Edição 2 - 30.09.20

A taxidermia inquietante de Walter Potter

Marina Woisky

imagem por Walter Potter

Meu primeiro contato com as imagens da coleção de taxidermia de Walter Potter foi quando um grande amigo me mostrou, dizendo que poderia ser uma boa referência para o meu trabalho artístico. Apesar de, muitas vezes, tentarem relacionar os meus bichos a animais empalhados, minha relação com estes animais não vai ao encontro do meu processo. Sempre que revejo os dioramas antropomórficos de Walter Potter tenho uma sensação ambígua que tange a náusea e o encantamento. É essa experiência inquietante que irei abordar neste ensaio.

Dioramas antropomórficos são montagens de taxidermia em que são construídas cenas que imitam a vida humana com animais empalhados. 

Marina Woisky, “Caça”, 2019. Impressão sobre tecido, costura, gesso e pelo. 160 x (largura variável) x 40 cm

Walter Potter foi um taxidermista inglês do século XIX, que produziu cenas de animais empalhados imitando a vida humana. A taxidermia na época era algo comum, usado principalmente como troféus de caça e exibições em museus de história natural. Porém, na Era Vitoriana, a taxidermia se tornou uma parte popular da decoração, até chapéus eram feitos com aves empalhadas. Em 1861, Potter inaugurou na vila de Bramber, em West Sussex, seu museu onde foi exposta toda a coleção. Esse museu de curiosidades atraiu tanto público que a estação de Bramber teve que ser alongada para acomodar os longos trens necessários para o transporte das multidões nos fins de semana, as montagens eram um fascínio para os visitantes. 

Essas montagens cenográficas se encontram em um lugar entre a fantasia e a realidade, onde Potter cria um universo em que animais são vestidos e inseridos em contextos humanos como em uma ficção, uma fábula, algo inimaginável no mundo real – bichos estáticos, com gestos e em situações tipicamente humanas como banquetes, casamentos, sala de aula etc. -, somente possível por esses animais estarem mortos. Ou seja, se encontram em um estado de objeto, meramente decorativo, cuja principal função seria o entretenimento. É incômodo pensar que os animais só se transformaram em humanos quando mortos, sendo aprisionados à eterna domesticação, tendo seu lado mais selvagem castrado. 

Escola do vilarejo dos coelhos (Rabbit’s village school), c. 1888.

Freud em O Inquietante relata um conto sobre um casal jovem que havia se mudado para um apartamento mobiliado onde se encontrava uma mesa com crocodilos esculpidos: “Ao anoitecer, um odor insuportável e característico espalha-se pela casa, as pessoas tropeçam em algo no escuro, acreditam ver algo indefinível deslizando pela escada; em suma, dá-se a entender que, com a presença da mesa, crocodilos fantasmas assombram a casa, que os monstros de madeira adquirem vida no escuro, ou algo assim. Era uma história ingênua, mas o efeito inquietante que produzia era notável.” 

Os animais dos dioramas de Walter Potter têm algo do animismo, como a boneca que a criança tem certeza que acorda quando ela não está em casa. Como se, ao aproximar os bichos empalhados de seres humanos em forma de bonecos, Potter fizesse da morte algo presente e colocasse esses bichos na fronteira entre real e fantástico, criando assim a sensação de um possível retorno à vida. Esse sentimento ambíguo, entre saber que é impossível um corpo morto retornar a vida, mas acreditar que os bonecos vão se mexer assim que não estivermos na sala, é inquietante. Potter é como um escritor “que denuncia a superstição que ainda abrigamos e acreditávamos superada, ele nos engana, ao prometer-nos a realidade comum e depois ultrapassá-la.”*

  • Citação de Freud que está na página 373 do texto citado antes.

Há ainda um elemento para colocar em questão: esses animais empalhados usados nos dioramas eram originalmente, além de gatos, outros mamíferos que não condizem com o que são no resultado final das montagens. Essa informação faz dessas montagens algo ainda mais indigesto, na medida em que houve uma metamorfose feita pela mão de um homem, que falseia e transforma o que havia de mais natural no mais artificial possível, reiterando seu aspecto decorativo de apreciação humana. Aqui mais uma vez a natureza se encontra à mercê do homem. 

Concluo esse texto trazendo à tona uma discussão que recorrentemente aparece nos meus trabalhos: a relação com a morte. Neste ensaio, me detive somente em como isso vai ao encontro dessa experiência inquietante. Independentemente da época, a morte sempre se mostrou como algo incerto, na medida em que não sabemos precisamente o que virá depois dela. Muitas religiões tentaram amenizar esse status de desconhecimento por meio da justificativa que nossa vida atual é uma passagem e que, depois da morte, haverá outra vida. Ao ver os dioramas de Potter, tenho a sensação de estar me relacionando intrinsecamente com a morte, como um marco, com um corpo sem alma, um vazio, pois só restou as cascas dos bichos. Potter parece eternizar a morte por meio de simulacros da sociedade vitoriana banhados de vida, mas é uma vida forjada que só foi possível pela relação de desigualdade entre homem e natureza. 

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Marina Woisky (São Paulo, SP – 1996) é graduanda em Artes Visuais na UNESP. Participou da coletiva Sem eira nem beira no Espaço Borda em 2020; da ESCOMBRO no Espaço 555, de Vivesse também com esquivanças com Andre Barion no IA Unesp – SP, do 44º SARP no Museu de Arte de Ribeirão Preto em 2019; da exposição Don’t Touch Me com Maria Livman. Sua produção tem como base a apropriação de imagens de esculturas antigas e sua transformação em objetos que ficam no limiar da bi e tridimensionalidade.

Sigmund Freud, “O inquietante”. Esse ensaio foi publicado pela primeira vez em 1919, como “Das unheimliche”. Ele pode ser encontrado em português no volume 14 de suas Obras Completas lançado pela Companhia das Letras.

Mr Potter of Bramber, por Tony Ketteman (em inglês)

O mundo curioso de Walter Potter, Kate Carter (em inglês)

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