Edição 3

Edição 3 - 24.11.21

A matemática da poesia para além do polinômio

Carmen Garcia

A origem latina da palavra Inventar, inventio, quer dizer ao mesmo tempo descobrir, perceber algo que já existe, e criar, fazer existir algo novo. Invento, ou invenção, é a criação de algo novo que parte de uma descoberta. A lâmpada, por exemplo, só pôde ser inventada porque a eletricidade já tinha sido descoberta. A eletricidade foi descoberta por acaso, o acaso do filósofo Thales de Mileto ter esfregado um âmbar em um pedaço de pele de carneiro no século VI a.c. e o pedaço de âmbar começar a atrair objetos leves como penas e serragem. Mais de dois mil anos separam a descoberta da invenção: a experiência com pele de carneiro e o desenvolvimento da primeira lâmpada incandescente. Muitos outros desdobramentos se deram a partir disso, outros ainda se darão nos próximos dias ou milhares de anos. 

Em alguns aspectos, o trabalho com as palavras e as imagens se assemelha muito aos procedimentos científicos. Buscar descobrir relações entre palavras e objetos e criar com isso. Este tem sido meu procedimento artístico: inventos que são desdobramentos estéticos de uma descoberta, de uma coincidência. O processo de realização envolve a manipulação dos elementos visuais e textuais para alcançar a melhor maneira de explorar uma coincidência existente descoberta por mim.

O que a palavra pode nos dizer sobre a realidade? Quais elementos ainda acabaremos por descobrir que estiveram presentes o tempo todo diante de nós, codificados de um jeito que não soubemos perceber? Uma coincidência é uma coincidência quando há alguém que a percebe. Como a árvore que cai na floresta e ninguém ouve: fez barulho? Se duas pessoas que sentem saudade uma da outra tomam exatamente o mesmo metrô lotado e cada uma olha o próprio celular e nenhuma das duas percebe a outra, será o mesmo que tomarem metrôs distintos, nunca saberão da coincidência que não se deu. A coincidência é uma coincidência porque alguém diz: que coincidência! Ou por que outra pessoa poderia dizer: coincidências não existem. A forma da coincidência se desenha quando alguém a verbaliza. Antes disso, é só um dia ordinário, de metrô lotado de gente olhando o próprio celular. 

As palavras também funcionam assim, é preciso olhá-las com tempo. Olhar de ponta-cabeça, repetir, repetir. As coincidências não se escancaram, são presentes embrulhados e suas embalagens enganam. Vez ou outra vejo gente usando palavras ainda dentro da caixa, como uma boneca que permanece para sempre com o durex que segura a franja. 

Hoje tomei conhecimento, na coluna do Marcelo Viana [1], que existem duas correntes matemáticas antagônicas: a platonista e a nominalista. A primeira diz que há uma lei que rege o universo e a tarefa dos matemáticos é descobrir suas regras, enquanto a nominalista sustenta que as invenções matemáticas são uma lógica em si, que, embora aplicáveis à realidade, são próprias do ser humano e desaparecerão junto com a humanidade.

[1] Presidente do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Folha de São Paulo de 12 de maio de 2021. Disponível aqui

Quando eu era estudante do Ensino Médio e tinha muita dificuldade com a matemática, dizia sempre como piada que somente os polinômios me interessavam, embora não os entendesse. As letras sempre me deixaram cômoda, por parecer que seu referencial poderia ser mais verificável. A junção das letras faz caber um objeto: pá, lã, pó, mel, eu, tu, nós. Embora seja muito complexa a equação eu + tu = nós ou eu – tu = só, as letras têm esse apelo imediato. 

A busca dos platonistas me parece bonita e muito semelhante à minha prática poética. Busco nas palavras um tipo de segredo, uma dica, uma lei universal que possa ser descoberta por mim ou por outros e talvez já tenha sido descoberta, mas é mantida em segredo, tão grande seu mistério. Assim como os números, as letras também podem ser usadas para coisas muito banais, como contar estes pensamentos, fazer compras no mercado, listar os ingredientes de uma receita. Os números sempre ao lado, temperando as palavras, suas quantidades, seu preço, sua localização. 

As palavras, por falarem sobre tudo, escondem também os segredos de tudo. Quando descobri o segredo da palavra SERÁ, eu descobri um segredo do tempo, um segredo da história. A palavra SERÁ acolhe a palavra ERA, e o que isso quer dizer? Em matemática, isso pode querer dizer que para calcular o futuro temos que utilizar a variável passado. A imagem que se forma para mim é a história como um novelo que nunca chega a estar cheio nem nunca se esvazia, no qual se continua enrolando e desenrolando lã, fazendo-se e desfazendo-se, nunca cessando de mover-se.

