Edição 2 - 29.10.20

33 dias 3 horas 34 minutos

João Marcelino

imagem por Alan Ixba

Tenho sonhado muito. Tenho sonhado tanto. E aqui, não to falando só daqueles sonhos de olhos fechados. Mas também daqueles que os mantém bem abertos. Talvez seja justamente esses que não me deixam mais dormir. Minha mãe fala que o primeiro passo é assumir o vício, e acho que devo começar dizendo que este é o texto de um….. Já faz 33 dias 3 horas 34 minutos e não sei quantos seguidores que eu .…… Cada vibrada que eu sinto, é uma …….. Eu preciso ver o que tá …….. mas eu ……… então me controlo.

Donna Haraway, em seu Manifesto Ciborgue*, foi quem primeiro sinalizou que a fronteira entre a ficção científica e a realidade social era uma ilusão de ótica. Eu já fui e voltei tantas vezes que já sou amigo dos guardinhas. Alguns me chamam pelo nome, outros pelo user do insta. O que importa é o afeto, né? Na cabeça ou no hd externo, guardo memórias. Se meu corpo físico morre, eu fico. Se meu hd quebra, também fico. A falta de unidade é a única certeza. Como é bom não ser um…….

Nesse tempo em que passamos e estamos trancadinhes em casa, o cotidiano muitas vezes não é e não foi suficientemente atrativo às necessidades relacionais que pautam nossa existência, e foi preciso achar estratégias imaginativas de como driblar a si mesmo. O território do sonho, a presença excessiva nas ambiências digitais, a criação de avatares em jogos online, as madrugadas de sexo virtual, esses e outros caracterizam elementos performativos que possibilitam extensão do dito corpo – ao digitar extensão me vem a ideia de algo exterior e não é bem isso que quero dizer. Com a presença onipresente da internet em nossas vidas, o externo e o interno se encontram e se emaranham, portanto, rompem a ideia de centralidade.

No texto E aí, já somos ciborgues? você consegue saber mais sobre o manifesto de Donna Haraway

Meu sonho agora é parar de sentir a…….. Eu tava mais lá do que cá e agora que tô aqui há 33 dias 3 horas e 34 minutos também não me……tô tentando me manter só aqui sabe? Sei lá. Será que tem gente achando que eu morri? Ai, será que eu tô mesma morta? Em parte sim, em parte não. Vocês já conheceram alguém com quem só convivia nas redes sociais e tinha muito afinidade, porém quando a conheceram ao vivo, por detrás das telas,  ficaram decepcionadas ou surpresas? Bem, acho que esses são alguns dos mistérios que habitam a fronteira dessa dita ilusão de ótica de Haraway.

Já conheci pessoas que buscavam incessantemente uma semelhança com seus avatares criados em seus perfis do instagram (por trejeitos corporais e faciais, maneirismos na fala, posições estratégicas da roupa e mesmo fazendo poses como se estivessem sendo fotografadas para suas redes sociais) . Inclusive acredito que, conscientemente e inconscientemente, já repliquei esse comportamento. Já pensei o contrário também. Me surpreendendo completamente ao encontrar algumas pessoas sobre as quais o feed não dizia muito ou que tinha aquela pegada misteriosa artsy nonsense que não abarcava nem um terço do sorriso e da comunicabilidade afetiva desses seres. Enfim, o ponto é que o feed do instagram, assim como as arquiteturas digitais de outras redes sociais, possibilita esse lugar criativo de fábula pessoal. Criar um personagem para si. Criar um ambiente no qual se vai estar. Seres com os quais vai se relacionar. E isso não quer dizer que essa composição seja semelhante à forma como a pessoa vive sua vida fora das telas.

