa como plena e simplesmente “ontologie”, e sendo assim seu sentido só aparece na escrita – para falar de uma impossibilidade ontológica, em português podemos pensar num assombro pela sombra, – neste caso, pelo passado… -. to haunt, haunted, haunting, são palavras que não evocam nem de longe a visceralidade da sensação do assombro frente a algo. a força entrópica da tradução também é uma força criativa. desde que a descobri, essa palavra aparece para mim o tempo todo – me assombra – e vejo nela um arremate de algumas ideias latentes e recorrentes nesta escrita. vejo que se o pesquisador artista é o sujeito da encruzilhada, da infecção epistemológica, da impureza das áreas de conhecimento, o stalker malandro-xamã de Tarkovsky navegando a zona, a imagem paradoxal que a palavra evoca me cabe bem: o espectro, algo que existiu e que hoje tanto existe quanto não existe. o “passado de Schrödinger”, que ao mesmo tempo perdura na memória ou se desvanece no esquecimento enquanto não abrimos a caixa-preta; nunca totalmente presente, é ao mesmo tempo o não-mais e o não-ainda.

3.666…// “de início, o luto…”

constatando que o passado não está nessa caixa, que sombras não se capturam e que o que não é e está hoje não é e não está nunca mais, podemos ser assolados por uma profunda melancolia, por um sentido de perda. o luto, como absorvido em Derrida a partir de termos freudianos, é a sobrevida em nosso corpo daquilo que acabou e que queremos resguardar. essa ideia oferece aberturas sobre o processo criativo, ao imaginarmos o artista enquanto sujeito em eterno trabalho de luto, presentificando uma perda.

3.999// o desejo não pressupõe uma falta, o luto sim. o desejo pressupõe futuro mas e no evento de perdermos o futuro?

[4] Tradução minha. Do original, onde ele refere-se especificamente à música: “The future is always experienced as a haunting: as a virtuality that already impinges on the present, conditioning expectations and motivating cultural production. What hauntological music mourns is less the failure of a future to transpire—the future as actuality—than the disappearance of this effective virtuality.” Da página 16 do texto de Mark Fisher intitulado “What is hauntology?” publicado na revista Film Quarterli, vol 66, em 2012

[5] Essa palavra é intraduzível, e assombrologia é a minha aproximação de escolha. Outros autores podem traduzir como espectrologia, mas considero que há uma perda maior de sentido.

Narcisse. 2020 (V). (Marcos Haas. Fotocópia, 2020. Acervo pessoal.

4// “Nenhum descanso/ sem amor,/ nenhum sono/ sem sonhos/ de amor-/ quer esteja eu louco ou frio,/ obcecado por anjos ou máquinas/ o último desejo é o amor” [6]. enxertia: repita a leitura, mas substituindo amor por desejo. o peso do mundo é o desejo. Hudinilson Jr foi um artista em eterno trabalho de luto e eterna sublimação do desejo, obcecado por anjos ou máquinas. ele performa sua desaparição em corpo e imortalização em imagem, meu corpo nunca esteve lá.

[6] Em Allen Ginsberg, na página 115 de “O Uivo, Kaddish e outros poemas”, publicado pela editora L&PM em 2010 

Exercícios de Me Ver. Marcos Haas. Vídeo experimental, 2020. Acervo Pessoal

5// pensar o outro como espelho de nós mesmos, e pensar numa vontade doida de me procurar até me encontrar em artistas do passado; repetir alguns passos quase sem atualizá-los e ficar desconfortável com a ideia de tudo aquilo que fizeram nos anos 70 soa ainda contemporâneo. Hudinilson foi um repetidor e um acumulador de imagens e esteve para sempre enamorado delas. as imagens que acumulamos também são nossos reflexos deslocados; a repetição do motivo atlético nos cadernos de colagem que ele produziu até sua morte talvez não tenha causado a Hudinilson o desconforto que causa em mim. há agência do passado e uma repetição irreflexiva. nesses cadernos de artista reconheço um exercício que eu realizo em redes sociais; o hábito de salvar imagens em painéis temáticos, para referência futura, pra marcar na memória virtual aquilo que não confiamos guardar somente na cabeça; quando vejo minha lista de fotos salvas no instagram, por exemplo, vejo uma incidência absurda de padrões de beleza e uma exaltação da beleza viril que eu não raro sou o primeiro a condenar. essa incidência não causa surpresa, veja bem. a descolonização do desejo é um esforço constante e tomar consciência dos padrões e repetições e leitmotifs é apenas o primeiro passo. o desejo passa longe da seara da consciência. o desejo é um lugar de opacidade, não é translúcido. o desejo é também a impossibilidade de um sujeito coerente, onde “sujeito” significa uma agência consciente

Caderno de Referências. Hudinilson JR. Livro de artista, 1980-2010. Acervo: Galeria Jaqueline Martins

5.5// havemos de pensar, talvez, na repetição de representações como a exorcização de um conceito. a repetição como um agente no trabalho do luto, onde ele é vivido e elaborado, abrindo espaço para novas experiências e fechando a reincidência de padrões velhos – e aqui novamente o caráter espectral, do antes que não se tem e do depois que não se alcança, ambos plenamente virtuais. Deleuze assinala, que do “ponto de vista de um certo freudismo” há uma “relação inversa entre repetição e consciência, repetição e rememoração, repetição e recognição”, o que ele chama de “‘paradoxo das sepulturas’ ou dos objetos enterrados”:

repete-se tanto mais o passado quanto menos é ele recordado, quanto menos consciência se tem de recordá-lo – recorde, elabore a recordação para não repetir. A consciência de si, na recognição, aparece como a faculdade do futuro ou a função do futuro, a função do novo. Não é verdade que os únicos mortos que retornam são aqueles que foram muito rápido e muito profundamente enterrados, sem que lhes tenham sido prestadas as devidas exéquias, e que o remorso testemunha menos um excesso de memória que uma impotência ou um malogro na elaboração de uma lembrança? [7]

[7] Em Gilles Deleuze, nas páginas 23 e 24 de “Diferença e Repetição”, publicado pela editora Relógio d’Água em 2000

6// o corpo morre; a sobrevida é a imagem?

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Marcos Haas: Sou artista e arte/educador formado em cinema na UFPEL e com mestrado em artes visuais pela UFPE/UFPB. Trabalho principalmente questões ligadas à gênero e sexualidade, atualmente com um foco de interesse específico na discussão sobre masculinidades dissidentes.

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