Literalmente a coincidência é a incidência simultânea de mais de um fenômeno ao mesmo tempo, ou a ocorrência de determinado fenômeno quando havia a possibilidade de terem ocorrido muitos outros. A maneira matemática de calcular uma coincidência é a análise combinatória. A conta nos diz quantas vezes uma situação deverá acontecer para que determinada combinação se dê, ou para que se repita determinado evento. Qual a chance de alguém escrever exatamente esta sequência de palavras? Quantas coisas novas precisam ser escritas para que esta página se repita? Em quanto tempo tudo que pode ser pensado já terá sido pensado? São perguntas com relevância filosófica, e com alguma resposta matemática, mas sem nenhuma aplicabilidade. Uma variável importante, o caos, garante que o número nunca chegue, já que outros elementos vão sendo adicionados à conta antes que ela possa ser feita.

Gosto de encontrar nas palavras suas contradições. Uma palavra, uma expressão que diga ao mesmo tempo o seu próprio contrário, como no trabalho de novo, que reflete sobre uma expressão paradoxal, que pode ser entendida por quem ouve a partir de seu contexto – se te conto algo de novo te conto algo de novo ou te conto algo de novo? Ou então, na colagem Já Mais que publiquei em 2017 na revista Ctrl + Verso em que junto duas palavras de expressões publicitárias para fazer uma conta onde Já + Mais = jamais ou, traduzido em números, 1 + 1 = -2.

Não termino de entender como o tempo passa, qual é seu funcionamento e colho pistas para entender esse incômodo. Por isso, interessam-me muito as palavras que falam sobre o tempo, coleciono-as. Junto também as anedotas com potencial de epifania. Por exemplo: Na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007 o mexicano Mario Vázquez Raña, presidente da Organização Pan americana de esportes, começa a cerimônia no Maracanã entoando a palavra Hoy – hoje. Ele quer iniciar a fala dizendo que agora, naquele momento, com aquela palavra inaugura o evento, mas ao invés de dizer hoje, ou por tentar dizer hoje no Brasil, acaba dizendo Oi. A sonoridade ganha da forma escrita e a maioria ganha da razão: O maracanã lotado lhe responde, interrompendo sua fala: Oi!.

A anedota faz lembrar uma expressão sobre o tempo, em espanhol, que me impressiona: pasado mañana. Quer dizer depois de amanhã, mas é como se dissesse na perspectiva do próprio dia por vir, ou seja, o dia em que o amanhã já for passado, seria o equivalente ao nosso depois de amanhã, mas, tanto amanhã quanto depois são palavras que parecem caminhar para o mesmo sentido, caminham para frente. Mas pasado mañana é diferente. É um jeito de falar do futuro, mas é tão contraditório e matematicamente equivocado que equivale a dizer -1+1=+2 ou antes + depois = mais depois ainda. Juntamente à contradição lógica, uma característica formal ainda me surpreende na expressão: uma coincidência questionável, talvez forçada. Ao escrever a expressão no caderno, percebi que na junção das páginas, próximo ao miolo, no fim de uma palavra e começo da outra, isto é, depois do pasado e antes do mañana havia a palavra OI

 

Desse jeito, as duas palavras, pasado e mañana, que se referem respectivamente a antes e depois comprimem no espaço entre palavras a palavra oi, hoy, hoje. Seria o equivalente a antes – agora – depois? Tanto faz. É sempre hoje. Sempre OI, um aceno que as palavras nos dão.

Para entender melhor o caminho do tempo pelos dias, também podemos nos apoiar no verbo que usamos para falar do tempo: Ir: A semana que vem, o mês que passou. Estamos parados no hoy e não nos movemos. O planeta passa pelos nossos pés como uma bola de circo, ou uma esteira gigante, mas nós andamos e seguimos parados no hoje, na costura entre as páginas lidas e as por ler.

Marcelo Viana apresenta as duas correntes matemáticas, mas aposta suas fichas na platonista, mesmo sabendo que não haverá nunca uma comprovação. Aliás, segundo sua coluna, a única maneira de verificar quem está correto seria em contato com a matemática alienígena. De minha parte, aposto que a poesia é platonista. Que as relações possíveis entre palavras estão escondidas – às vezes no som, na rima, na forma das letras – esperando um cientista da linguagem, o poeta, descobrir.

Será, 2020. Carmen Garcia. 30 x 45 cm. Foto: Carmen Garcia
Já mais, 2017. Carmen Garcia. 45 x 35 cm. Foto: Carmen Garcia
De novo, 2021. Carmen Garcia. 25 x 25 cm. Foto: Carmen Garcia

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Carmen Garcia: Artista e educadora, formada em Artes Visuais pela UNESP (2013) onde frequento o mestrado em Artes. Tenho poemas experimentais publicados nas revistas Artéria 11, Ctrl+ Verso e BLA Revista. Participei das exposições Ninguém vai tombar nossa bandeira (2021), FINART Festival Internacional de Artes Gráficas (2019), Via Aérea no Sesc Belenzinho (2018), Hora H na Casa das Rosas (2018), entre outras.

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