Agora que tô longe, nesse exílio daquele eu, fico pensando em como era tudo lá. Eu tinha uma família, sabe? Eu tava ali com aquele tanto de gente o tempo todo curtindo……. e falando de…….  toda uma coletividade né? A gente era tudo de bom. Espero que eles estejam bem. Será que alguém morreu também? De famílias ou micro famílias chamo aquele grupo seleto de pessoas com as quais nos relacionamos frequentemente online, das quais vemos e nos engajamos em cada postagem, trocando e conversando regularmente no zap, no twitter, no insta. A minha contaria com umas 7 pessoas. Como microcomunidades entendo todas as pessoas que sigo e que me seguem, com as quais conversava, interagia, dividia grupos do zap e também engajava nas postagens, mas de maneira menos assídua que na convivência online familiar. Tal como seria numa cidade que, no caso cibernético, se entenderia como um imbricamento de microcomunidades habitantes de um mesmo fluxo de informações e interesses. E não mais delimitadas pelos fatores territoriais físicos.

Fico pensando nessa fronteira. Nesse caminho oblíquo do corpo material até o conglomerado de pixels e o que passa a regularizar, então, as corporalidades ou ditar o que deixa de ser um para se tornar o outro. Se pensarmos na forma como os movimentos sociais têm se organizado nos últimos anos, vide o movimento Black Lives Matters, onde um registro de um fato da realidade social criou uma visualidade discursiva no campo digital para que novamente a realidade social fosse posta em cheque quanto a seus próprios imaginários coletivos, podemos perceber como a relação intrínseca entre esses multiversos relacionais construiu uma formulação política que questiona e atua sobre as questões raciais e sociais, tanto dentro da internet, quanto nas ruas, gerando, assim, uma experiência de militância híbrida, em que a percepção e atuação do dito corpo político extrapola a vivência física. Concordando, assim, com o que Haraway apontava em seu manifesto de 1985, em que diz que “o ciborgue é uma imagem condensada tanto da imaginação quanto da realidade material: esses dois centros, conjugados, estruturam qualquer possibilidade de transformação histórica”.

Que lindo, pena que é tão ………. Judith Butler, em seu livro “Relatar a si mesmo“, fala sobre a relação de ser com a norma, sendo norma aqui os conjuntos de leis dispostos por uma sociedade ou organização a fim de estabelecer parâmetros sob uma determinada coisa ou ser. Somos aquilo que nos é possível ser meditante à norma e às estruturas nas quais estamos inseridos. E estar nas redes sociais também é submeter nossas corporalidades a determinados conjuntos e ferramentas normatizantes presentes em cada aplicativo. Pois se a internet também constrói arquitetura, ela cria novos lugares de disputa de poder, os quais igualmente habitamos. Quando, então, serão marcadas as primeiras assembléias de usuários do instagram? facebook? zapzap? tiktok? É fascinante todo esse papo de auto-ficção, mas nesse processo de produzirmos a nós mesmos e nos comunicarmos com o mundo, acabamos nos alienando do domínio dessas faculdades criativas e fornecendo todo esse arranjo de dados à grandes companhias e corporações, assim como escancara o documentário “The Social Dilemma”. Então pra quem vocês estão trabalhando? Por que não estamos discutindo as diretrizes e regras com as quais estamos nos relacionando dentro dessas redes, assim como debatemos as leis da vida sociopolítica?

33 dias 3 horas e 34 minutos fora daquilo e dentro disso, vivendo nisso e pensando naquilo. Por hora estou renunciando da minha carteirinha de ciborgue, mas já nem sei se isso é mesmo possível, afinal meu corpo ainda existe aí né? Também não estou querendo dizer que isso me faz mais humano, porque essa também é outra ilusão e papo pra outra hora. Somos sempre dois, três, quatro e além aqui e aí dentro. Estamos sempre juntes. Online e offline de mãos dadas dando tchauzinho. Sem começo nem fim. Então, bora lá, se organizar direitinho, a gente faz o quê?

 

• • •

João Marcelino é artista multimídia graduando em Artes Cênicas na ECA-USP. Atua nas áreas de performance, música e dança, com interesse nas relações do corpo nas ambiências digitais.

Sobre aquilo que um dia chamaram corpo: corporalidade nas ambiências digitais, Danilo Patzdorf Casari de Oliveira (Dissertação  de Mestrado em Teoria e Pesquisa em Comunicação na Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017)

Manifesto Ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX, Donna Haraway

Nós, ciborgues: O corpo elétrico e a dissolução do humano, Tomaz Tadeu 

Relatar a si mesmo – Crítica da violência ética, Judith Butler

Você pode gostar de...