Edição 3 - 21.04.21

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Revista Tonel

Duas imagens: a mais antiga, uma fotografia em preto e branco, feita por Josef Koudelka, retrata em primeiro plano um braço estendido, mostrando a hora em um relógio de pulso. Ao fundo, uma enorme avenida completamente deserta. Algo importante está sendo documentado, mas apenas com essa foto enigmática, não se sabe direito o quê. A imagem mais recente, um vídeo, é uma gravação da instrutora de ginástica Khing Hnin Wai fazendo sua sequência aeróbica, também em frente a uma avenida deserta (no meio, um checkpoint), que logo é ocupada com carros estilo BOPE, em mais um golpe militar no Myanmar.

Abstraindo as particularidades tanto dos protestos da Primavera de Praga (1968), registrada na foto de Koudelka, quanto do golpe no Myanmar (2021), as imagens conversam pela estrutura – a lente da câmera retrata um acontecimento histórico de forma indireta ou involuntária, mas no primeiro plano existe um gesto ordinário, banal: olhar o relógio, exercitar-se. Mas em uma, a pessoa está de frente para o que está por vir, e na outra, de costas.

As duas imagens falam de violência iminente, sem mostrá-la diretamente. Elas também descrevem, cada uma da sua forma, um contexto de tensão explosiva, vivida nas ruas. No Brasil de 2021, sabe-se bem o que é tensão, violência iminente e expectativas diante de um futuro que assusta.

Na edição 3 da Revista Tonel, lançamos nossa primeira chamada aberta. Uma vez que tentamos, aos trancos e barrancos, prosseguir com uma existência que tem sempre um plano de fundo de horror, vivendo um cotidiano em rota de choque com os tanques há tempos, queremos convidar nossos leitores a fazer o mesmo, usando este espaço para existir e pensar no mundo, apreciar ou produzir arte, ter um corpo e colocá-lo em movimento em um Brasil fervendo em fogo alto.

 

Imagem de capa da Edição #3: Marina da Silva

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