Edição 1 - 07.07.20

15 minutos de Fama ou 15s de Stories??

Mariane Beline

Andy Warhol disse a icônica frase que “no futuro, todos terão seus quinze minutos de fama” e, bom, de certa forma, previu o que estava por vir mais de quarenta anos depois com as intensas tentativas dos sujeitos de se destacarem nas redes sociais.

Há toda uma estética fabricada nas redes sociais, do que o autor Manovich chama de Instagramismo, como uma analogia às vanguardas de arte moderna do início do século XX, como o cubismo, o surrealismo, etc. Assim, sugere que, como esses primeiros ismos, o Instagramismo oferece sua própria visão do mundo e uma linguagem visual, é, portanto, um novo tipo de operação tanto social como estética.

Esse aspecto social estimula uma pressão social mantida por um status social, por competição e diversos tipos de julgamento. Da vontade insaciável da busca pela fama deriva assim uma exibição excessiva da vida online, trazendo alguns aspectos negativos tal como o terrível Baleia Azul, o qual propunha desafios perigosos e destrutivos que levaram a suicídios de adolescentes que queriam de alguma forma participar dessa demanda.

Jaron Lanier* critica ferozmente o uso das redes sociais, pois acredita que os sujeitos não possuem mais livre arbítrio, sendo o tempo todo bombardeados por propagandas que são na verdade uma forma de adaptação do velho modelo publicitário, de forma que vão sendo hipnotizados por técnicas que não podemos ver e para propósitos que não conhecemos. 

No mesmo sentido Byung-Chul Han* avalia que há uma falta total de distância e que a intimidade fica completamente exposta publicamente e o privado se torna público. Há nas redes sociais o deslocamento da informação do público para o privado, permitindo assim a intensificação da cultura da celebridade.

Há nas redes sociais o deslocamento da informação do público para o privado, permitindo assim a intensificação da cultura da celebridade.

Essa abertura para possibilidades de sucesso nas redes sociais vem marcada na presença dos chamados influenciadores digitais, dos quais a vida é o próprio conteúdo, seja em vídeos, fotografias e em como utilizam a propaganda via sua figura privado/pública para converter cada interação em renda, cada momento vivido em potencial de lucro.

Há um aspecto obscuro por trás dessa lógica, uma vez que acaba por criar uma egotização e por consequência uma atomização da sociedade uma vez que não há mais tanto espaço para atividades coletivas, apenas para uma interlocução de um dispositivo para milhares.

Ou seja, essa questão da vida como publicidade ou no caso de Warhol, da vida como obra, é  como um prenúncio do que veio a ser o modelo do capitalismo 24/7, como se ele já vivesse sob a lógica da sobreposição do lazer e do trabalho dos dias de hoje. 

No texto “When life goes to work: Andy Warhol” a autora Isabelle Graw* comenta que o mundo da vida privada é cada vez mais a vida profissional, chamando a sociedade inteira de sociedade fábrica (factory society), referência direta também ao estúdio de Warhol que parecia um sonho pós-fordista no qual as pessoas encenavam a si mesmas. Reflete sobre o que é, portanto, a cultura das celebridades, que seria uma forma social de selecionar e recompensar indivíduos por terem obtido sucesso em mercantilizar suas próprias vidas.

O curioso dessa constante ânsia pela fama é que nos trabalhos de Warhol a fama vinha de forma dúbia, se declara, mas também trás uma perspectiva bastante deprimente e irônica do culto à celebridade, mascarada de glamour e felicidade. Isso se dá principalmente quando o artista retoma figuras memoráveis como Marilyn Monroe, Jackie Kennedy e Elvis Presley que tiveram vidas com acontecimentos trágicos e mortes terríveis. 

O próprio warhol, vítima de um atentado ao ser atingido por tiros no peito por Valerie Solanas, autora do S.C.U.M. Manifesto (Society for Cutting Up Men), chegou a passar pela vívida experiência de quase-morte. Solanas, tendo sido distratada e negligenciada pelo artista, se tornara obcecada e afirmava que ele queria roubar seu trabalho e que tinha muito controle sobre sua vida. Após o atentado e recuperação, Warhol tornou-se mais reservado na vida pública e Valerie foi internada em um hospital psiquiátrico.

Warhol Would Be Proud, Luís Mourão

De qualquer forma, sua previsão da busca da fama estava acurada, uma vez que sempre há alguém ansioso por se destacar. A grande questão é que a utilização das redes sociais é um capítulo tão recente da história da humanidade que é quase como se ainda estivéssemos no jardim de infância em nível de aprendizado, na fase de teste, de erros e acertos, de tatear essa sociedade mediada pelos dispositivos na espera de que em algum momento aconteça um assentamento de fato. 

*Jaron Lanier é um escritor norte-americano de filosofia da computação, cientista da computação, artista visual e compositor de música clássica, é considerado um dos inventores da realidade virtual. 

*Byung-Chul Han é coreano, professor de filosofia e estudos culturais na universidade de Berlim e tem diversos livros publicados. 

*Isabelle Graw é professora de teoria e história da arte na escola de arte Städelschule em Frankfurt, na Alemanha.

Referências

Manovich, Lev. Designing and Living Instagram Photography: Themes, Feeds, Sequences, Branding, Faces, Bodies.

Automating Aesthetics: Artificial Intelligence and Image Culture.

LANIER, Jaron. Dez argumentos para você deletar suas redes sociais. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018

________. Gadget : você não é um aplicativo! [tradução Cristina Yamagami]. – São Paulo : Saraiva, 2010.

GRAW, Isabelle. When Life Goes to Work: Andy Warhol. (2010)

CRARY, Jonathan. 24 /7: Capitalismo Tardio e os fins do sono. São Paulo: Ubu Editora, 2016.

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